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São vinte quilómetros, senhoras e senhores.

Parece fácil mas é uma carga de trabalhos.

Escrever um quilómetro não é uma tarefa simples, quanto mais vinte, quanto mais quarenta e dois e mais uns pózinhos, só que a vida não é, ela própria fácil.

Falemos, a partir daqui, de superação, essa palavra tantas vezes dita, que tanta gente guia, por essa vida fora.

É disso que se trata.

Trata-se de tomadas de decisão. É isso que fazemos dia-após-dia, tomamos as decisões que entendemos serem as melhores, para nós, para aqueles que amamos, para os outros.

Mas, é o “eu” que deve sobrepor-se ao que nos rodeia. Sobrepor-se sem anular o que nos rodeia, valorizando, mais e mais.

Não há outra forma de correr esta estrada, quando o desafio nos chega e nos enfrenta.

Não somos nós, embora queiramos pensar que sim, que o enfrentamos, nunca assim foi.

Somos nós que queremos transformar as nossas dúvidas em certezas, somos nós que queremos que os nossos sonhos e desejos sejam reais.

O que nos rodeia ajuda ou dificulta, por isso também deve ser valorizado.

Vale a pena acordar, sair da cama, lavar a cara, sorrir ao espelho, para nós próprios.

Agir, em vez de ficarmos a sonhar na esperança que os pesadelos passem quando abrimos os olhos.

Quando agimos, persistentes, corajosos, os desejos realizam-se.

E, por vezes, é esse o momento em que percebemos que, afinal, não estamos sós.

Sem medo, sem medo do que está para chegar, porque a coragem está do nosso lado.

Uma maratona só se corre com coragem, tenha ela a distância que tiver, porque só vivemos uma vida.

Quando decidi ir correr a maratona, nas ruas de Berlim, um dos meus objectivos passava por criar em mim uma motivação especial, para sair do marasmo a que os meus dias me tinham condenado.

Acordar dos sonhos, matar os pesadelos.

Corri atrás daquilo que queria, embora tenha escolhido o mais dos exigentes testes, havia outros, mas era a maratona que eu queria, pela dureza que ele representa, pelas marcas que deixou em mim.

Ou morro ou mato-me, como diria o outro.

Ou vivo, ou viverei, como digo eu.

Eu. Ponto.

Este texto soa a um exercício de narcisismo, mas está muito longe disso.

Pelo contrário.

Ele fala de mim, porque sou eu que o escrevo, sou eu quem o corre, dureza, dificuldade, ousadia, coragem, porque não basta desejar, é preciso merecer, fazer por merecer, seguir em frente.

Viver é como correr, é estar em constante movimento, respirar sem parar, é ter um plano, um trajecto e tentar não nos desviemos da rota, a não ser que tenhamos que a corrigir, não para encurtar o caminho, mas para o tornar mais acessível, porque o fim é lá à frente.

Começar pelas pequenas coisas, um dia de cada vez, para ganhar confiança, a nossa e a dos outros e sermos mais merecedores daquilo que temos, daquilo a que queremos.

Eu não tenho muitos amigos, tenho muitas pessoas que conheço, a maioria, fruto da minha (pouca, felizmente) exposição pública, à qual tento fugir cada vez mais e mais, sempre a correr.

Os meus amigos eu sei perfeitamente quem são e, por vezes, erro, correndo até alguns riscos, na avaliação que faço deles.

O Carlos Samora é um desses meus amigos.

É uma espécie de irmão mais velho, que nunca tive, sempre pronto para mim, para tudo, já lá vão quase vinte e cinco anos.

Ainda ontem, no Centro de Saúde, quando fui à consulta, um daqueles senhores que tem a mania que sabe tudo, daqueles chatos que temos que aturar pra não sermos indelicados (até porque, na verdade, nunca nos fizeram mal) me dizia, insistia, que o Carlos tinha ido comigo a Berlim.

"Então, a maratona, como é que correu e o Samora, também foi correr?".

“Não foi, garanto-lhe, o Carlos apenas ajudou nesta operação, a vários níveis, mas não esteve em Berlim”, tentei que compreendesse, do alto da sua certeza, encostado ao balcão das informações.

