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VOLTEI A TER PERNAS ( DIA 9 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 31.01.18

 

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Passaram quatro semanas, desde que comecei a narrar aqui a minha aventura, que vai durar até Setembro.

Poucas coisas me correm bem na vida, mas esta correu como previsto, pelo menos tem estado a correr.

Quatro semanas depois tive “alta” das pernas.

As contracturas desapareceram todas (resta restos de uma, mas já lhe ganhei carinho), depois do tratamento-choque à base de massagens ( 7 em 4 semanas) e mudança brusca de hábitos alimentares, mais vitaminas e magnésio.

“Primeiro objectivo atingido, as tuas pernas estão prontas”, disse-me o meu treinador, depois de mais uma sessão de massagens.

“Volto a dizer que nunca vi uns gémeos como os teus, não sei como conseguias correr com tantas contracturas. Agora vamos dar mais um passo em frente”.

Foi, provavelmente, a melhor notícia que recebi este ano, que não tem sido um ano nada fácil, mas isso são outras histórias.

Comecei mal o dia, aquela cena da austeridade, o recibo de vencimento sem duodécimos e sem mais um bocado de dinheiro que tanto me custa a ganhar.

Fiquei neura, quando fico neura refugio-me, mas hoje tinha que ir fazer 40 minutos de bicicleta, porque hoje era dia de massagens e o meu treinador queria perceber como é que as pernas iam responder após três semanas sem grande esforço.

Não tinha como não ir.

Pedalei 14 quilómetros, alonguei bem, fiz-me à estrada e não, ainda não me passou a neura, só vejo as caras do Socrates, do Passos e do Costa à frente e esta vontade de lhes fazer maldades ainda me consome.

Mas, diz-me o José Carlos: “tivemos sucesso com as tuas pernas”, e isso alegrou-me.

“Sabes do que tenho saudades?”, perguntei-lhe eu, depois de desabafar com ele sobre a revolta que me invade por causa desta gente que comanda este país, gente que eu não respeito, nem que morra agora, aqui. Lamento.

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O meu treinador ouviu o meu desabafo austero, e foi-me animando, à medida que os seus dedos se cravavam nos meus músculos e me ia dando as boas notícias.

“Tenho saudades, nem que seja de correr só um bocadinho”.

“Não te preocupes, para a semana vamos introduzir a corrida, no treino”.

Foi o que precisava de ouvir, para vir escrever este texto, se não aposto que ia ficar aqui, comigo próprio a chamar nomes a estes filhos de uma enorme meretriz.

O desporto faz parte da minha vida, é a ele que recorro para  aguentar toda esta porcaria, os impostos, o trabalho, a corrupção, as preocupações, esta vida cada vez mais merdosa que nos impõem.

Não corro há quatro semanas, que fique claro.

Nos dias que faltam até ao fim de semana vou continuar a fazer reforço de pernas, core e membros superiores, e até lá vou receber o “mesociclo” que  meu treinador me vai enviar e iremos falar ao telefone para acertar detalhes desta segunda fase, mas para a semana tudo vai mudar, outra vez.

A maratona é ali à frente.

Até lá é lutar, contra mim, contra os fantasmas, contra este sistema abjecto, e acreditar, acreditar em mim, sobretudo e sobreviver.

Acreditar que se eu consigo passar da noite para o dia e fazer-me à vida, porque quero correr a maratona, acreditar que estando focado me abstraio do resto, acreditar que estas elites, um dia, um dia vão meter a mão na consciência.

Eu sei, sou um utópico.

Esta gente só mete a mão nos bolsos, dos outros, sabem lá eles o que é consciência.

Agora só quero que chegue segunda feira, para voltar a correr como se não houvesse amanhã.

Por dores nas pernas já não as há.

Valha-me isso, pelo menos, porque de dores está a minha alma cheia.

Nunca estive tão farto, como agora!

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publicado às 21:49

VOU COMER A SOPA TODA (MARATONA DIA 1)

por The Cat Runner, em 09.01.18

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Há pessoas que ficam para sempre registadas na sebenta da nossa história.

O meu treinador é uma dessas pessoas.

Conheci-o apenas há um dia.

Mas, alguém que treina atletas de alta competição e se disponibiliza para preparar um jornalista para uma maratona, sem pedir nada em troca é alguém que está pelo bem, pela ajuda, pelo amor à corrida.

Conheci o José Carlos da Run Advisor por alturas do Natal, mas ele não me conhecia.

Foi um amigo comum, treinado por ele, quem me o apresentou, estávamos no jantar de natal da ZFortes, a nossa escola de Muay Thai.

O meu amigo, o Zé Duarte, tem 50 anos, despediu-se há semanas do emprego de 25 anos. Era chefe de oficina. O Zé faz ultra-trail, este ano vai fazer o mítico Mont Blanc.

Dizia-me ele que descobriu o José Carlos na internet.

O Zé precisava, como eu, de um especialista que o ajudasse a fazer as coisas bem feitas.

Nessa noite comprometeu-se a meter em contacto comigo o seu treinador, mas não estava totalmente certo que eu conseguisse ser treinado por ele. Não custava tentar. Tentei.

Consegui.

No sábado trocámos mensagens, na segunda feira estávamos frente a frente, pela primeira vez, eu e o meu treinador.

Não é difícil criar empatia com o José Carlos, é reconfortante ouvi-lo falar sobre corrida, sobre treino, sobre nutrição, sobre recuperação.

Depois de fazer uma análise visual aos meus pés e às minhas pernas, depois de um questionário ao qual tive que responder, saímos para uma corrida de cinco quilómetros.

