Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

carlossamoraEasyResizecom.jpg

 

São vinte quilómetros, senhoras e senhores.

Parece fácil mas é uma carga de trabalhos.

Escrever um quilómetro não é uma tarefa simples, quanto mais vinte, quanto mais quarenta e dois e mais uns pózinhos, só que a vida não é, ela própria fácil.

Falemos, a partir daqui, de superação, essa palavra tantas vezes dita, que tanta gente guia, por essa vida fora.

É disso que se trata.

Trata-se de tomadas de decisão. É isso que fazemos dia-após-dia, tomamos as decisões que entendemos serem as melhores, para nós, para aqueles que amamos, para os outros.

Mas, é o “eu” que deve sobrepor-se ao que nos rodeia. Sobrepor-se sem anular o que nos rodeia, valorizando, mais e mais.

Não há outra forma de correr esta estrada, quando o desafio nos chega e nos enfrenta.

Não somos nós, embora queiramos pensar que sim, que o enfrentamos, nunca assim foi.

Somos nós que queremos transformar as nossas dúvidas em certezas, somos nós que queremos que os nossos sonhos e desejos sejam reais.

O que nos rodeia ajuda ou dificulta, por isso também deve ser valorizado.

Vale a pena acordar, sair da cama, lavar a cara, sorrir ao espelho, para nós próprios.

Agir, em vez de ficarmos a sonhar na esperança que os pesadelos passem quando abrimos os olhos.

Quando agimos, persistentes, corajosos, os desejos realizam-se.

E, por vezes, é esse o momento em que percebemos que, afinal, não estamos sós.

Sem medo, sem medo do que está para chegar, porque a coragem está do nosso lado.

Uma maratona só se corre com coragem, tenha ela a distância que tiver, porque só vivemos uma vida.

Quando decidi ir correr a maratona, nas ruas de Berlim, um dos meus objectivos passava por criar em mim uma motivação especial, para sair do marasmo a que os meus dias me tinham condenado.

Acordar dos sonhos, matar os pesadelos.

Corri atrás daquilo que queria, embora tenha escolhido o mais dos exigentes testes, havia outros, mas era a maratona que eu queria, pela dureza que ele representa, pelas marcas que deixou em mim.

Ou morro ou mato-me, como diria o outro.

Ou vivo, ou viverei, como digo eu.

Eu. Ponto.

Este texto soa a um exercício de narcisismo, mas está muito longe disso.

Pelo contrário.

Ele fala de mim, porque sou eu que o escrevo, sou eu quem o corre, dureza, dificuldade, ousadia, coragem, porque não basta desejar, é preciso merecer, fazer por merecer, seguir em frente.

Viver é como correr, é estar em constante movimento, respirar sem parar, é ter um plano, um trajecto e tentar não nos desviemos da rota, a não ser que tenhamos que a corrigir, não para encurtar o caminho, mas para o tornar mais acessível, porque o fim é lá à frente.

Começar pelas pequenas coisas, um dia de cada vez, para ganhar confiança, a nossa e a dos outros e sermos mais merecedores daquilo que temos, daquilo a que queremos.

Eu não tenho muitos amigos, tenho muitas pessoas que conheço, a maioria, fruto da minha (pouca, felizmente) exposição pública, à qual tento fugir cada vez mais e mais, sempre a correr.

Os meus amigos eu sei perfeitamente quem são e, por vezes, erro, correndo até alguns riscos, na avaliação que faço deles.

O Carlos Samora é um desses meus amigos.

É uma espécie de irmão mais velho, que nunca tive, sempre pronto para mim, para tudo, já lá vão quase vinte e cinco anos.

Ainda ontem, no Centro de Saúde, quando fui à consulta, um daqueles senhores que tem a mania que sabe tudo, daqueles chatos que temos que aturar pra não sermos indelicados (até porque, na verdade, nunca nos fizeram mal) me dizia, insistia, que o Carlos tinha ido comigo a Berlim.

"Então, a maratona, como é que correu e o Samora, também foi correr?".

“Não foi, garanto-lhe, o Carlos apenas ajudou nesta operação, a vários níveis, mas não esteve em Berlim”, tentei que compreendesse, do alto da sua certeza, encostado ao balcão das informações.

"Claro que foi, eu vi que ele esteve em Berlim", insitiu, chato, como sempre que o encontro.

"Se calhar o senhor viu foi fotografias com a camisola do restaurante do Carlos, só pode ser isso".

IMG_20181030_204620.jpg

 

“Esteve em Berli, então eu não sei, o não sei das quantas disse-me que esteve, que o viu lá”, carregou na sua certeza.

“Se o senhor diz que esteve, então esteve, mas não foi comigo”.

Entretanto, a voz do doutro Manuel chamam-me no intercomunicador do centro de Saúde.

Salvo pelo gongo, que até eu, um gajo que leva com tudo e com todos, perco a paciência, sobretudo, perante pessoas extremamente fúteis, tão fúteis que se tornam irritantes, como naqueles instantes em que estás a correr e queres parar, sabendo que não podes, nem deves parar, porque ainda faltam mais vinte e dois quilómetros para o fim e entras em stress.

Iso aconteceu-me em Berlim, várias vezes durante a corrida.

Ninguém é de ferro, nem os tipos que correm maratonas, garanto.

O Carlos Samora esteve em Berlim, sim senhor, naquele domingo.

Mas, não dava para explicar ao tipo chato, ele nunca iria entender.

Naquele domingo dezenas de pessoas estiveram comigo em Berlim, durante aquelas cinco horas - vi ontem que a aplicação Strava me deu 5.02H, ao contrário das 5.11H - tempo oficial).

Eu sei que estiveram, porque as redes sociais me mostraram.

Isso não tem preço, porque ninguém se supera sempre sozinho, a não ser os fora-de-série, que também os há.

A superação é uma coisa que às vezes se consegue, não basta querer, por isso só as vezes se consegue.

Motivação, sobretudo.

As pessoas motivam-me, até aquele momento em que me desiludem e o Carlos nunca me desiludiu, talvez em já o tenha desiludido.

Dezenas de pessoas levaram-me ao colo durante todo aquele tempo e, sim, o Carlos Samora esteve comigo, no meu coração, em Berlim.

