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( FOTO: ALICE VILAÇA - MARATONISTA )

 

O amor.

O amor corre de mão dada.

Eu sei, porque vi.

E tenho testemunhas. Há pelo menos 43 mil pessoas que viram, não fui só eu.

Agora sei que se chamam Dora e Carlos.

No domingo soube que eram portugueses, pelas camisolas.

Alguns portugueses correram na maratona de Berlim, nada de relevante se comparado com corredores de outras nacionalidades.

Impressionou-me a quantidade de mexicanos, de brasileiros e de norte-americanos.

E alemães, claro.

Portugueses contavam-se pelos dedos das duas mãos.

Eu, a Alice, o Chico, a Clara, O Stephane, o Diogo, a Sandrina, um companheiro que não revelo por agora o nome - senão estraga o argumento de uma próxima história -, mais a Dora e o Carlos.

Sei que houve um outro grupo de portugueses a correr, mas não os vi durante os cinco dias de Berlim.

Não devia haver muitos mais, se havia não sei, ah, havia sim, havia um senhor de idade avançada que, por momentos, pensei ser a mesma pessoa que me acompanhou numa corrida de dez quilómetros há uns anos, em Lisboa.

“Lebres do Sado”, li eu, naquela camisola deslavada.

Falarei dele quando chegar a um outro quilómetro, que este é dedicado ao amor, que corre de mão dada.

Éramos poucos, muito menos, os portugueses, do que o tempo que demorei a escrever esta ideia.

Bastava esta frase: éramos poucos, deu para perceber.

É engraçado, quando corres uma maratona pela primeira vez nunca estás preparado, nunca, por muito que aches que estás. Nunca.

Disso dei conta no domingo, isso confirmei há bocado.

Ora leia:

" Então boas tardes, fico feliz por ver que a tua parte de "gru mal-disposto” já tenha passado :)

As sensações de uma primeira maratona são difíceis, se não praticamente impossíveis de transpor para papel.

Sei perfeitamente o que sentiste ao passar aquele pórtico de meta porque tb já passei por isso e aposto que existe um Zé AM e um Zé DM - antes da maratona e depois da maratona.

Foi divertido acompanhar os teus últimos km, ora à vossa frente, ora atrás, fartei-me de rir com os teus amigos (nessa altura eram da onça não eram?) ao ver-te rezingão e meti-me contigo (se os olhares matassem não estava aqui a escrever agora :) ).

Voltei a ver-te depois de já teres cortado a meta, quase sem palavras, todo feliz da vida a tentar retirar o "suor" dos olhos :) … muitos parabéns!!!

Pela Maratona concluída, pela resiliência e tb pelos amigos que tens.

Aquele abraço, do casalinho tuga "simpático" (digo eu) que fez metade da maratona a caminhar de mão dada :)

P.S. Fixe fixe era mandares aquelas fotos que tiramos juntos na meta. Isso é que era ;)

P.S.2 - Qual é a próxima??? :) "

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A foto já seguiu, porque os maratonistas são gente de palavra.

Ao ler o comentário do Carlos, aqui neste blog, percebi, definitivamente, que a única pessoa que ali ia a alucinar era eu. Toda a gente viu o que estava a acontecer, menos eu.

Eu só queria despachar aqueles 16 quilómetros ( baqueei aos 26) e ir à minha vida.

O que a Dora e o Carlos não sabem, porque não lhes disse é que ao ver os seus sorrisos, no final e, mesmo tendo feito mais tempo do que eu, senti-me um homem ainda mais feliz, não por causa do tempo feito, mas porque eu gosto de pessoas que sorriem, que correm de mão dada.

Na verdade, se isto não fosse uma narrativa interminável, uma história incotável, um mar de emoções, eu até podia ter ficado deprimido, porque eles foram mais lentos do que eu, mas eles não treinaram e eu treinei nove meses, mas não tenho tempo para isso, por falar em tempo.