"Claro que foi, eu vi que ele esteve em Berlim", insitiu, chato, como sempre que o encontro.

"Se calhar o senhor viu foi fotografias com a camisola do restaurante do Carlos, só pode ser isso".

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“Esteve em Berli, então eu não sei, o não sei das quantas disse-me que esteve, que o viu lá”, carregou na sua certeza.

“Se o senhor diz que esteve, então esteve, mas não foi comigo”.

Entretanto, a voz do doutro Manuel chamam-me no intercomunicador do centro de Saúde.

Salvo pelo gongo, que até eu, um gajo que leva com tudo e com todos, perco a paciência, sobretudo, perante pessoas extremamente fúteis, tão fúteis que se tornam irritantes, como naqueles instantes em que estás a correr e queres parar, sabendo que não podes, nem deves parar, porque ainda faltam mais vinte e dois quilómetros para o fim e entras em stress.

Iso aconteceu-me em Berlim, várias vezes durante a corrida.

Ninguém é de ferro, nem os tipos que correm maratonas, garanto.

O Carlos Samora esteve em Berlim, sim senhor, naquele domingo.

Mas, não dava para explicar ao tipo chato, ele nunca iria entender.

Naquele domingo dezenas de pessoas estiveram comigo em Berlim, durante aquelas cinco horas - vi ontem que a aplicação Strava me deu 5.02H, ao contrário das 5.11H - tempo oficial).

Eu sei que estiveram, porque as redes sociais me mostraram.

Isso não tem preço, porque ninguém se supera sempre sozinho, a não ser os fora-de-série, que também os há.

A superação é uma coisa que às vezes se consegue, não basta querer, por isso só as vezes se consegue.

Motivação, sobretudo.

As pessoas motivam-me, até aquele momento em que me desiludem e o Carlos nunca me desiludiu, talvez em já o tenha desiludido.

Dezenas de pessoas levaram-me ao colo durante todo aquele tempo e, sim, o Carlos Samora esteve comigo, no meu coração, em Berlim.

Mas, foi chegado a Portugal que, realmente, finalmente, percebi o amigo que ali tenho.

Berlim também serviu para isso, separar o trigo do joio da vida. Berlim, abençoada Berlim, serviu-me para tanta coisa, ensinou-me tanta coisa.

Foi dias depois que descobri uma fotografia, no Facebook, na qual eu estava identificado.

Essa fotografia, a que ilustra este texto, retrata uma folha de papel, com uma simples palavras que eu não vi, em Berlim mas, estranhamente, senti.

“Força Zé Quaresma, estamos contigo”.

Acrescento, até ao fim e depois também.

A meia maratona aproxima-se.

É o próximo quilómetro.

É a partir daqui, a partir de agora, que a coisa se vai pôr fina, complicada, extremamente complicada, para mim e para uns largos milhares que cortaram a meta atrás de mim, quase metade dos participantes.

Já fui visitar o Carlos, mas ainda não lhe mostrei a medalha.

Quero fazer-lhe surpresa.

Eu conheci o Carlos no dia em que andava à procura de um espaço para fazer o meu casamento, nessa altura ele já tinha a Coudelaria, um dos melhores restaurantes do mundo, em pleno coração da Lezíria, na Companhia das Lezírias, aqui ao lado da minha casa.

Nesse dia ele pagou-me um café, paga-me sempre um café, quando o visito, e ficámos amigos, para sempre.

Ainda por cima, o Carlos jogava às quintas ferias na Tapadinha, com a malta com quem eu também jogava futsal.

 

Depois, decidi ficar esperto e deixei essas coisas da bola, que só me traziam lesões e pouco mais.

Hoje, ao escrever este texto reparo que a minha amizade  com o Carlos dura quase metade da minha vida.

É por ele que corro este quilómetro, enquanto tenho forças porque, tal como disse, vem aí o resto da maratona, o que falta é igual ao que já corri e, também como eu disse, quando agimos, persistentes, corajosos os desejos realizam-se.