Mas, foi chegado a Portugal que, realmente, finalmente, percebi o amigo que ali tenho.

Berlim também serviu para isso, separar o trigo do joio da vida. Berlim, abençoada Berlim, serviu-me para tanta coisa, ensinou-me tanta coisa.

Foi dias depois que descobri uma fotografia, no Facebook, na qual eu estava identificado.

Essa fotografia, a que ilustra este texto, retrata uma folha de papel, com uma simples palavras que eu não vi, em Berlim mas, estranhamente, senti.

“Força Zé Quaresma, estamos contigo”.

Acrescento, até ao fim e depois também.

A meia maratona aproxima-se.

É o próximo quilómetro.

É a partir daqui, a partir de agora, que a coisa se vai pôr fina, complicada, extremamente complicada, para mim e para uns largos milhares que cortaram a meta atrás de mim, quase metade dos participantes.

Já fui visitar o Carlos, mas ainda não lhe mostrei a medalha.

Quero fazer-lhe surpresa.

Eu conheci o Carlos no dia em que andava à procura de um espaço para fazer o meu casamento, nessa altura ele já tinha a Coudelaria, um dos melhores restaurantes do mundo, em pleno coração da Lezíria, na Companhia das Lezírias, aqui ao lado da minha casa.

Nesse dia ele pagou-me um café, paga-me sempre um café, quando o visito, e ficámos amigos, para sempre.

Ainda por cima, o Carlos jogava às quintas ferias na Tapadinha, com a malta com quem eu também jogava futsal.

 

Depois, decidi ficar esperto e deixei essas coisas da bola, que só me traziam lesões e pouco mais.

Hoje, ao escrever este texto reparo que a minha amizade  com o Carlos dura quase metade da minha vida.

É por ele que corro este quilómetro, enquanto tenho forças porque, tal como disse, vem aí o resto da maratona, o que falta é igual ao que já corri e, também como eu disse, quando agimos, persistentes, corajosos os desejos realizam-se.

O Carlos Samora ( sim, é primo do Rogério Samora) ajudou-me e muito a realizar este meu desejo, este sonho, esta prova de superação, que ninguém é grande sózinho, só os génios e, sempre, como sempre, a meu lado, com a aquele sorriso fantástico, por baixo daquelas barbas sempre brancas, que me fazem lembrar o Pai Natal.

Enquanto tomava o café e comia aqueles bolos em miniatura que ele faz questão de me oferecer, realizei que esse era o momento em que percebemos que, afinal, não estamos sós.

E, como isso é tão importante, tão decisivo, tão encorajador.

Uma maratona só se corre com coragem, tenha ela a distância que tiver, e nós só vivemos uma vida.

Abracemos os nossos amigos.

Hei-de ir aí, em breve, para te mostrar a nossa medalha.

Entrámos no quilómetro vinte e um.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

IMG2018092322043701EasyResizecom.jpg

 

Ao quilómetro cinco ia na boa.

Quero dizer, ainda ia na boa, apesar de ir meio a medo, sem saber o que havia de encontrar lá mais à frente.

Ia a desfrutar daquilo tudo, porque foi para isso que lá fui, não só mais também.

Eu fui a Berlim para provocar em mim uma profunda mudança, sobretudo, interior.

Com os pés no chão, apesar de correr com a cabeça na lua, que foi isso que me aconteceu, durante aquelas cinco horas.

Ao quilómetro cinco eu não achava que ia a correr mais rápido do que devia.

Antes disso, sim.

Levava instruções para fazer a primeira metade da maratona em duas horas e treze.

Ao quilómetro cinco ia com trinta e dois minutos, podia até ter ido mais rápido porque conseguia, são que eu tinha mais trinta e sete (37) assustadores quilómetros pela frente.

Eu sabia lá o que estava para vir!

Até ao quilómetro cinco, lembro-me de ir um tudo nada preocupado, pois íamos a correr abaixo dos seis minutos, por isso, ali para o quilómetro três, mais ou menos, que a memorai já se-me falha, que a pessoa não vai para nova, fiz-me mula e abrandei, como quem não quer a coisa.

Lembrava-me, permanentemente, do que me tinha dito o meu treinador, correr a seis quinze, seis vinte por quilómetro.

À passagem pela meia maratona (21 kms) já tinha esbardalhado o tempo todo!

Em vez de duas horas e treze gastei mais dez minutos, duas horas e vinte e três, portanto, mas isso é lá mais para a frente.

IMG_20180923_220714-01.jpeg

 

Voltando ao quilómetro cinco, lembro-me bem, - porque nessa altura o meu cérebro ainda tinha bastante oxigénio - que aquilo que mais me impressionou, para além de ter visto o Golden Angel (aquela coisa ali em cima, na foto, do lado direito, dourada) foi a multidão.

Multidão dentro da corrida, multidão a acompanhar a corrida, durante todos aqueles quilómetros.

Eu era apenas um, no meio da multidão e, meu caro(a), ser apenas um no meio da multidão é absolutamente esmagador.

Sentir que não te olham de alto a baixo, simplesmente, porque ninguém te conhece é brutalmente saboroso e isso faz-te reflectir ( a mim, não, porque há muito que reflecti nisso) naquela questão da fama.

É um veneno que todos querem tomar, deslumbrados com o efémero efeito que ele (o veneno) produz, mas não presta para nada.

Basta passar a fronteira, basta correr a maratona, em Berlim, para sentires a ressaca do veneno, lá, no momento em que ninguém te conhece e te trata de igual-para-igual.

Aquilo que mais retenho ao quilómetro cinco são as pessoas que me chamavam pelo nome (um nome que ninguém me chama), as mesmas pessoas que chamavam todos os outros pelo seu nome. Iguais entre iguais.

Naquela corrida, famoso era o nigeriano que pulverizou o recorde, mais ninguém, apesar de todos aparecerem nos ecrãs gigantes.

brandenburg-gate4.jpg

 

Saber saborear essa condição de incógnito é algo profundamente revelador.

Conseguir pensar, reflectir e entender isso é algo profundamente tocante.

Até mesmo quando dás de caras com uma banda, que toca ao vivo, ( eram imensas. ao longo do percurso) uma famosa música dos Queen.