Ainda bem que demoraram mais do que eu, senão nunca me teria cruzado com eles.

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 Respondi ao comentário do Carlos:

"Boa tarde, Carlos,

Estou sem palavras, a sério.

Notou-se assim tanto o meu stress?

Imaginas o tanto que cerrei os dentes para continuar. Sabes o que senti ao passar aquele pórtico. E, sim, Há um Zé AM e um Zé DM, não havia outra forma, foi também por isso que lá fui, para vir de lá um ser humano diferente.

E, consegui.

Os meus amigos da onça tornaram-se muito mais do que amigos, naquele domingo em Berlim;

eles foram lá para me ajudar a ser maratonista, não foram para correr por eles e, isso não está ao alcance de qualquer um, é preciso ter um grande coração, gostar muito dos outros, sem falsidades.

Sim, houve momentos em que o meu olhar matava qualquer um, porque as minhas pernas me matavam, a mim. Nunca me faltou o fôlego, apenas as pernas. 

Isso provocou-me revolta interior. Eu queria, mas as pernas não.

Quando vos vi, e percebi que eram portugueses, apetecia-me abraçar-vos, mas não conseguia, naquele momento só queria ver a minha filha, a minha mulher, abraçá-las e depois cortar a meta."

Carlos, Dora, desculpem não ter sido simpático, desculpem não vos ter ligado nenhuma naquele instante, mas não consegui. Tive que apelar ao maior do egoísmo, para chegar até ao fim.

Não podia desistir, não conseguia andar, e tinha que correr.

Por muito difícil que fosse, nunca cortei uma meta a passo, não o podia fazer ali.

"Isto não foi apenas uma corrida, isto foi muita coisa junta, para mim, dentro e fora da corrida, que a vida tem sido um desafio constante e há corredores (com letra pequena) batoteiros.

Vocês não são um casalinho simpático, vocês são o casal que fez a maratona de mãos dadas ( estou a chorar, neste momento) e, isso, também não é para qualquer coração.

Hoje, "O Quilómetro Três" é dedicado a vocês.

Envio a foto, sim, pede-me amizade, no Facebook (ZeGab Quaresma).

Forte abraço

PS: a próxima será Londres, para o ano, abaixo das 5H :) "

Amor.

Eu sei que amor corre de mão dada.

Eu vi e tenho testemunhas.

A foto já seguiu.

A maratona de Berlim deu ao Carlos o meu blog.

A maratona de Berlim deu-me mais dois amigos, o Carlos e a Dora.

Deu-me tanto, a maratona de Berlim.

Entrámos no quilómetro quatro.

 

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FELIZES, APENAS ( DIA 21 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 01.05.18

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Quando te sentes pequeno, ao pé de outros e feliz, por isso.

Hoje tinha tudo para correr bem e para correr mal.

Correu muito bem.

Desde logo, porque o meu pai resolveu fazer-me companhia.

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Mal cheguei dei de caras com o João Campos ( um grande amigo corredor ).

Mal nos tínhamos cumprimentado, já ao longe caminhava em nossa direcção a Alice Vilaça ( uma grande amiga das corridas ).

Nada combinado, é assim !

Feitas as apresentações saímos para o aquecimento.

Sairam, porque logo ali alguma coisa dava sinais de me querer chatear.

Subimos a rua e entrei no café, enquanto eles continuaram, devagar, para aquecer.

Fila, como sempre, para o WC.

A menos de dez minutos da partida lá consegui estabilizar um pouco a coisa e, quando pensava aquecer um um bocado, como me tinha recomendado o meu treinador já a corrida tinha começado.

Quase mil e quinhentas pessoas.

Eu nunca tinha corrido num estádio, numa pista de tartan.

Dado o tiro de partida, Alice e João decidiram acompanhar-me. Tentei demovê-los. Eles correm mais rápido, eu ia fazer um teste, após cinco meses de recuperação e não era minha ideia estragar-lhes a corrida.