O Carlos Samora ( sim, é primo do Rogério Samora) ajudou-me e muito a realizar este meu desejo, este sonho, esta prova de superação, que ninguém é grande sózinho, só os génios e, sempre, como sempre, a meu lado, com a aquele sorriso fantástico, por baixo daquelas barbas sempre brancas, que me fazem lembrar o Pai Natal.

Enquanto tomava o café e comia aqueles bolos em miniatura que ele faz questão de me oferecer, realizei que esse era o momento em que percebemos que, afinal, não estamos sós.

E, como isso é tão importante, tão decisivo, tão encorajador.

Uma maratona só se corre com coragem, tenha ela a distância que tiver, e nós só vivemos uma vida.

Abracemos os nossos amigos.

Hei-de ir aí, em breve, para te mostrar a nossa medalha.

Entrámos no quilómetro vinte e um.

 

 

 

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Ao quilómetro cinco ia na boa.

Quero dizer, ainda ia na boa, apesar de ir meio a medo, sem saber o que havia de encontrar lá mais à frente.

Ia a desfrutar daquilo tudo, porque foi para isso que lá fui, não só mais também.

Eu fui a Berlim para provocar em mim uma profunda mudança, sobretudo, interior.

Com os pés no chão, apesar de correr com a cabeça na lua, que foi isso que me aconteceu, durante aquelas cinco horas.

Ao quilómetro cinco eu não achava que ia a correr mais rápido do que devia.

Antes disso, sim.

Levava instruções para fazer a primeira metade da maratona em duas horas e treze.

Ao quilómetro cinco ia com trinta e dois minutos, podia até ter ido mais rápido porque conseguia, são que eu tinha mais trinta e sete (37) assustadores quilómetros pela frente.

Eu sabia lá o que estava para vir!

Até ao quilómetro cinco, lembro-me de ir um tudo nada preocupado, pois íamos a correr abaixo dos seis minutos, por isso, ali para o quilómetro três, mais ou menos, que a memorai já se-me falha, que a pessoa não vai para nova, fiz-me mula e abrandei, como quem não quer a coisa.

Lembrava-me, permanentemente, do que me tinha dito o meu treinador, correr a seis quinze, seis vinte por quilómetro.

À passagem pela meia maratona (21 kms) já tinha esbardalhado o tempo todo!

Em vez de duas horas e treze gastei mais dez minutos, duas horas e vinte e três, portanto, mas isso é lá mais para a frente.

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Voltando ao quilómetro cinco, lembro-me bem, - porque nessa altura o meu cérebro ainda tinha bastante oxigénio - que aquilo que mais me impressionou, para além de ter visto o Golden Angel (aquela coisa ali em cima, na foto, do lado direito, dourada) foi a multidão.

Multidão dentro da corrida, multidão a acompanhar a corrida, durante todos aqueles quilómetros.

Eu era apenas um, no meio da multidão e, meu caro(a), ser apenas um no meio da multidão é absolutamente esmagador.

Sentir que não te olham de alto a baixo, simplesmente, porque ninguém te conhece é brutalmente saboroso e isso faz-te reflectir ( a mim, não, porque há muito que reflecti nisso) naquela questão da fama.

É um veneno que todos querem tomar, deslumbrados com o efémero efeito que ele (o veneno) produz, mas não presta para nada.

Basta passar a fronteira, basta correr a maratona, em Berlim, para sentires a ressaca do veneno, lá, no momento em que ninguém te conhece e te trata de igual-para-igual.

Aquilo que mais retenho ao quilómetro cinco são as pessoas que me chamavam pelo nome (um nome que ninguém me chama), as mesmas pessoas que chamavam todos os outros pelo seu nome. Iguais entre iguais.

Naquela corrida, famoso era o nigeriano que pulverizou o recorde, mais ninguém, apesar de todos aparecerem nos ecrãs gigantes.

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Saber saborear essa condição de incógnito é algo profundamente revelador.

Conseguir pensar, reflectir e entender isso é algo profundamente tocante.

Até mesmo quando dás de caras com uma banda, que toca ao vivo, ( eram imensas. ao longo do percurso) uma famosa música dos Queen.

A fama...