A fama...

Nesse isntante, em que tu passas, incógnito, em que olhas as pessoas, nos olhos, em que levas os teus sentidos vivos, excitados, nesse instante em que passas, no exacto momento em que a banda toca aquela parte famosa, ela sim, famosa, a passagem da música, e cantas em voz alta, bem alta, arrastada, para todos ouvirem, sorriso rasgado, coração cheio, incógnito, porque ninguém sabe quem és:

“we are the champions…of the world”!

Entrámos no quilómetro seis.

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

maosdadasEasyResizecom.jpg

( FOTO: ALICE VILAÇA - MARATONISTA )

 

O amor.

O amor corre de mão dada.

Eu sei, porque vi.

E tenho testemunhas. Há pelo menos 43 mil pessoas que viram, não fui só eu.

Agora sei que se chamam Dora e Carlos.

No domingo soube que eram portugueses, pelas camisolas.

Alguns portugueses correram na maratona de Berlim, nada de relevante se comparado com corredores de outras nacionalidades.

Impressionou-me a quantidade de mexicanos, de brasileiros e de norte-americanos.

E alemães, claro.

Portugueses contavam-se pelos dedos das duas mãos.

Eu, a Alice, o Chico, a Clara, O Stephane, o Diogo, a Sandrina, um companheiro que não revelo por agora o nome - senão estraga o argumento de uma próxima história -, mais a Dora e o Carlos.

Sei que houve um outro grupo de portugueses a correr, mas não os vi durante os cinco dias de Berlim.

Não devia haver muitos mais, se havia não sei, ah, havia sim, havia um senhor de idade avançada que, por momentos, pensei ser a mesma pessoa que me acompanhou numa corrida de dez quilómetros há uns anos, em Lisboa.

“Lebres do Sado”, li eu, naquela camisola deslavada.

Falarei dele quando chegar a um outro quilómetro, que este é dedicado ao amor, que corre de mão dada.

Éramos poucos, muito menos, os portugueses, do que o tempo que demorei a escrever esta ideia.

Bastava esta frase: éramos poucos, deu para perceber.

É engraçado, quando corres uma maratona pela primeira vez nunca estás preparado, nunca, por muito que aches que estás. Nunca.

Disso dei conta no domingo, isso confirmei há bocado.

Ora leia:

" Então boas tardes, fico feliz por ver que a tua parte de "gru mal-disposto” já tenha passado :)

As sensações de uma primeira maratona são difíceis, se não praticamente impossíveis de transpor para papel.

Sei perfeitamente o que sentiste ao passar aquele pórtico de meta porque tb já passei por isso e aposto que existe um Zé AM e um Zé DM - antes da maratona e depois da maratona.

Foi divertido acompanhar os teus últimos km, ora à vossa frente, ora atrás, fartei-me de rir com os teus amigos (nessa altura eram da onça não eram?) ao ver-te rezingão e meti-me contigo (se os olhares matassem não estava aqui a escrever agora :) ).

Voltei a ver-te depois de já teres cortado a meta, quase sem palavras, todo feliz da vida a tentar retirar o "suor" dos olhos :) … muitos parabéns!!!

Pela Maratona concluída, pela resiliência e tb pelos amigos que tens.

Aquele abraço, do casalinho tuga "simpático" (digo eu) que fez metade da maratona a caminhar de mão dada :)

P.S. Fixe fixe era mandares aquelas fotos que tiramos juntos na meta. Isso é que era ;)

P.S.2 - Qual é a próxima??? :) "

IMG_20180920_182942-01_resized_20180920_063059039.jpeg

A foto já seguiu, porque os maratonistas são gente de palavra.

Ao ler o comentário do Carlos, aqui neste blog, percebi, definitivamente, que a única pessoa que ali ia a alucinar era eu. Toda a gente viu o que estava a acontecer, menos eu.

Eu só queria despachar aqueles 16 quilómetros ( baqueei aos 26) e ir à minha vida.

O que a Dora e o Carlos não sabem, porque não lhes disse é que ao ver os seus sorrisos, no final e, mesmo tendo feito mais tempo do que eu, senti-me um homem ainda mais feliz, não por causa do tempo feito, mas porque eu gosto de pessoas que sorriem, que correm de mão dada.

Na verdade, se isto não fosse uma narrativa interminável, uma história incotável, um mar de emoções, eu até podia ter ficado deprimido, porque eles foram mais lentos do que eu, mas eles não treinaram e eu treinei nove meses, mas não tenho tempo para isso, por falar em tempo.

Ainda bem que demoraram mais do que eu, senão nunca me teria cruzado com eles.

casa 2 (1).jpg

 Respondi ao comentário do Carlos:

"Boa tarde, Carlos,

Estou sem palavras, a sério.

Notou-se assim tanto o meu stress?

Imaginas o tanto que cerrei os dentes para continuar. Sabes o que senti ao passar aquele pórtico. E, sim, Há um Zé AM e um Zé DM, não havia outra forma, foi também por isso que lá fui, para vir de lá um ser humano diferente.

E, consegui.

Os meus amigos da onça tornaram-se muito mais do que amigos, naquele domingo em Berlim;

eles foram lá para me ajudar a ser maratonista, não foram para correr por eles e, isso não está ao alcance de qualquer um, é preciso ter um grande coração, gostar muito dos outros, sem falsidades.

Sim, houve momentos em que o meu olhar matava qualquer um, porque as minhas pernas me matavam, a mim. Nunca me faltou o fôlego, apenas as pernas. 

Isso provocou-me revolta interior. Eu queria, mas as pernas não.

Quando vos vi, e percebi que eram portugueses, apetecia-me abraçar-vos, mas não conseguia, naquele momento só queria ver a minha filha, a minha mulher, abraçá-las e depois cortar a meta."

Carlos, Dora, desculpem não ter sido simpático, desculpem não vos ter ligado nenhuma naquele instante, mas não consegui. Tive que apelar ao maior do egoísmo, para chegar até ao fim.

Não podia desistir, não conseguia andar, e tinha que correr.

Por muito difícil que fosse, nunca cortei uma meta a passo, não o podia fazer ali.