Até porque eu ia com o objectivo de me testar nos 10 quilómetros, os outros cinco eram uma borla, mas eles insistiam.

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Assim foi, assim fomos, até ao quilómetro dois. Isso.

Bom ritmo e a conclusão que, de duas uma, ou devia ter ido mais vezes ao WC, ou devia ter tomado um pequeno almoço mais reduzido, embora com os ingredientes ideais, ou devia tê-lo tomado mais cedo, nunca uma hora e meia antes da corrida.

Enquanto eu vomitava, ali mesmo em frente ao LNEC - peço desculpa - Alice e João esperavam por mim.

“Vão se embora”, gritei-lhes.

Quando isto me acontece tenho que parar mais umas duas ou três vezes, só depois fico novo, de novo.

À terceira foi de vez, obriguei-os a irem-se embora.

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O João sabe muito disto, reparei que,, enquanto fui com eles (fizeram menos 20 minutos do que eu) ele tentava manter a cadência certa da corrida, saltava para a nossa frente, discretamente, ia a ajudar-me-nos, sobretudo a mim, que quer o João, quer a Alice conhecem bem esta minha estranha história com a corrida.

Já sem eles senti-me mais livre.

Com eles tinha aproveitado para fazer os primeiros cinco quilómetros abaixo da meia hora, continuava indisposto, mas melhor, agora. Sem dores, pouco cansado, apenas com uma pequena "bola" aos saltos dentro do estômago.

Vamos lá para a segunda parte, pensei.

Se os primeiros cinco quilómetros foram feitos abaixo da meia hora, então poderei fazer dez abaixo da hora.

Subi os túneis de Entrecampos e a Avenida da República - está bonita, a cidade - e já perto do Marquês, no cruzamento da Augusto de Aguiar tiram-me esta foto.

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O meu amigo Pires (Grilo), que fez a tropa comigo, na Força Aérea, um super-atleta, é da minha idade e faz Triatlo, Maratonas, Trails e eu sei lá mais o quê!

O Pires é da PSP, das motas, e estava ali no cruzmamento, a cortar o trânsito.

Aos anos que não dávamos um abraço.

Agora é sempre a descer, pensei eu, desejei eu.

Fiz uma hora e quatro, aos dez quilómetros, entretanto já tínhamos descido a Avenida da Liberdade, dado a volta no Terreiro do Paço, já tínhamos passado o Martim Moniz, e a Almirante Reis, até ao Areeiro, estava quase.

Só que, estes últimos sete a cinco quilómetros, com a Fonte Luminosa pelo meio, foram todos a subir, de carro não parece, mas são a subir, garanto.

Quando virei a Rotunda do Areeiro dei conta que tinha perdido uns minutos na Almirante Reis, minutos ganhos antes, a descer a Fontes Pereira de Melo e a Avenida da Liberdade, mesmo com o abraço ao Pires, pelo meio.

Eu vinha cá para o fim da corrida.

A corrida do 1º de Maio é uma daquelas corridas onde os primeiros terminam em 40 e poucos minutos, menos uma hora do que eu.

Até mesmo os “populares”, com os seus 60, 70 ou 80 anos fazem a prova em tempos bem mais baixos que o meu.

A Alice e o João campos fizeram, obviamente.

Mas, o meu objectivo eram os dez quilómetros, para ver como tudo reagia, as pernas, a cabeça, o organismo, os músculos. Eazer entre hora e uma hora e dez. Fiz uma hora e quatro.

Gastei 41 minutos para fazer cinco quilómetros, quando em média os faço em meia hora.

A subida, o cansaço e alguma fraqueza por causa do que aconteceu ao quilómetro dois, em que salpiquei as sapatilhas da Alice e do João, e do Jorge Máximo e da Cláudia - mais dois amigos, de coração - , que entretanto me viram ali naquela triste figura.

Malditos dois copos de batido.

Até hoje só fiz treinos até dez quilómetros, desde Janeiro.