Nesse isntante, em que tu passas, incógnito, em que olhas as pessoas, nos olhos, em que levas os teus sentidos vivos, excitados, nesse instante em que passas, no exacto momento em que a banda toca aquela parte famosa, ela sim, famosa, a passagem da música, e cantas em voz alta, bem alta, arrastada, para todos ouvirem, sorriso rasgado, coração cheio, incógnito, porque ninguém sabe quem és:

“we are the champions…of the world”!

Entrámos no quilómetro seis.

 

 

 

 

 

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( FOTO: ALICE VILAÇA - MARATONISTA )

 

O amor.

O amor corre de mão dada.

Eu sei, porque vi.

E tenho testemunhas. Há pelo menos 43 mil pessoas que viram, não fui só eu.

Agora sei que se chamam Dora e Carlos.

No domingo soube que eram portugueses, pelas camisolas.

Alguns portugueses correram na maratona de Berlim, nada de relevante se comparado com corredores de outras nacionalidades.

Impressionou-me a quantidade de mexicanos, de brasileiros e de norte-americanos.

E alemães, claro.

Portugueses contavam-se pelos dedos das duas mãos.

Eu, a Alice, o Chico, a Clara, O Stephane, o Diogo, a Sandrina, um companheiro que não revelo por agora o nome - senão estraga o argumento de uma próxima história -, mais a Dora e o Carlos.

Sei que houve um outro grupo de portugueses a correr, mas não os vi durante os cinco dias de Berlim.

Não devia haver muitos mais, se havia não sei, ah, havia sim, havia um senhor de idade avançada que, por momentos, pensei ser a mesma pessoa que me acompanhou numa corrida de dez quilómetros há uns anos, em Lisboa.

“Lebres do Sado”, li eu, naquela camisola deslavada.

Falarei dele quando chegar a um outro quilómetro, que este é dedicado ao amor, que corre de mão dada.

Éramos poucos, muito menos, os portugueses, do que o tempo que demorei a escrever esta ideia.

Bastava esta frase: éramos poucos, deu para perceber.

É engraçado, quando corres uma maratona pela primeira vez nunca estás preparado, nunca, por muito que aches que estás. Nunca.

Disso dei conta no domingo, isso confirmei há bocado.

Ora leia:

" Então boas tardes, fico feliz por ver que a tua parte de "gru mal-disposto” já tenha passado :)

As sensações de uma primeira maratona são difíceis, se não praticamente impossíveis de transpor para papel.

Sei perfeitamente o que sentiste ao passar aquele pórtico de meta porque tb já passei por isso e aposto que existe um Zé AM e um Zé DM - antes da maratona e depois da maratona.

Foi divertido acompanhar os teus últimos km, ora à vossa frente, ora atrás, fartei-me de rir com os teus amigos (nessa altura eram da onça não eram?) ao ver-te rezingão e meti-me contigo (se os olhares matassem não estava aqui a escrever agora :) ).

Voltei a ver-te depois de já teres cortado a meta, quase sem palavras, todo feliz da vida a tentar retirar o "suor" dos olhos :) … muitos parabéns!!!

Pela Maratona concluída, pela resiliência e tb pelos amigos que tens.

Aquele abraço, do casalinho tuga "simpático" (digo eu) que fez metade da maratona a caminhar de mão dada :)

P.S. Fixe fixe era mandares aquelas fotos que tiramos juntos na meta. Isso é que era ;)

P.S.2 - Qual é a próxima??? :) "

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A foto já seguiu, porque os maratonistas são gente de palavra.

Ao ler o comentário do Carlos, aqui neste blog, percebi, definitivamente, que a única pessoa que ali ia a alucinar era eu. Toda a gente viu o que estava a acontecer, menos eu.

Eu só queria despachar aqueles 16 quilómetros ( baqueei aos 26) e ir à minha vida.

O que a Dora e o Carlos não sabem, porque não lhes disse é que ao ver os seus sorrisos, no final e, mesmo tendo feito mais tempo do que eu, senti-me um homem ainda mais feliz, não por causa do tempo feito, mas porque eu gosto de pessoas que sorriem, que correm de mão dada.