"Isto não foi apenas uma corrida, isto foi muita coisa junta, para mim, dentro e fora da corrida, que a vida tem sido um desafio constante e há corredores (com letra pequena) batoteiros.

Vocês não são um casalinho simpático, vocês são o casal que fez a maratona de mãos dadas ( estou a chorar, neste momento) e, isso, também não é para qualquer coração.

Hoje, "O Quilómetro Três" é dedicado a vocês.

Envio a foto, sim, pede-me amizade, no Facebook (ZeGab Quaresma).

Forte abraço

PS: a próxima será Londres, para o ano, abaixo das 5H :) "

Amor.

Eu sei que amor corre de mão dada.

Eu vi e tenho testemunhas.

A foto já seguiu.

A maratona de Berlim deu ao Carlos o meu blog.

A maratona de Berlim deu-me mais dois amigos, o Carlos e a Dora.

Deu-me tanto, a maratona de Berlim.

Entrámos no quilómetro quatro.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

FELIZES, APENAS ( DIA 21 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 01.05.18

IMG2018050111525401resized20180501044428973EasyResizecom.jpg

 

Quando te sentes pequeno, ao pé de outros e feliz, por isso.

Hoje tinha tudo para correr bem e para correr mal.

Correu muito bem.

Desde logo, porque o meu pai resolveu fazer-me companhia.

IMG20180501092729resized20180501044400197EasyResizecom.jpg

 

Mal cheguei dei de caras com o João Campos ( um grande amigo corredor ).

Mal nos tínhamos cumprimentado, já ao longe caminhava em nossa direcção a Alice Vilaça ( uma grande amiga das corridas ).

Nada combinado, é assim !

Feitas as apresentações saímos para o aquecimento.

Sairam, porque logo ali alguma coisa dava sinais de me querer chatear.

Subimos a rua e entrei no café, enquanto eles continuaram, devagar, para aquecer.

Fila, como sempre, para o WC.

A menos de dez minutos da partida lá consegui estabilizar um pouco a coisa e, quando pensava aquecer um um bocado, como me tinha recomendado o meu treinador já a corrida tinha começado.

Quase mil e quinhentas pessoas.

Eu nunca tinha corrido num estádio, numa pista de tartan.

Dado o tiro de partida, Alice e João decidiram acompanhar-me. Tentei demovê-los. Eles correm mais rápido, eu ia fazer um teste, após cinco meses de recuperação e não era minha ideia estragar-lhes a corrida.

Até porque eu ia com o objectivo de me testar nos 10 quilómetros, os outros cinco eram uma borla, mas eles insistiam.

IMG20180501095928_esized20180501044359887EasyResizecom.jpg

 

Assim foi, assim fomos, até ao quilómetro dois. Isso.

Bom ritmo e a conclusão que, de duas uma, ou devia ter ido mais vezes ao WC, ou devia ter tomado um pequeno almoço mais reduzido, embora com os ingredientes ideais, ou devia tê-lo tomado mais cedo, nunca uma hora e meia antes da corrida.

Enquanto eu vomitava, ali mesmo em frente ao LNEC - peço desculpa - Alice e João esperavam por mim.

“Vão se embora”, gritei-lhes.

Quando isto me acontece tenho que parar mais umas duas ou três vezes, só depois fico novo, de novo.

À terceira foi de vez, obriguei-os a irem-se embora.

received10213370500074556EasyResizecom.jpg

 

O João sabe muito disto, reparei que,, enquanto fui com eles (fizeram menos 20 minutos do que eu) ele tentava manter a cadência certa da corrida, saltava para a nossa frente, discretamente, ia a ajudar-me-nos, sobretudo a mim, que quer o João, quer a Alice conhecem bem esta minha estranha história com a corrida.

Já sem eles senti-me mais livre.

Com eles tinha aproveitado para fazer os primeiros cinco quilómetros abaixo da meia hora, continuava indisposto, mas melhor, agora. Sem dores, pouco cansado, apenas com uma pequena "bola" aos saltos dentro do estômago.

Vamos lá para a segunda parte, pensei.

Se os primeiros cinco quilómetros foram feitos abaixo da meia hora, então poderei fazer dez abaixo da hora.

Subi os túneis de Entrecampos e a Avenida da República - está bonita, a cidade - e já perto do Marquês, no cruzamento da Augusto de Aguiar tiram-me esta foto.

received0209031530344257.jpeg

 

O meu amigo Pires (Grilo), que fez a tropa comigo, na Força Aérea, um super-atleta, é da minha idade e faz Triatlo, Maratonas, Trails e eu sei lá mais o quê!

O Pires é da PSP, das motas, e estava ali no cruzmamento, a cortar o trânsito.

Aos anos que não dávamos um abraço.

Agora é sempre a descer, pensei eu, desejei eu.

Fiz uma hora e quatro, aos dez quilómetros, entretanto já tínhamos descido a Avenida da Liberdade, dado a volta no Terreiro do Paço, já tínhamos passado o Martim Moniz, e a Almirante Reis, até ao Areeiro, estava quase.

Só que, estes últimos sete a cinco quilómetros, com a Fonte Luminosa pelo meio, foram todos a subir, de carro não parece, mas são a subir, garanto.

Quando virei a Rotunda do Areeiro dei conta que tinha perdido uns minutos na Almirante Reis, minutos ganhos antes, a descer a Fontes Pereira de Melo e a Avenida da Liberdade, mesmo com o abraço ao Pires, pelo meio.

Eu vinha cá para o fim da corrida.

A corrida do 1º de Maio é uma daquelas corridas onde os primeiros terminam em 40 e poucos minutos, menos uma hora do que eu.

Até mesmo os “populares”, com os seus 60, 70 ou 80 anos fazem a prova em tempos bem mais baixos que o meu.

A Alice e o João campos fizeram, obviamente.

Mas, o meu objectivo eram os dez quilómetros, para ver como tudo reagia, as pernas, a cabeça, o organismo, os músculos. Eazer entre hora e uma hora e dez. Fiz uma hora e quatro.

Gastei 41 minutos para fazer cinco quilómetros, quando em média os faço em meia hora.