A última corrida longa que fiz foi em Novembro.

Passada a indisposição provocada pelo batido de aveia, com proteína e uma banana, uma torra de pão escuro com fiambre de perú e queijo fresco, mais um café, a corrida soube-me bem. Senti prazer. Não tive dores. Diverti-me. escutei as palmas de incentivo, revi amigos e estive uma manhã com o meu pai, o que não acontecia há milénios.

Disse-me uma das atletas de elite ( do SCP), "amanhã vens fazer os outros 15 quilómetros, com isso tudo o que comeste?".

Não tive dores nas pernas, consegui fazer os túneis de Entrecampos sem caminhar.

Fiz a Almirante Reis muito devagar, mas sem caminhar, e sentia-me bem, cansado, mas feliz, estava quase.

Certo é que dez quilómetros - ainda - são uma coisa, e mais cinco - ainda - é outra coisa diferente, para quem está na (não) forma em que estou.

Dizia eu, no fim, à Alice, ao João e ao meu pai: “como é que eu vou correr 4 horas seguidas, se não consigo fazer 15 quilómetros abaixo da hora e meia?”.

“Calma, ainda te falta bastante tempo até à maratona”.

Naquela altura nenhum de nós estava cansado. Felizes, apenas. Vê-se nos rostos.

Cansado já ia eu, a trezentos metros do fim, antes de reentrar no estádio, quando pela frente aparece a Alice, para me incentivar até ao fim, ela costuma fazer-me isto, já não é a primeira vez;

“Vá, entramos aqui na pista, o teu pai está lá na meta todo orgulhoso à tua espera, não olhes para a meta, só depois da curva”.

Nestas alturas, no fim das corridas, por muito boas ou penosas que tenham sido é da praxe fazer os últimos metros com altivez.

Escuto a Alice “agora vou desviar-me que esta chegada é só tua”.

Cortei a meta.

Baixei-me para respirar.

Faltava o meu pai.

 

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Dei um abraço ao meu velho.

Eu nunca tinha corrido a corrida do 1º de Maio e sempre soube que ele foi para me acompanhar, para passar a manhã comigo.

Só que, conheço-o há 48 anos.

E, sei que ele também foi para reviver outros primeiros de Maio.

“Ainda dei duas voltinhas à pista, fui lá abaixo à avenida e voltei”.

“E gostaste?”.

“Claro, gostei pois, o 1º de Maio…”.

“Da corrida, pai…”.

“Sim, da corrida do meu 1º de Maio”.

Senti-lhe a saudade, nas palavras, dos tempos em que lá ia ele, de punho ao alto, festejar o Dia do Trabalhador.

Nunca conheci, até hoje, um outro como ele.

Foi tão bom.

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COISAS DA VIDA E DA CORRIDA (DIA 14 DA MARATONA)

por The Cat Runner, em 14.03.18

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A corrida tem-me ensinado algumas coisas.

Coisas sobre ser, sobre ver, sobre a vida, até sobre a morte, que já corri, para poder gritar, sózinho, eu e o céu.

Olhe, ensinou-me, recentemente que devo comer com regularidade e sempre antes de treinar, ao contrário do que fiz durante anos.

Olhe, ensinou-me que faz sentido a teoria da cabeça;

"Corpo são em mente sã".

Quando a cabeça está ausente, o corpo perde-se, tal como a vontade.

Se és resiliente e vestes o equipamento e sais para treinar, daí até ao fim, sabes bem, será um brutal pesadelo.

Tudo te pesa, tudo te dói, tudo te irrita, tudo te impede, mas tu vais.

"Se a cabeça não estiver bem, esquece, Zé, nada funciona", disse-me o meu treinador. Confirmei.

Tenho treinado, nos últimos dias, como sempre, desde o dia em que me coloquei este desafio, com a certeza que vou cruzar a meta, em Berlim.

Mas, tem havido dias muito difíceis, que só me vieram comprovar a teoria.