Na verdade, se isto não fosse uma narrativa interminável, uma história incotável, um mar de emoções, eu até podia ter ficado deprimido, porque eles foram mais lentos do que eu, mas eles não treinaram e eu treinei nove meses, mas não tenho tempo para isso, por falar em tempo.

Ainda bem que demoraram mais do que eu, senão nunca me teria cruzado com eles.

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 Respondi ao comentário do Carlos:

"Boa tarde, Carlos,

Estou sem palavras, a sério.

Notou-se assim tanto o meu stress?

Imaginas o tanto que cerrei os dentes para continuar. Sabes o que senti ao passar aquele pórtico. E, sim, Há um Zé AM e um Zé DM, não havia outra forma, foi também por isso que lá fui, para vir de lá um ser humano diferente.

E, consegui.

Os meus amigos da onça tornaram-se muito mais do que amigos, naquele domingo em Berlim;

eles foram lá para me ajudar a ser maratonista, não foram para correr por eles e, isso não está ao alcance de qualquer um, é preciso ter um grande coração, gostar muito dos outros, sem falsidades.

Sim, houve momentos em que o meu olhar matava qualquer um, porque as minhas pernas me matavam, a mim. Nunca me faltou o fôlego, apenas as pernas. 

Isso provocou-me revolta interior. Eu queria, mas as pernas não.

Quando vos vi, e percebi que eram portugueses, apetecia-me abraçar-vos, mas não conseguia, naquele momento só queria ver a minha filha, a minha mulher, abraçá-las e depois cortar a meta."

Carlos, Dora, desculpem não ter sido simpático, desculpem não vos ter ligado nenhuma naquele instante, mas não consegui. Tive que apelar ao maior do egoísmo, para chegar até ao fim.

Não podia desistir, não conseguia andar, e tinha que correr.

Por muito difícil que fosse, nunca cortei uma meta a passo, não o podia fazer ali.

"Isto não foi apenas uma corrida, isto foi muita coisa junta, para mim, dentro e fora da corrida, que a vida tem sido um desafio constante e há corredores (com letra pequena) batoteiros.

Vocês não são um casalinho simpático, vocês são o casal que fez a maratona de mãos dadas ( estou a chorar, neste momento) e, isso, também não é para qualquer coração.

Hoje, "O Quilómetro Três" é dedicado a vocês.

Envio a foto, sim, pede-me amizade, no Facebook (ZeGab Quaresma).

Forte abraço

PS: a próxima será Londres, para o ano, abaixo das 5H :) "

Amor.

Eu sei que amor corre de mão dada.

Eu vi e tenho testemunhas.

A foto já seguiu.

A maratona de Berlim deu ao Carlos o meu blog.

A maratona de Berlim deu-me mais dois amigos, o Carlos e a Dora.

Deu-me tanto, a maratona de Berlim.

Entrámos no quilómetro quatro.

 

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( FOTOS E VÍDEOS DO REALEJO DA AUTORIA DE INÊS XXX )

 

 

Estou para aqui sentado a ouvir o god damn black old Armstrong.

Canta assim:

 

“I see trees of green, red roses too

I see them bloom for me and you

And I think to myself what a wonderful world…

 

The colors of the rainbow so pretty in the sky

Are also on the faces of people going by

I see friends shaking hands saying how do you do

They're really saying I love you…”

 

Fui buscar a letra da canção porque ela pinta às cores aquela manhã de domingo, em Berlim.

As manhãs de domingo, se reparar, são idênticas em qualquer parte do mundo.

Já estive em Seul, em Moscovo, em Londres, em Paris, em Amesterdão, em Lisboa, em Budapeste, em Oslo, em Copenhaga, em Berlim, já estivem montes de cidades e de países e sei o que digo.

As manhãs de domingo têm todas a mesma ambiência, a mesma brisa fresca, as mesmas caras e sorrisos, as mesmas flores, os mesmos cheiros, independentemente da cidade e do país.

As manhãs de domingo mostram-me sempre árvores verdes, rosas vermelhas, as cores do arco-irís, mesmo que ele não esteja lá.

Nós somos os Corredores do Arco-Íris, ou em “cámone” os Rainbow Runners, nunca se esqueça disso.