A subida, o cansaço e alguma fraqueza por causa do que aconteceu ao quilómetro dois, em que salpiquei as sapatilhas da Alice e do João, e do Jorge Máximo e da Cláudia - mais dois amigos, de coração - , que entretanto me viram ali naquela triste figura.

Malditos dois copos de batido.

Até hoje só fiz treinos até dez quilómetros, desde Janeiro.

A última corrida longa que fiz foi em Novembro.

Passada a indisposição provocada pelo batido de aveia, com proteína e uma banana, uma torra de pão escuro com fiambre de perú e queijo fresco, mais um café, a corrida soube-me bem. Senti prazer. Não tive dores. Diverti-me. escutei as palmas de incentivo, revi amigos e estive uma manhã com o meu pai, o que não acontecia há milénios.

Disse-me uma das atletas de elite ( do SCP), "amanhã vens fazer os outros 15 quilómetros, com isso tudo o que comeste?".

Não tive dores nas pernas, consegui fazer os túneis de Entrecampos sem caminhar.

Fiz a Almirante Reis muito devagar, mas sem caminhar, e sentia-me bem, cansado, mas feliz, estava quase.

Certo é que dez quilómetros - ainda - são uma coisa, e mais cinco - ainda - é outra coisa diferente, para quem está na (não) forma em que estou.

Dizia eu, no fim, à Alice, ao João e ao meu pai: “como é que eu vou correr 4 horas seguidas, se não consigo fazer 15 quilómetros abaixo da hora e meia?”.

“Calma, ainda te falta bastante tempo até à maratona”.

Naquela altura nenhum de nós estava cansado. Felizes, apenas. Vê-se nos rostos.

Cansado já ia eu, a trezentos metros do fim, antes de reentrar no estádio, quando pela frente aparece a Alice, para me incentivar até ao fim, ela costuma fazer-me isto, já não é a primeira vez;

“Vá, entramos aqui na pista, o teu pai está lá na meta todo orgulhoso à tua espera, não olhes para a meta, só depois da curva”.

Nestas alturas, no fim das corridas, por muito boas ou penosas que tenham sido é da praxe fazer os últimos metros com altivez.

Escuto a Alice “agora vou desviar-me que esta chegada é só tua”.

Cortei a meta.

Baixei-me para respirar.

Faltava o meu pai.

 

received10213370500594569resized20180501044510169EasyResizecom.jpgreceived10216696963162237EasyResizecom.jpg

received10213370501634595resized20180501044510536EasyResizecom.jpg

 

 

Dei um abraço ao meu velho.

Eu nunca tinha corrido a corrida do 1º de Maio e sempre soube que ele foi para me acompanhar, para passar a manhã comigo.

Só que, conheço-o há 48 anos.

E, sei que ele também foi para reviver outros primeiros de Maio.

“Ainda dei duas voltinhas à pista, fui lá abaixo à avenida e voltei”.

“E gostaste?”.

“Claro, gostei pois, o 1º de Maio…”.

“Da corrida, pai…”.

“Sim, da corrida do meu 1º de Maio”.

Senti-lhe a saudade, nas palavras, dos tempos em que lá ia ele, de punho ao alto, festejar o Dia do Trabalhador.

Nunca conheci, até hoje, um outro como ele.

Foi tão bom.

Autoria e outros dados (tags, etc)

COISAS DA VIDA E DA CORRIDA (DIA 14 DA MARATONA)

por The Cat Runner, em 14.03.18

FBIMG1519655256751EasyResizecom.jpg

 

 

A corrida tem-me ensinado algumas coisas.

Coisas sobre ser, sobre ver, sobre a vida, até sobre a morte, que já corri, para poder gritar, sózinho, eu e o céu.

Olhe, ensinou-me, recentemente que devo comer com regularidade e sempre antes de treinar, ao contrário do que fiz durante anos.

Olhe, ensinou-me que faz sentido a teoria da cabeça;

"Corpo são em mente sã".

Quando a cabeça está ausente, o corpo perde-se, tal como a vontade.

Se és resiliente e vestes o equipamento e sais para treinar, daí até ao fim, sabes bem, será um brutal pesadelo.

Tudo te pesa, tudo te dói, tudo te irrita, tudo te impede, mas tu vais.

"Se a cabeça não estiver bem, esquece, Zé, nada funciona", disse-me o meu treinador. Confirmei.

Tenho treinado, nos últimos dias, como sempre, desde o dia em que me coloquei este desafio, com a certeza que vou cruzar a meta, em Berlim.

Mas, tem havido dias muito difíceis, que só me vieram comprovar a teoria.

Isto fez-me pensar em algumas coisas da vida.

É, a vida, um processo de transformação, resume-se quase a isso. Então olha-a de frente, José.

Ontem fiz o melhor treino, desde que esta aventura começou.

Quando sentes o cansaço, mas ele sabe bem, em vez de te prender ao chão, quando corres mais rádio, quase sem te dares conta, não fossem os registo do relógio, quando terminas, transpirado até dizer não, quando acordas no dia seguinte e sentes que estás vivo.

Corri abaixo dos seis minutos por quilómetro, sem qualquer dor, sem qualquer desconforto, gozando em pleno a corrida.

Nestes últimos dias, uma das muitas coisas da vida em que tenho pensado é na forma de ser feliz. Isso passa pela corrida, haja cabeça.

Desde Janeiro que questiono diariamente se, de facto, isto irá até ao fim.

Confesso, por vezes sinto-me tão em baixo que questiono tudo.

O que não faz uma corrida.

Ontem, depois de correr, voltei a sentir-me leve, em paz, feliz. Hoje acordei assim, a acreditar que a vida tem aquele lado sereno, embora demore, por vezes, a encontrar. Tamanhos conflitos interiores.

Quero poder dizer: sou maratonista, isso quero, mas a minha aventura já valeu a pena e mal começou.

O que não faz uma corrida, um momento mágico, um instante.

Há, depois, mais coisas da vida, como a emoção, os sentimentos, os afectos.

Tenho tido a sorte de ter encontrado, nestes dias de Inverno, pessoas que não saem do meu lado, pessoas que me empurraram para aqui, até aqui.

É também por elas que vou continuar, porque naquele sábado que tanto desejo, quando passar a linha de chegada é para estas pessoas, tão especiais na minha vida, que irei levantar os braços, olhá-las de frente, para que vejam o rosto do esforço, para que saibam que a minha amizade é eterna, incondicional.

