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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

17.06.19

UNIÃO – UMA VIAGEM AO SONHO - (PRIMEIRA PARTE)


The Cat Runner

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Há domingos que ficam para sempre dentro de nós.

A magia das tardes de domingo.

Costumava ir com a minha avó, aos domingos à tarde, passear no Jardim.

Levava-me a ver o rio, de mão dada, os patos e os macacos, os pavões e os Porquinhos-da-Índia, comprava-me torrões de Alicante  e Jorgelins e algodão muito doce e seco. Ainda lhe sinto o cheiro redondo e açucarado a entrar-me pelas narinas.

As tardes de domingo são especiais e há domingos que ficam para sempre dentro de nós.

Nunca fui grande jogador de futebol. Era gozado pelos meus amigos, ainda hoje somos amigos, por achar que jogava bem. Não jogava. Continuo a não jogar.

Mas, joguei no União. Quando era Escolas e Infantil.

Todos nós jogámos no União. Até mesmo aqueles que nunca lá jogaram.

Todos somos União, os que são da vila.

No Cevadeiro mandamos nós.

É assim, desde que me lembro.

Neste domingo almocei cedo e decidi sair, sozinho.

Conduzi até à vila, que é cidade. Faltavam duas horas para o jogo, meia hora para abrir o portão.

Não vivo na vila há anos. Mas, a vila vive em mim, todos os dias, há muitos anos, desde sempre.

Estou apenas a um atravessar de uma ponte. O nosso rio.

De tempos a tempos, conforme se-me impele, dou comigo a caminhar nas ruas onde pareço parar no tempo.

Estacionei junto ao Museu e comecei a caminhar pela rua do antigo quartel de bombeiros.

A magia que aquilo me mostrava, quando a sirene tocava e os bombeiros desciam, escorregando, agarrados àquele tubo mais alto que Santanás. Nós, embasbacados, cá em baixo, a olhar, olhos arregalados e com uma secreta admiração por aqueles homens.

Aos fins de semana havia baile no salão dos bombeiros. Soirées aos sábados e matinés aos domingos. 

Ali à frente, no largo onde era a garagem dos barcos do ISN e dos bombeiros, na esquina do lado esquerdo, viviam umas senhoras de idade.

Pessoas de classe abastada, que naquela altura a vila tinha muitas famílias abastadas e muitas pobres.

Foi ali que vivi um dos maiores apertos da minha infância.

Viemos de ver o União e resolvemos ir brincar às guerras.

Aquilo só acontecia porque naquela altura a guerra fazia parte das notícias, de onde nunca saiu. Éramos miúdos. Tinhamos metralhadoras, pistolas e latas de tinta vazias. E, liberdade, que só as tardes de domingo conseguem transmitir-nos.

Atirei uma dessas latas de tinta, que era uma granada imaginária potente, tão potente que estilhaçou o vidro da janela da sala das senhoras de idade. Eram irmãs.

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Pensava que não me viam, a mim e aos meus camaradas de armas, escondidos naquele monte de areia retirada do rio, junto à betoneira, das obras que estavam a reparar a fachada do armazém dos barcos do ISN.

Fugimos para a rua de trás, junto à linha do comboio.

Era lá que tínhamos o nosso campinho, com piso de paralelo, marcado com uma tinta amarelo-gema de ovo. Quando bater no muro é fora, gritávamos, como que a definir uma regra que todos conheciamos!

Parece que ainda o vejo, o Vitor Rosa, capitão, a deambular pelo pelado do Cevadeiro fora, braços abertos, a trote, a conduzir a bola, com afecto.

Um capitão, de bigode, é um homem com pés generosos.

Nós gostávamos dos jogadores da primeira divisão, mas também dos do nosso clube.

Havia jogadores que eu adorava ver, o capitão, o Joaquim Lobo, o Murtinheira, sou desse tempo.

Na rua de trás imaginávamos que estávamos no Cevadeiro a fazer remates que nunca aconteceram.

Entretanto, chegou o meu pai, que aos domingos à tarde as notícias corriam rápido, na vila.

O resto depreende-se.

Pagámos o vidro e fui obrigado a entrar na sala de jantar das irmãs, para ver os estragos. Uma sala linda. Antiga.

Virei à direita, em direcção à passagem de nível do cais, que fica no entroncamento com a rua da rua do “Diversões”, o salão de jogos onde passávamos tardes inteiras a jogar aos matraquilhos, roda bota fora. Deixei para trás das costas uma guerra mundial travada com latas de tinta, vazias.

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Parei junto à passagem de nível, já com a praça de touros lá ao fundo.

Entreguei o bilhete ao “meu irmão”, dei-lhe um abraço e segui, tranquilo, emocionado.

À minha direita a rua onde havia o posto da PSP.

“Olha, o Zé, há quanto tempo que não te via!”, ouvi chamar lá do alto.

Tirei os phones, olhei para a varanda do prédio de dois andares.

Há anos que não falava com a Zézinha, a mãe da Lídia, que me viu crescer, a Zézinha e a Lídia.

“Gostei muito de a ver, um beijinho grande”.

“Um beijinho, Zé e que ganhe o nosso União".

Estranha, esta minha liturgia.

Aqui, no largo da praça de touros, era uma vez um campo de futebol, quando não havia Feira ou Colete Encarnado.

Era de cascalho.

Ali ao lado da praça o cemitério. Logo a seguir o Campo da Feira.

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O Campo da Feira também era de cascalho e de areia do rio.

Os meus avós vendiam na Feira, nas feiras.

Cestos de vime e verga. Eram cesteiros.

Levavam-me com eles para todas as feiras. Éramos quase nómadas, embor a sua oficina e loja fossem bem no centro da vila, numa das mais importantes avenidas.

Já nessa altura a fronteira, para lá da Praça de Touros e do Campo da Feira era marcada pelo Campo do Cevadeiro.

Do terreiro dos meus avós, na Feira de Outubro, só não dava para ver o campo, por causa do circo, que tapava a visão. E a pista dos carrinhos-de-choque.

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Este domingo, mais do que nunca, lembrei-me dos meus avós, que me embrulhavam em cobertores papa e me aconchegavam ao um canto da barraca, cheia de cestos, cadeiras, caixas, de vime e verga, feitos pelas suas mãos vividas.

Lá à frente é o campo do Cevadeiro, lugar mágico, onde vai terminar esta viagem de sonho.

 

(Continua... daqui a 1 hora )

 

 

 

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