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Nós chegámos ao fim do arco-íris e, como tínhamos determinado, encontrámos o pote da felicidade, que nós não procuramos ouro, apenas procuramos a felicidade.

Os amigos, o céu azul, dizer-te que te amo, a letra levou-me de novo para as ruas de Berlim, onde mais de um milhão de pessoas nos tratava como verdadeiros campeões.

Gritavam pelo nosso nome, gritavam o nome do nosso país. Foi assim durante mais de cinco horas.

Ora, escutar Louis Armstrong, enquanto escrevo, é inspirador, e assenta que nem uma luva na aquela manhã mágica de domingo.

Tem tudo a ver, senão, ouça a música enquanto lê este texto, o texto chamado "O Quilómetro Dois".

Estes textos não retratam o que se passou a cada quilómetro. Eles encerram em si, cada um deles, uma ou várias histórias que se passaram durante aqueles 42 quilómetros, mais 195 metros, por isso, se continuar a ler já não vai ao engano.

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Lá íamos nós, os três, passada certa, ritmo controlado, a corrida estava a ir bem. Foi para isso que treinei.

O Francisco, reparava eu, pela surra, sem que ele desse conta, olhava para o meu rosto, de tempos a tempos. Marcava o ritmo, marcou o ritmo até eu baquear, lá mais à frente. Depois o ritmo era meu, de sobrevivência. Nada diferente do que tenho feito toda a vida, viver e sobreviver, lutar, cair e vencer. Ponto. Nada de novo, portanto.

Ele queria perceber como é que estava a correr a gestão do meu próprio esforço.

Senti-o descansado, eu ia bem, fui bem durante uns bons 26 quilómetros.

Se imaginar um milhão de pessoas, mais de um milhão, a bem do rigor, todas elas espalhadas pelas ruas de uma cidade, facilmente percebe que quem correu a maratona de Berlim teve apoio do princípio ao fim, literalmente.

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 Até à meia maratona, sempre que gritavam os nossos nomes - Alice, Francisco, José - ou o nome de Portugal, nós agradecíamos, a sério, agradecíamos mesmo.

As primeiras horas, os primeiros quilómetros foram de uma felicidade incontável numa só página de uma crónica.

Íamos muito felizes, os três.

Aqui e ali, ao logo de toda a corrida, as bandas de música.

Brutal.

Chegámos a dançar e a cantar, juro!

Havia de tudo.

Bandas de rock, bandas étnicas, bandas clássicas, músicos solitários, também.

Um ficou-me na memória, e creio que, na memória dos mais de 43 mil que corriam em Berlim.

O tocador do realejo.

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O realejo é um instrumento musical que me remete para quando eu era pequenino, para aqueles tempos inocentemente belos, como a maratona de Berlim, sim, a maratona de Berlim é bela, encerra nela uma misteriosa beleza.

Íamos felizes, dizia eu, quando de repente, aquele som mágico, do realejo, nos entrou pelo coração adentro.

“Olhem para isto, brutal, que cena tão bonita, sinto-me tão mas tão feliz”, disse eu aos meus companheiros de aventura.

 

 

 

Não me lembro da resposta deles, mas lembro-me das caras, sorriam tanto quanto aquela música mágica me fazia sorrir.

Foi nesse instante que a corrida parou, congelou, frizou.

Ficámos ali, suspensos, durante uma fracção de sonho.

“Quaresma, Quaresma…”, escutámos.

Alguém me chamava, por trás do senhor que tocava o realejo.

Ficámos incrédulos, sem saber o que nos estava a acontecer.

Durante todo o percurso, recordo, todos nos chamavam pelos nomes que levávamos nas camisolas;

Alice, Francisco e José.

 

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Quaresma…

Olhámos uns para os outros. Não parámos de correr.

Virei-me para a ver, aquela miúda misteriosa que naquele instante saía de trás do tocador do realejo.

Cabelos pretos, cara redonda, pele branca, olhos grandes.

Eu e ela, cara-a-cara, enquanto uma mancha humana continuava a correr.

No meio de milhares e milhares de pessoas, naquele berma, naquele passeio, atrás do tocador do realejo, alguém me chamou pelo meu apelido, Quaresma.