Estamos em testes.

Fizemos 33 minutos, entremeados com meia dúzia de metros de caminhada.

Senti necessidade de chegar a um especialista porque quero preparar a maratona, com pés e cabeça, sem ter que navegar à vista.

Em teoria, em Maio, fazia-me à estrada, adiámos para Junho ou Julho, porque precisamos das próximas quatro semanas para recuperar os estragos que permiti infligir a mim próprio.

Mas, aqueles que me conhecem e que me acompanham sabem que os últimos dois anos têm sido um pesadelo para mim.

Para não cair na rotina de deixar de correr, tenho corrido, diariamente, cheio de dores musculares nas pernas.

Até à semana passada, durou dois anos, nunca tinha decidido ir à oficina.

O José Carlos percebeu imediatamente as minhas dificuldades e os meus condicionalismos físicos.

Os meus gémeos não enganam.

Agora, para além de começar a corrigir algum desalinhamento provocado por uma gravíssima lesão que tive em 2004 ( altura em que quase tiveram que me amputar a perna ), tenho que eliminar estas dores.

O objectivo é a maratona, mas esta é agora a prioridade.

Se não recuperar não consigo aguentar os treinos que estão para vir, e se aguentar, seguramente, não conseguirei acabar a Maratona.

E, isso é ver desabar tudo à frente dos olhos.

"Deves ter uma enorme capacidade de resistência, não sei como conseguiste correr durante dois anos com as pernas nesse estado", disse-me.

Coisa pouca, fibroses e contracturas musculares crónicas.

Resumindo, os músculos enrolam-se uns nos outros, devido a vários factores, e provocam dores enormes.

Tenho umas 3 ou 4 na perna esquerda, a que sofreu o acidente, e umas 4 ou 5 na perna direita, que durante anos tem suportado a cobardia da esquerda, porque entretanto criei um desconforto na planta do pé, fruto da defesa que a própria perna decidiu encetar.

Chamam-lhe verruga plantar. Chamo-lhe prego espetado no pé.

Não tem sido fácil, não me estou a queixar, e sei que o que está para vir será, provável e igualmente duro, mas cada quilómetro da vida é ele próprio duro, e eu gosto da dureza e do desafio, sem o desafio sou outra coisa qualquer.

Alonguei, no final, fizemos massagem profunda, dolorosa e conversámos mais um pouco.

O enigma é perceber porque tenho estas contraturas crónicas e a prioridade, como disse é eliminá-las.

Desconfiamos que a causa está relacionada com a alimentação deficiente.

Espantado, ficou o José Carlos quando me questionou sobre os meus hábitos alimentares.

Ao logo dos anos e das leituras e das corridas foi-me fácil perceber que o regime alimentar de quem pratica exercício é decisivo. Mas, nunca interiorizei que estava obrigado a isso.

“Bebo um iogurte e um café, vou treinar, como um pastel de nata e um café, vou trabalhar…”

“E o jantar?”

“Como uma tosta e um sumo…”

“E, de madrugada, quando chegas a casa?”

“Bebo bebida de arroz e como o que houver, uma broa, por exemplo”.

“Conclusão: não te alimentas!”

Confesso que tive vergonha.

Nos últimos dois anos, para além das dores permanentes que me obrigavam a sofrer mais do que era suposto, nunca consegui, durante esse período melhorar a minha corrida, antes pelo contrário, chegando ao ponto de querer desistir.

“Tens que mudar os hábitos alimentares já hoje, tens que ingerir proteína e hidratos, tens que ir hoje a um nutricionista”.

E, fui.

Conversei com a Mariana Gameiro, que até dá consultas online, e pouco tempo depois de me ter despedido do José Carlos, na Beloura, já estava a comer frango, com feijão e arroz, e um ovo estrelado extra. Repeti a dose ao jantar e hoje, ao almoço, já ataquei peito de frango, com salada e arroz.

Como as análises clínicas que fiz estão boas, tirando o exorbitante colestrol, começo a concluir o que me disse ontem o meu treinador, é da alimentação, que eu não fazia.

O carro não anda se não tiver combustível, é tão simples, e eu sou tão estúpido.

O meu treinador decidiu que nas próximas duas a quatro semanas não há corrida, para recuperar as pernas, apenas trabalho específico de ginásio, regime alimentar cuidado e muitas massagens daquelas que fazer chorar, mas que depois fazem sorrir.

Estou a seguir tudo à risca, de tal forma que nunca antes as pernas me doeram tanto como hoje.

É das massagens.

Quinta feira há mais e há reavaliação destas primeiras horas.

Quase não mexo as pernas, de tão doridas e pesadas, mas já consigo sorrir.

Ora, voltando ao início desta crónica, se alguém (que nem sequer conhecias) te provoca esse momento intensamente mágico que é um sorriso, esse alguém ficará na sebenta da tua história.

Mais do que o sorriso é a mudança que estou a viver;

Estou a lutar por um objectivo, estou dedicado de alma e coração, estou a adaptar a minha vida pessoal e profissional e a sacrificar, em nome desse desafio.

Eu sei que vou correr a Maratona, não que lhe tenha perdido o medo, só que quando me desafio os medos transformam-se em determinação e em coragem.

Se ontem eu queria correr os 40 e dois quilómetros e picos e terminar bem, hoje eu quero correr a Maratona em menos de quatro horas.

E vou conseguir.

Porque as pernas vão parar de me doer e eu já voltei a sorrir.

É assim que tem que ser e assim será.

Ah, e prometo comer a sopa toda.

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publicado às 21:00


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