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por The Cat Runner, em 23.10.16

VIAGENS NA MINHA TERRA

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Coisas de pensar...

 

Chega a uma altura da nossa vida em que começamos a olhar para dentro de nós e sentimos, pela primeira vez, de forma assim tão vincada, as marcas da saudade que vivemos.

A dona Emília tinha por hábito meter-me “no canto”, de castigo, só porque eu pisava a banana do lanche do João Gordo.

Havia um piano na sala da dona Emília, e uma mesa, ao canto, uma mesa castanha, quadrada, grande, enorme, cheia de papéis, lá atrás, atrás da mesa, espartilhada entre a parede, a cadeira da dona Emília.

A dona Emília foi minha explicadora, desde os quatro anos, ficava ali na rua do “Combóio”, mesmo ali ao lado do restaurante.

Hoje acho que é a sede de um partido de direita.

O “Combóio”, com acento, ainda continua a servir jantares e almoços.

A dona Emília morreu, entretanto, e nunca lhe disse os ensinamentos que me deixou, e a saudade.

Havia, ali daquele lado da rua, onde agora é uma loja de arranjos de roupa, a lojinha que vendia gomas, sugus, doces, chocolates Regina, grãos de café com recheio e quadradinhos de marmelada.

Do lado de lá da rua, nas pedras do passeio onde joguei o meu primeiro jogo de futebol, sózinho, mais marcas da minha passagm.

Imaginei o estádio só meu, naquela rua, só minha.

Só as minhas botas Xavi eram reais. Foi a minha avó que me as deu. As primeiras.

Futebol a sério jogávamos na rua de trás.

A rua ladeada pelo muro da linha do comboio e as traseiras do “Combóio”, da casa da dona Emília, do Foto Nunes, do Fortes sapateiro e do correeiro.

O correeiro é uma dessas marcas cravadas pela saudade que vivo.

Era ele quem nos dava a esponja, os trapos e as linhas, de onde nasciam as nossas bolas do jogo. O campo marcado, com  linhas amarelas. Se batia por cima do muro mais pequeno era fora.

Nos fins de tarde, quando a minha avó chegava da loja onde fazia e vendia cestos de verga e vime, comíamos donuts e víamos a Rua Sésamo. Eu e o “Nunes”, o neto da fotógrafa, viúva do fotógrafo.

Aos domingos via o Tarzan, a preto e branco, com a minha avó. Depois íamos os dois, de mão dada, rua fora, tomar chá com o doutor Franco Nogueira, com as irmãs solteironas, o com o doutor Pisiocchi.

Tudo isto numa rua, num floco de saudade.

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Às vezes dou comigo a revisitar os mundos dessa rua, que continua a ser só minha.

Paro junto à loja de arranjos de roupa, espreito a montra do “Combóio”, como quem não quer a coisa, sinto frio quando passo a porta seguinte, onde vivia a dona Emília, onde agora, acho,  é a sede de um partido de direita.

Uma vez enchi-me de coragem e entrei.

Em frente, no pátio do prédio, a porta do escritório de José Falcão. À esquerda o corrimão castanho que fazia uma curva e um recanto junto à parede, por onde escorreguei vezes de me perder, até hoje.

Subi o primeiro vão de escadas, depois o segundo, olhei a porta da Rosa, em frente,d d Foto Nunes à direita, a da casa da minha avó à esquerda.

A nossa casa.

A minha terra.

Há dias recebi um sms de um amigo, a convidar-me para a inauguração de um busto de Álvaro Guerra.

Que era uma instalação gira, que ia ficar surpreendido, e que gostava que eu fosse.

Nunca antes tinha participado num evento idêntico, na minha terra, porque nunca antes fui convidado. Aceitei.

Convenceu-me o argumento que aquela instalação era fora do normal, naquele lugar mágico, que tanto me diz, disse-me, fazia sentido a minha presença.

Estive presente. O autor da obra misturado com os demais, que nunca são a mais.

“António” é, para mim, o melhor cartoonista do mundo.

É de Vila Franca de Xira, de onde eu sou, de onde vim para fora de lá, sem nunca de lá sair, da minha rua, das minhas ruas.

Foi ele quem desenhou o busto do diplomata, de frente para o nosso rio, o rio que acompanha as margens da nossa vida, onde o “maestro” Mário Coelho se deixou ir na maré vazia até para lá de Alhandra “a toureira”, tendo voltado a pé, pela margem de lá, até ao barco, que naquela altura ainda não havia a ponte que não nos deixar separar.

Foi em conversa com ele que voltei a todos aqueles momentos cravados em mim.

Olha, Helena, este é o José Gabriel, é de cá, é agarrado à terra”.

“Muito prazer, quanta honra”, respondi aquela senhora, que me fez ver de novo para dona Emília.

O mesmo cabelo, o mesmo traço/esquadro, a mesma elegância fidalga, o mesmo espanto.

Antes de conhecer Helena Guerra, Mário Coelho tinha-me confidenciado que sabia quem eu era:

“Eu via-o, todos os dias, pela manhã, junto à nossa casa, a deixar os meninos na escola”.

Apesar de ter gelado por dentro e por fora, atirei:

“Maestro, que honra. É a primeira vez que tenho o privilégio de conversar consigo. Permita-me; desde que tenho memória, o senhor sempre esteve presente nela. Este momento será inesquecível, para mim”.

Mário Coelho foi um dos grandes nomes das corridas de touros, mas foi um homem da vila que encantou o mundo inteiro. Oitenta anos, como se fossem apenas cinquenta.

Elegante, lúcido, conhecedor das memórias.

Contou-me uma meia-dúzia de histórias que, o que é raro, ouvi, calado.

Que aprendeu a tourear sózinho, porque aos sábados tinha que deixar em casa a sua parte, para governo da família, não podendo por isso frequentar a escola de toureio, em Lisboa, apesar dos inúmeros convites.

A colhida, ali mesmo ao lado de casa, que o esventrou, “por parvoíce”.

As tais travessias do Tejo, para a outra banda, com o pneu (câmara de ar) como garante de uma viagem segura.

Histórias que são minhas também.

Ontem convivi com esta gente toda, com estas memórias todas, reflexos de mim, chamamento da terra.

Sinto que andei, com as botas de futebol Xavi calçadas (eram pretas com a risca em amarelo e com pitons de borracha), pela rua do correiro, a minha rua, e ainda lá estava a mercearia do senhor Marciano Mendonça, o café/restaurante Sonda, a Disco-Som, e do outro lado da rua o Dó-Ré-Mi e a loja dos cestos da minha avó.

Foi na inauguração do busto do diplomata, jornalista e humanista Álvaro Guerra, um ilustre da “vila”, como o Redol, como tantos nomes que guardo na memória, cravada na pele, por dentro e por fora.

À noite voltei lá.

Fui correr. Estava fresca a noite, daquelas noites em que eu gosto de correr.

Chuviscava e o rio estava bravo, marés-vivas.

Desaconselha-se, por isso, mergulhos e tentativas de travessia a nado, ainda que com o "pneu" (câmara de ar).

Fui correr no sítio mágico.

E, o mais incrível, é que tudo isto aconteceu ali mesmo, no fim da minha rua!

 

 

 

 

 

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publicado às 12:46



Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

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