Isto fez-me pensar em algumas coisas da vida.

É, a vida, um processo de transformação, resume-se quase a isso. Então olha-a de frente, José.

Ontem fiz o melhor treino, desde que esta aventura começou.

Quando sentes o cansaço, mas ele sabe bem, em vez de te prender ao chão, quando corres mais rádio, quase sem te dares conta, não fossem os registo do relógio, quando terminas, transpirado até dizer não, quando acordas no dia seguinte e sentes que estás vivo.

Corri abaixo dos seis minutos por quilómetro, sem qualquer dor, sem qualquer desconforto, gozando em pleno a corrida.

Nestes últimos dias, uma das muitas coisas da vida em que tenho pensado é na forma de ser feliz. Isso passa pela corrida, haja cabeça.

Desde Janeiro que questiono diariamente se, de facto, isto irá até ao fim.

Confesso, por vezes sinto-me tão em baixo que questiono tudo.

O que não faz uma corrida.

Ontem, depois de correr, voltei a sentir-me leve, em paz, feliz. Hoje acordei assim, a acreditar que a vida tem aquele lado sereno, embora demore, por vezes, a encontrar. Tamanhos conflitos interiores.

Quero poder dizer: sou maratonista, isso quero, mas a minha aventura já valeu a pena e mal começou.

O que não faz uma corrida, um momento mágico, um instante.

Há, depois, mais coisas da vida, como a emoção, os sentimentos, os afectos.

Tenho tido a sorte de ter encontrado, nestes dias de Inverno, pessoas que não saem do meu lado, pessoas que me empurraram para aqui, até aqui.

É também por elas que vou continuar, porque naquele sábado que tanto desejo, quando passar a linha de chegada é para estas pessoas, tão especiais na minha vida, que irei levantar os braços, olhá-las de frente, para que vejam o rosto do esforço, para que saibam que a minha amizade é eterna, incondicional.

Voltei a acreditar.

Em mim, na vida, na minha corrida.

É de maratonas que gosto.

É por isso que gosto da vida.

Lutar ou vencer.

Não há outra hipótese, apenas uma escapatória:

amar, muito.

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A TEMPESTADE DENTRO DE MIM ( DIA 13 DA MARATONA)

por The Cat Runner, em 04.03.18

 

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Porque há domingos assim...

 

 

Chovia a potes.

Foi de repente, de repente, assim que me despedi dos meus dois amigos começou a chover a potes. Uma daquelas chuvadas que nos empurram porta de casa dentro, para um sofá reconfortante.

Pegar ou largar !

O rio mostrava-se-me bravo, mas eu conheço-o, desde miúdo, entendo-lhe a cor escura, nem vivalma no horizonte, nem barcos a subir em direcção à ponte, nem namorados sentados nos bancos decorados pela história dos heróis da vila, grandes, nada, ninguém.

Apertei os cordões do carapuço azul, bem apertados, aconcheguei os phones nas orelhas, fiz play e fui.

Nos primeiros quilómetros vi os meus próprios passos. Só eles.

Tanta era a chuva que, não podia levantar a cabeça, apenas os meus passos. De tempos a tempos desapertava os cordões do carapuço azul e olhava de frente para o meu caminho, ninguém. Nada.

Aprendi que, afinal, não baixo a cabeça apenas para apertar os atacadores, também baixo a cabeça para ver os meus próprios passos, toc-toc-toc-toc, assim, a este ritmo.

Tenho-me obrigado a isso, a olhar os meus passos. Como se tudo estivesse prestes a recomeçar.

Já não me lembrava de como era correr à chuva. Há quem dance, há quem cante, há quem corra à chuva, eu corro à chuva.

Corro contra o vento, contra o tempo, contra aquilo, contra isto, corro, mesmo quando sinto puxar-me para trás.