A Alice e para o Francisco perguntavam quem era aquele miúda baixinha.

“Não sei, acho que foi minha aluna, mas não sei”.

Olhei-a, de novo.

“Quaresma, vim aqui só para vos ver, eu sabia que vocês vinham, vim para te dar um abraço”.

Puta que pariu” ( assim mesmo) pensei eu, que cena é esta que me/nos está aqui a acontecer?

Não quis sequer encontrar a resposta.

Saí da estrada, subi o passeio, olhei o tocador do realejo, primeiro, a cara dela, a seguir, e dei-lhe um grande abraço. Não se importou por eu etar completamente alagado em suor, a cheirar mal.

“Obrigado, obrigado, adoro-te”,

disse-lhe, já em passo de corrida, que por aquela altura ainda me sentia corredor, com forças, feliz, à procura do pote no fim do arco-íris. Começava ali a encontrá-lo.

 

Nos metros seguintes a nossa dúvida era sobre quem era aquela miúda misteriosa.

“Quem é, Zé?”…

“Não sei, a sério, não sei, que cena mais marada…”

Já não me lembro se foi o Chico ou a Alice, mas um deles disse-me;

“Mas, ela esta a chorar…”

Voltei a olhar lá para trás, vi-a a caminhar entre as pessoas, cabeça baixa, não sei se chorava, sei que eu chorei porque, incrivelmente, fiquei preocupado, quem seria ela?

Quem é que iria até ali só para nos ver, só para nos dizer “estou aqui connvosco”?

Que bom que foi, que belo que foi.

O tocador do realejo continuava a tocar o realejo.

 

Nunca tinha vivido um momento como aquele.

Ontem à noite, em casa, enquanto viajava pelo Instagram reparei num “like” de alguém em Berlim.

Bateu-me uma coisa cá dentro.

Abri o perfil dessa pessoa.

A primeira coisa que me apareceu foi um vídeo, o vídeo do tocador do realejo.

Os corredores, em fundo, a passarem, na sua corrida, naquela manhã mágica de domingo, em Berlim, enquanto ele tocava aqueles sons que me deixaram sem qualquer reacção, como quando as pernas me falharam e a cabeça fugia dali, muitos quilómetros depois.

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Chama-se Inês.

Não revelo o nome todo, porque não sei se ela irá gostar, apenas que se chama Inês e gosta de mim, e eu dela.

Meti conversa.

Disse-lhe que aquilo que tinha acontecido, no domingo, tinha sido um flash para nós os três e perguntei-lhe de onde nos conhecíamos, se tinha sido minha aluna, por exemplo?

“Olá, sinceramente, não sei, eu acho que é capaz de ser do facebook. Penso que lhe mandei um pedido de amizade há bastante tempo. É capaz de ser dai”, respondeu-me.

“Acho que comecei a seguir o seu blog e depois mandei o pedido”, acrescentou, na resposta.

Agradeci-lhe e disse-lhe que ia escrever sobre ela no texto de hoje, “O Quilómetro Dois”.

Disse-me que estudou jornalismo, mas não tinha sido minha aluna.

Está a viver temporariamente em Berlim.

“Eu vi um grupo com as bandeiras de Portugal nas camisolas, mas não tinha reparado que estava lá.

Gritei Portugal, mas vocês não me ouviram.

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Só depois reparei que estava lá no meio”, continuou ela, a contar-me o que ali aconteceu.

“Foi aí que gritei o seu nome, depois de hesitar entre os seus três nomes :) “

A nossa troca de mensagens continuou, até hoje.

Foi ela quem me deu os vídeos e as fotos deste texto.

“Como vivo aqui em Berlim e gosto muito deste tipo de provas, achei que tinha mesmo de vos vir apoiar”.

Ainda me custa um pouco a acreditar que aquilo aconteceu de verdade.

Quando o tempo pára no tempo!

Quando isso acontece é difícil acreditar, porque ainda passou pouco tempo, desse tempo.

É difícil, mas acredito, porque sei que a Inês existe, porque agora sei quem ela é, porque trocámos mensagens, ela existe.

E, eu passei a ter mais uma pessoa na minha história.