Voltei a acreditar.

Em mim, na vida, na minha corrida.

É de maratonas que gosto.

É por isso que gosto da vida.

Lutar ou vencer.

Não há outra hipótese, apenas uma escapatória:

amar, muito.

Autoria e outros dados (tags, etc)

A TEMPESTADE DENTRO DE MIM ( DIA 13 DA MARATONA)

por The Cat Runner, em 04.03.18

 

domingoEasyResizecom.jpg

 

Porque há domingos assim...

 

 

Chovia a potes.

Foi de repente, de repente, assim que me despedi dos meus dois amigos começou a chover a potes. Uma daquelas chuvadas que nos empurram porta de casa dentro, para um sofá reconfortante.

Pegar ou largar !

O rio mostrava-se-me bravo, mas eu conheço-o, desde miúdo, entendo-lhe a cor escura, nem vivalma no horizonte, nem barcos a subir em direcção à ponte, nem namorados sentados nos bancos decorados pela história dos heróis da vila, grandes, nada, ninguém.

Apertei os cordões do carapuço azul, bem apertados, aconcheguei os phones nas orelhas, fiz play e fui.

Nos primeiros quilómetros vi os meus próprios passos. Só eles.

Tanta era a chuva que, não podia levantar a cabeça, apenas os meus passos. De tempos a tempos desapertava os cordões do carapuço azul e olhava de frente para o meu caminho, ninguém. Nada.

Aprendi que, afinal, não baixo a cabeça apenas para apertar os atacadores, também baixo a cabeça para ver os meus próprios passos, toc-toc-toc-toc, assim, a este ritmo.

Tenho-me obrigado a isso, a olhar os meus passos. Como se tudo estivesse prestes a recomeçar.

Já não me lembrava de como era correr à chuva. Há quem dance, há quem cante, há quem corra à chuva, eu corro à chuva.

Corro contra o vento, contra o tempo, contra aquilo, contra isto, corro, mesmo quando sinto puxar-me para trás.

Agora que corro sem dores nas pernas, finalmente, continuo a fazer tempos de corrida idênticos. A diferença está no facto de, agora, ter voltado a desfrutar do prazer de correr, o prazer de sentir as gotas de suor a cair nos olhos, misturadas com as notas da chuva, sim, consigo diferenciar, o prazer de sentir a temperatura do corpo a subir, e a cabeça a viajar, as pernas a responderem.

O prazer de correr sem ter que parar, só a porcaria do relógio parou, a aplicação também, a meio da corrida. Chateou-me, claro que chateou. Vou mudar, de relógio e de aplicação.

Vou mudar tudo, ou quase tudo, depois da maratona que vou correr, pela primeira vez.

Cada vez mais o sinto.

Tenho vivido momentos difíceis, coisas minhas mas, nos últimos dias têm-me acontecido coisas boas, pessoas. As pessoas fazem-me bem, ao sorriso.

Hoje, pela primeira vez, fui a uma corrida e não corri. Foi nesta corrida que me estreei, há quase cinco anos, sozinho, como sempre, como eu próprio. Fui lá só para dar um abraço, a dois amigos, que me estimam, que estimo, amigos feitos a correr, porque a vida é isso mesmo, uma corrida de fundo, como a maratona.

É este o meu desafio, a minha corrida, a minha experiência. Toda a vida desafiei a vida.

Estamos cara-a-cara, eu e ela, de novo, eu e ela.

A minha maratona não é só uma corrida grande, a minha maratona é a metáfora de toda a minha vida. É agora que preciso, muito, de saber se sou capaz, de saber quem sou eu, de saber como irei ser, dali em diante, porque é perder ou ganhar.

Já não há mais tempo. É o meu tempo, o meu confronto, perder ou ganhar.

Não é apenas uma maratona, é a minha maratona.

domongo2.jpg

 

Estive com estes dois amigos, depois da corrida, ele de Guimarães, ela de Arruda dos Vinhos, vieram correr à minha terra, ao meu sítio.

Foi, orgulhoso, que lhes falei do caminho onde corro, onde me reencontro, onde sinto e vivo, “é ali em frente, fantástico, não é?”, perguntei, enquanto tomávamos um café, olhando o rio, bravo, o rio.

“Estás a ver a praça de touros? O meu primeiro restaurante era logo a seguir...”.

Falei-lhes imenso de tudo, como sempre, falo imenso, ninguém é perfeito.

Metemos a conversa em dia. O Francisco vai correr a maratona, comigo, em Setembro, a Alice, provavelmente.

Falámos sobre os apoios que estamos a tentar, para suportar esta aventura, falámos da família, amigos.

Tenho tido, nestes dias de temporal, amigos que fazem questão de entrar dentro da metáfora que estou a construir.

Se escrevo este texto, hoje, devo-o à Petra, um ser humano como nunca conheci, não que me tenha feito nada, a não ser empurrar-me para a escrita, de novo, e o tanto que isso é.

Amigos.

E, se ao Francisco e à Alice devo o abraço - há um ano, exactamente, estava em Moçambique, nas aldeias do abraço - à Petra devo o sorriso, e se à Petra devo o sorriso, ao Rui devo um mundo inteiro.

Não contem a ninguém, mas eles não sabem que lhes devo tanto.

Amigos.

Assim que me despedi deles começou a chover a potes.

Foi quando comecei a correr !

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

É A VIDA, JOSÉ ! ( DIA 12 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 21.02.18

IMG20180211220252419EasyResizecom.jpg

 

 

As coisas estão a correr bem.

Quero dizer, algumas, que não podemos agradar à vida a cem porcento, nem ela a nós.

Coisas da vida!

Bom, neste momento sei que acordo com o meu coração a bater ali à volta das 155 batidas por minuto, todos os dias.

Há quase dois meses que tiro a pulsação, sempre que acordo, de acordo ( a repetição da palavras foi de propósito ) com o determinado pelo meu treinador. Também registo outros dados diários, que não são para aqui chamados, agora. Faz parte do plano.

Este mês fiz seis corridas. Hoje faço a sétima.

As coisas estão a correr bem.