Agora que corro sem dores nas pernas, finalmente, continuo a fazer tempos de corrida idênticos. A diferença está no facto de, agora, ter voltado a desfrutar do prazer de correr, o prazer de sentir as gotas de suor a cair nos olhos, misturadas com as notas da chuva, sim, consigo diferenciar, o prazer de sentir a temperatura do corpo a subir, e a cabeça a viajar, as pernas a responderem.

O prazer de correr sem ter que parar, só a porcaria do relógio parou, a aplicação também, a meio da corrida. Chateou-me, claro que chateou. Vou mudar, de relógio e de aplicação.

Vou mudar tudo, ou quase tudo, depois da maratona que vou correr, pela primeira vez.

Cada vez mais o sinto.

Tenho vivido momentos difíceis, coisas minhas mas, nos últimos dias têm-me acontecido coisas boas, pessoas. As pessoas fazem-me bem, ao sorriso.

Hoje, pela primeira vez, fui a uma corrida e não corri. Foi nesta corrida que me estreei, há quase cinco anos, sozinho, como sempre, como eu próprio. Fui lá só para dar um abraço, a dois amigos, que me estimam, que estimo, amigos feitos a correr, porque a vida é isso mesmo, uma corrida de fundo, como a maratona.

É este o meu desafio, a minha corrida, a minha experiência. Toda a vida desafiei a vida.

Estamos cara-a-cara, eu e ela, de novo, eu e ela.

A minha maratona não é só uma corrida grande, a minha maratona é a metáfora de toda a minha vida. É agora que preciso, muito, de saber se sou capaz, de saber quem sou eu, de saber como irei ser, dali em diante, porque é perder ou ganhar.

Já não há mais tempo. É o meu tempo, o meu confronto, perder ou ganhar.

Não é apenas uma maratona, é a minha maratona.

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Estive com estes dois amigos, depois da corrida, ele de Guimarães, ela de Arruda dos Vinhos, vieram correr à minha terra, ao meu sítio.

Foi, orgulhoso, que lhes falei do caminho onde corro, onde me reencontro, onde sinto e vivo, “é ali em frente, fantástico, não é?”, perguntei, enquanto tomávamos um café, olhando o rio, bravo, o rio.

“Estás a ver a praça de touros? O meu primeiro restaurante era logo a seguir...”.

Falei-lhes imenso de tudo, como sempre, falo imenso, ninguém é perfeito.

Metemos a conversa em dia. O Francisco vai correr a maratona, comigo, em Setembro, a Alice, provavelmente.

Falámos sobre os apoios que estamos a tentar, para suportar esta aventura, falámos da família, amigos.

Tenho tido, nestes dias de temporal, amigos que fazem questão de entrar dentro da metáfora que estou a construir.

Se escrevo este texto, hoje, devo-o à Petra, um ser humano como nunca conheci, não que me tenha feito nada, a não ser empurrar-me para a escrita, de novo, e o tanto que isso é.

Amigos.

E, se ao Francisco e à Alice devo o abraço - há um ano, exactamente, estava em Moçambique, nas aldeias do abraço - à Petra devo o sorriso, e se à Petra devo o sorriso, ao Rui devo um mundo inteiro.

Não contem a ninguém, mas eles não sabem que lhes devo tanto.

Amigos.

Assim que me despedi deles começou a chover a potes.

Foi quando comecei a correr !

 

 

 

 

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AMIZADES ETERNAS E CORRIDAS SEM FIM

por The Cat Runner, em 20.04.15

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                                   ( Foto by The Cat) 

 

 Eu corro atrás de sonhos. Sem vergonha de o dizer.

Ouço música, enquanto corro atrás deles. Como agora.

Eu escrevo como sonho.

Não me interessa a conversa do lado de fora, o ruído é ensurdecedor.

Não me interessa, aqui, defender pontos de vista, discutir opiniões, ouvir as verdades de cada um. Não me interessa justificar.

Gosto a cada dia que passa, cada vez mais, de ter este blog. Dá-me cada vez mais prazer escrever aqui.

 

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