Estou feliz porque, embora, não tenha a certeza que ela tenha chorado, naquele instante, eu chorei.

Estou feliz porque, sei que a Inês jamais vai esquecer aquela manhã de domingo, em Berlim.

Nem ela, nem eu, nunca mais.

Entrámos no quilómetro três.

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VOLTEI A TER PERNAS ( DIA 9 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 31.01.18

 

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Passaram quatro semanas, desde que comecei a narrar aqui a minha aventura, que vai durar até Setembro.

Poucas coisas me correm bem na vida, mas esta correu como previsto, pelo menos tem estado a correr.

Quatro semanas depois tive “alta” das pernas.

As contracturas desapareceram todas (resta restos de uma, mas já lhe ganhei carinho), depois do tratamento-choque à base de massagens ( 7 em 4 semanas) e mudança brusca de hábitos alimentares, mais vitaminas e magnésio.

“Primeiro objectivo atingido, as tuas pernas estão prontas”, disse-me o meu treinador, depois de mais uma sessão de massagens.

“Volto a dizer que nunca vi uns gémeos como os teus, não sei como conseguias correr com tantas contracturas. Agora vamos dar mais um passo em frente”.

Foi, provavelmente, a melhor notícia que recebi este ano, que não tem sido um ano nada fácil, mas isso são outras histórias.

Comecei mal o dia, aquela cena da austeridade, o recibo de vencimento sem duodécimos e sem mais um bocado de dinheiro que tanto me custa a ganhar.

Fiquei neura, quando fico neura refugio-me, mas hoje tinha que ir fazer 40 minutos de bicicleta, porque hoje era dia de massagens e o meu treinador queria perceber como é que as pernas iam responder após três semanas sem grande esforço.

Não tinha como não ir.

Pedalei 14 quilómetros, alonguei bem, fiz-me à estrada e não, ainda não me passou a neura, só vejo as caras do Socrates, do Passos e do Costa à frente e esta vontade de lhes fazer maldades ainda me consome.

Mas, diz-me o José Carlos: “tivemos sucesso com as tuas pernas”, e isso alegrou-me.

“Sabes do que tenho saudades?”, perguntei-lhe eu, depois de desabafar com ele sobre a revolta que me invade por causa desta gente que comanda este país, gente que eu não respeito, nem que morra agora, aqui. Lamento.

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O meu treinador ouviu o meu desabafo austero, e foi-me animando, à medida que os seus dedos se cravavam nos meus músculos e me ia dando as boas notícias.

“Tenho saudades, nem que seja de correr só um bocadinho”.

“Não te preocupes, para a semana vamos introduzir a corrida, no treino”.

Foi o que precisava de ouvir, para vir escrever este texto, se não aposto que ia ficar aqui, comigo próprio a chamar nomes a estes filhos de uma enorme meretriz.

O desporto faz parte da minha vida, é a ele que recorro para  aguentar toda esta porcaria, os impostos, o trabalho, a corrupção, as preocupações, esta vida cada vez mais merdosa que nos impõem.

Não corro há quatro semanas, que fique claro.

Nos dias que faltam até ao fim de semana vou continuar a fazer reforço de pernas, core e membros superiores, e até lá vou receber o “mesociclo” que  meu treinador me vai enviar e iremos falar ao telefone para acertar detalhes desta segunda fase, mas para a semana tudo vai mudar, outra vez.

A maratona é ali à frente.

Até lá é lutar, contra mim, contra os fantasmas, contra este sistema abjecto, e acreditar, acreditar em mim, sobretudo e sobreviver.

Acreditar que se eu consigo passar da noite para o dia e fazer-me à vida, porque quero correr a maratona, acreditar que estando focado me abstraio do resto, acreditar que estas elites, um dia, um dia vão meter a mão na consciência.

Eu sei, sou um utópico.

Esta gente só mete a mão nos bolsos, dos outros, sabem lá eles o que é consciência.

Agora só quero que chegue segunda feira, para voltar a correr como se não houvesse amanhã.

Por dores nas pernas já não as há.

Valha-me isso, pelo menos, porque de dores está a minha alma cheia.

Nunca estive tão farto, como agora!

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