Mas, não é para deitar foguetes, que a qualquer momento tudo pode mudar.

Coisas da vida!

As primeiras corridas, de 35 minutos, foram servindo para testar o estado das minhas pernas.

As seis corridas que faltam, para completar o mesociclo (este mês) têm o mesmo objectivo das primeiras. As próximas vão passar a ser de 45 minutos. Faz parte do plano.

Acontece que, sinto as pernas cada vez melhores.

Na última corrida, pela primeira vez, em dois anos, praticamente não senti desconforto no gémeo direito. Apenas um resquício.

A corrida foi feita em passadeira ( uma vez não faz mal ). Agora, na próxima, na rua, é o tira-teimas. Ou vai, ou racha (mais rachas não, please).

Para lá deste brutal desafio que é conjugar o treino com a regeneração das pernas, há o desafio psicológico.

Por exemplo, enquanto escrevo apareceu-me a tal sensação de desconforto.

É mental.

Estou a escrever e o meu sub-consciente está a correr, com dores e desconforto.

Só pode ser ele, visto que eu ainda estou no sofá, só vou correr ao fim do dia.

Isto pode não parecer nada, mas para um tipo que quer ir correr uma maratona, pela primeira vez, isto é imenso.

Nunca, na vida, me deixei derrotar pela mente, mas passar esta barreira está a ser mais difícil que o Harry Potter passar a parede da plataforma 9 3/4.

Hoje, finalmente, vou ao tira-teimas.

hojeEasyResizecom.jpg

 

Tenho o estômago colado e uma dispensável sensação de ansiedade.

Pode parecer nada, mas isto é imenso, para mim.

Se hoje as pernas não me doerem, de todo, estou apto a passar à fase 3 do plano de treino.

Concluir as corridas que faltam, em Fevereiro, porque aproveito sempre e coloco mais quilómetros nas pernas, e continuo a garantir que o calvário chegou ao fim.

Depois, em Março, começamos os treinos mais focados na maratona. As rampas, as séries, o ginásio, que quanto à alimentação a coisa vai indo, embora seja chato ter que comer 5 vezes por dia, e preparar tudo, e isso.

O que sinto é que estou a conquistar coisas, umas atrás das outras.

E, já que não podemos agradar à vida a cem porcento, nem ela a nós, ao menos que alguma coisa faça sentido.

Correr faz todo o sentido, para mim.

É a vida. Faz parte do plano.

Viver.

Correr.

Autoria e outros dados (tags, etc)

SEM STRESS ( DIA 11 DA MARATONA)

por The Cat Runner, em 09.02.18

IMG2018020816551401.jpeg

 

 

Hoje falhei o primeiro treino, verdade !

Na segunda feira corri pela primeira vez, em dois anos, sem dores, ao fim de cinco semanas de paragem.

Na terça descansei.

Na quarta voltei a correr, numa inquietude só desfeita no fim da corrida.

Hoje devia fazer treino de pernas, no ginásio, e baldei-me.

Mas, como isto é um caso sério pedi a opinião ao meu treinador, que de forma clara me disse que devia fazer o treino.

Só que o dia já ia longo e já não tinha tempo útil de ir ao ginásio - a pessoa tem que arrumar a casa e assim, quando a dona Cristina fica doente e não nos pode vir ajudar -, dediquei-me ao lar.

Arrumei tudo, limpei tudo, e vim escrever.

Perguntei-lhe, então, ao meu treinador se podia fazer “pernas” no sábado.

Que não, que domingo volto a ter treino de corrida e é melhor não.

Sugeri metermos este treino no plano da próxima semana.

“Sem stress”, respondeu-me.

O José Carlos Santos transmite a calma e a segurança necessárias, para acreditar que a minha ideia louca vai fazer sentido.

Salta-se o treino e não se fala mais nisso.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

VOU COMER A SOPA TODA (MARATONA DIA 1)

por The Cat Runner, em 09.01.18

IMG20180108132020resized20180109042332972EasyResizecom.jpg

 

 

Há pessoas que ficam para sempre registadas na sebenta da nossa história.

O meu treinador é uma dessas pessoas.

Conheci-o apenas há um dia.

Mas, alguém que treina atletas de alta competição e se disponibiliza para preparar um jornalista para uma maratona, sem pedir nada em troca é alguém que está pelo bem, pela ajuda, pelo amor à corrida.

Conheci o José Carlos da Run Advisor por alturas do Natal, mas ele não me conhecia.

Foi um amigo comum, treinado por ele, quem me o apresentou, estávamos no jantar de natal da ZFortes, a nossa escola de Muay Thai.

O meu amigo, o Zé Duarte, tem 50 anos, despediu-se há semanas do emprego de 25 anos. Era chefe de oficina. O Zé faz ultra-trail, este ano vai fazer o mítico Mont Blanc.

Dizia-me ele que descobriu o José Carlos na internet.

O Zé precisava, como eu, de um especialista que o ajudasse a fazer as coisas bem feitas.

Nessa noite comprometeu-se a meter em contacto comigo o seu treinador, mas não estava totalmente certo que eu conseguisse ser treinado por ele. Não custava tentar. Tentei.

Consegui.

No sábado trocámos mensagens, na segunda feira estávamos frente a frente, pela primeira vez, eu e o meu treinador.

Não é difícil criar empatia com o José Carlos, é reconfortante ouvi-lo falar sobre corrida, sobre treino, sobre nutrição, sobre recuperação.

Depois de fazer uma análise visual aos meus pés e às minhas pernas, depois de um questionário ao qual tive que responder, saímos para uma corrida de cinco quilómetros.

Estamos em testes.

Fizemos 33 minutos, entremeados com meia dúzia de metros de caminhada.

Senti necessidade de chegar a um especialista porque quero preparar a maratona, com pés e cabeça, sem ter que navegar à vista.

Em teoria, em Maio, fazia-me à estrada, adiámos para Junho ou Julho, porque precisamos das próximas quatro semanas para recuperar os estragos que permiti infligir a mim próprio.

Mas, aqueles que me conhecem e que me acompanham sabem que os últimos dois anos têm sido um pesadelo para mim.

Para não cair na rotina de deixar de correr, tenho corrido, diariamente, cheio de dores musculares nas pernas.

Até à semana passada, durou dois anos, nunca tinha decidido ir à oficina.

O José Carlos percebeu imediatamente as minhas dificuldades e os meus condicionalismos físicos.

Os meus gémeos não enganam.

Agora, para além de começar a corrigir algum desalinhamento provocado por uma gravíssima lesão que tive em 2004 ( altura em que quase tiveram que me amputar a perna ), tenho que eliminar estas dores.

O objectivo é a maratona, mas esta é agora a prioridade.

Se não recuperar não consigo aguentar os treinos que estão para vir, e se aguentar, seguramente, não conseguirei acabar a Maratona.

E, isso é ver desabar tudo à frente dos olhos.

"Deves ter uma enorme capacidade de resistência, não sei como conseguiste correr durante dois anos com as pernas nesse estado", disse-me.

Coisa pouca, fibroses e contracturas musculares crónicas.

Resumindo, os músculos enrolam-se uns nos outros, devido a vários factores, e provocam dores enormes.

Tenho umas 3 ou 4 na perna esquerda, a que sofreu o acidente, e umas 4 ou 5 na perna direita, que durante anos tem suportado a cobardia da esquerda, porque entretanto criei um desconforto na planta do pé, fruto da defesa que a própria perna decidiu encetar.

Chamam-lhe verruga plantar. Chamo-lhe prego espetado no pé.

Não tem sido fácil, não me estou a queixar, e sei que o que está para vir será, provável e igualmente duro, mas cada quilómetro da vida é ele próprio duro, e eu gosto da dureza e do desafio, sem o desafio sou outra coisa qualquer.

Alonguei, no final, fizemos massagem profunda, dolorosa e conversámos mais um pouco.

O enigma é perceber porque tenho estas contraturas crónicas e a prioridade, como disse é eliminá-las.

Desconfiamos que a causa está relacionada com a alimentação deficiente.

Espantado, ficou o José Carlos quando me questionou sobre os meus hábitos alimentares.

Ao logo dos anos e das leituras e das corridas foi-me fácil perceber que o regime alimentar de quem pratica exercício é decisivo. Mas, nunca interiorizei que estava obrigado a isso.

“Bebo um iogurte e um café, vou treinar, como um pastel de nata e um café, vou trabalhar…”

“E o jantar?”

“Como uma tosta e um sumo…”

“E, de madrugada, quando chegas a casa?”

“Bebo bebida de arroz e como o que houver, uma broa, por exemplo”.

“Conclusão: não te alimentas!”

Confesso que tive vergonha.

Nos últimos dois anos, para além das dores permanentes que me obrigavam a sofrer mais do que era suposto, nunca consegui, durante esse período melhorar a minha corrida, antes pelo contrário, chegando ao ponto de querer desistir.

“Tens que mudar os hábitos alimentares já hoje, tens que ingerir proteína e hidratos, tens que ir hoje a um nutricionista”.

E, fui.

Conversei com a Mariana Gameiro, que até dá consultas online, e pouco tempo depois de me ter despedido do José Carlos, na Beloura, já estava a comer frango, com feijão e arroz, e um ovo estrelado extra. Repeti a dose ao jantar e hoje, ao almoço, já ataquei peito de frango, com salada e arroz.

Como as análises clínicas que fiz estão boas, tirando o exorbitante colestrol, começo a concluir o que me disse ontem o meu treinador, é da alimentação, que eu não fazia.

O carro não anda se não tiver combustível, é tão simples, e eu sou tão estúpido.

O meu treinador decidiu que nas próximas duas a quatro semanas não há corrida, para recuperar as pernas, apenas trabalho específico de ginásio, regime alimentar cuidado e muitas massagens daquelas que fazer chorar, mas que depois fazem sorrir.

Estou a seguir tudo à risca, de tal forma que nunca antes as pernas me doeram tanto como hoje.

É das massagens.

Quinta feira há mais e há reavaliação destas primeiras horas.

Quase não mexo as pernas, de tão doridas e pesadas, mas já consigo sorrir.

Ora, voltando ao início desta crónica, se alguém (que nem sequer conhecias) te provoca esse momento intensamente mágico que é um sorriso, esse alguém ficará na sebenta da tua história.

Mais do que o sorriso é a mudança que estou a viver;

Estou a lutar por um objectivo, estou dedicado de alma e coração, estou a adaptar a minha vida pessoal e profissional e a sacrificar, em nome desse desafio.

Eu sei que vou correr a Maratona, não que lhe tenha perdido o medo, só que quando me desafio os medos transformam-se em determinação e em coragem.

Se ontem eu queria correr os 40 e dois quilómetros e picos e terminar bem, hoje eu quero correr a Maratona em menos de quatro horas.

E vou conseguir.

Porque as pernas vão parar de me doer e eu já voltei a sorrir.

É assim que tem que ser e assim será.

Ah, e prometo comer a sopa toda.

Autoria e outros dados (tags, etc)

LEVEI OS PAIS AO PARQUE INFANTIL

por The Cat Runner, em 05.06.17

IMG_20170604_114712_2.jpg

 

 

 

O meu domingo foi especial.

Levei os meus pais a uma corrida.

Foi, aos 65 e 68 anos, a sua primeira vez, e a minha, também.

Uma das mais belas manhãs dos meus domingos, e como os meus domingos são belos, mesmo aqueles que teimam em fazer-me cara de mau. Às vezes acontece-me o domingo fazer-me cara de mau, que não há dias perfeitos.

Nem eu sou perfeito, eu atraso-me, em tudo, até mesmo enquanto corro.

Mas, nunca me atraso quando vou correr, isso nunca.

Às sete e meia da manhã estava à porta de casa dos meus pais.

O meu filho disse que queria ir, o meu irmão também disse, mas eles são tão, mas tão parecidos, que até nesta falta de afecto, porque esta foi uma prova de afecto, eles falham da mesma foram.

Irrito-me, quando os meus não dão o valor devido às coisas, ao casamento, aos pais, aos momentos únicos.

Depois, tudo passa.

Eles ficaram a dormir, bons sonhos a ambos.

Foi a única coisa que me irritou, nesta especial manhã de domingo.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.



Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D