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São vinte quilómetros, senhoras e senhores.

Parece fácil mas é uma carga de trabalhos.

Escrever um quilómetro não é uma tarefa simples, quanto mais vinte, quanto mais quarenta e dois e mais uns pózinhos, só que a vida não é, ela própria fácil.

Falemos, a partir daqui, de superação, essa palavra tantas vezes dita, que tanta gente guia, por essa vida fora.

É disso que se trata.

Trata-se de tomadas de decisão. É isso que fazemos dia-após-dia, tomamos as decisões que entendemos serem as melhores, para nós, para aqueles que amamos, para os outros.

Mas, é o “eu” que deve sobrepor-se ao que nos rodeia. Sobrepor-se sem anular o que nos rodeia, valorizando, mais e mais.

Não há outra forma de correr esta estrada, quando o desafio nos chega e nos enfrenta.

Não somos nós, embora queiramos pensar que sim, que o enfrentamos, nunca assim foi.

Somos nós que queremos transformar as nossas dúvidas em certezas, somos nós que queremos que os nossos sonhos e desejos sejam reais.

O que nos rodeia ajuda ou dificulta, por isso também deve ser valorizado.

Vale a pena acordar, sair da cama, lavar a cara, sorrir ao espelho, para nós próprios.

Agir, em vez de ficarmos a sonhar na esperança que os pesadelos passem quando abrimos os olhos.

Quando agimos, persistentes, corajosos, os desejos realizam-se.

E, por vezes, é esse o momento em que percebemos que, afinal, não estamos sós.

Sem medo, sem medo do que está para chegar, porque a coragem está do nosso lado.

Uma maratona só se corre com coragem, tenha ela a distância que tiver, porque só vivemos uma vida.

Quando decidi ir correr a maratona, nas ruas de Berlim, um dos meus objectivos passava por criar em mim uma motivação especial, para sair do marasmo a que os meus dias me tinham condenado.

Acordar dos sonhos, matar os pesadelos.

Corri atrás daquilo que queria, embora tenha escolhido o mais dos exigentes testes, havia outros, mas era a maratona que eu queria, pela dureza que ele representa, pelas marcas que deixou em mim.

Ou morro ou mato-me, como diria o outro.

Ou vivo, ou viverei, como digo eu.

Eu. Ponto.

Este texto soa a um exercício de narcisismo, mas está muito longe disso.

Pelo contrário.

Ele fala de mim, porque sou eu que o escrevo, sou eu quem o corre, dureza, dificuldade, ousadia, coragem, porque não basta desejar, é preciso merecer, fazer por merecer, seguir em frente.

Viver é como correr, é estar em constante movimento, respirar sem parar, é ter um plano, um trajecto e tentar não nos desviemos da rota, a não ser que tenhamos que a corrigir, não para encurtar o caminho, mas para o tornar mais acessível, porque o fim é lá à frente.

Começar pelas pequenas coisas, um dia de cada vez, para ganhar confiança, a nossa e a dos outros e sermos mais merecedores daquilo que temos, daquilo a que queremos.

Eu não tenho muitos amigos, tenho muitas pessoas que conheço, a maioria, fruto da minha (pouca, felizmente) exposição pública, à qual tento fugir cada vez mais e mais, sempre a correr.

Os meus amigos eu sei perfeitamente quem são e, por vezes, erro, correndo até alguns riscos, na avaliação que faço deles.

O Carlos Samora é um desses meus amigos.

É uma espécie de irmão mais velho, que nunca tive, sempre pronto para mim, para tudo, já lá vão quase vinte e cinco anos.

Ainda ontem, no Centro de Saúde, quando fui à consulta, um daqueles senhores que tem a mania que sabe tudo, daqueles chatos que temos que aturar pra não sermos indelicados (até porque, na verdade, nunca nos fizeram mal) me dizia, insistia, que o Carlos tinha ido comigo a Berlim.

"Então, a maratona, como é que correu e o Samora, também foi correr?".

“Não foi, garanto-lhe, o Carlos apenas ajudou nesta operação, a vários níveis, mas não esteve em Berlim”, tentei que compreendesse, do alto da sua certeza, encostado ao balcão das informações.

"Claro que foi, eu vi que ele esteve em Berlim", insitiu, chato, como sempre que o encontro.

"Se calhar o senhor viu foi fotografias com a camisola do restaurante do Carlos, só pode ser isso".

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“Esteve em Berli, então eu não sei, o não sei das quantas disse-me que esteve, que o viu lá”, carregou na sua certeza.

“Se o senhor diz que esteve, então esteve, mas não foi comigo”.

Entretanto, a voz do doutro Manuel chamam-me no intercomunicador do centro de Saúde.

Salvo pelo gongo, que até eu, um gajo que leva com tudo e com todos, perco a paciência, sobretudo, perante pessoas extremamente fúteis, tão fúteis que se tornam irritantes, como naqueles instantes em que estás a correr e queres parar, sabendo que não podes, nem deves parar, porque ainda faltam mais vinte e dois quilómetros para o fim e entras em stress.

Iso aconteceu-me em Berlim, várias vezes durante a corrida.

Ninguém é de ferro, nem os tipos que correm maratonas, garanto.

O Carlos Samora esteve em Berlim, sim senhor, naquele domingo.

Mas, não dava para explicar ao tipo chato, ele nunca iria entender.

Naquele domingo dezenas de pessoas estiveram comigo em Berlim, durante aquelas cinco horas - vi ontem que a aplicação Strava me deu 5.02H, ao contrário das 5.11H - tempo oficial).

Eu sei que estiveram, porque as redes sociais me mostraram.

Isso não tem preço, porque ninguém se supera sempre sozinho, a não ser os fora-de-série, que também os há.

A superação é uma coisa que às vezes se consegue, não basta querer, por isso só as vezes se consegue.

Motivação, sobretudo.

As pessoas motivam-me, até aquele momento em que me desiludem e o Carlos nunca me desiludiu, talvez em já o tenha desiludido.

Dezenas de pessoas levaram-me ao colo durante todo aquele tempo e, sim, o Carlos Samora esteve comigo, no meu coração, em Berlim.

Mas, foi chegado a Portugal que, realmente, finalmente, percebi o amigo que ali tenho.

Berlim também serviu para isso, separar o trigo do joio da vida. Berlim, abençoada Berlim, serviu-me para tanta coisa, ensinou-me tanta coisa.

Foi dias depois que descobri uma fotografia, no Facebook, na qual eu estava identificado.

Essa fotografia, a que ilustra este texto, retrata uma folha de papel, com uma simples palavras que eu não vi, em Berlim mas, estranhamente, senti.

“Força Zé Quaresma, estamos contigo”.

Acrescento, até ao fim e depois também.

A meia maratona aproxima-se.

É o próximo quilómetro.

É a partir daqui, a partir de agora, que a coisa se vai pôr fina, complicada, extremamente complicada, para mim e para uns largos milhares que cortaram a meta atrás de mim, quase metade dos participantes.

Já fui visitar o Carlos, mas ainda não lhe mostrei a medalha.

Quero fazer-lhe surpresa.

Eu conheci o Carlos no dia em que andava à procura de um espaço para fazer o meu casamento, nessa altura ele já tinha a Coudelaria, um dos melhores restaurantes do mundo, em pleno coração da Lezíria, na Companhia das Lezírias, aqui ao lado da minha casa.

Nesse dia ele pagou-me um café, paga-me sempre um café, quando o visito, e ficámos amigos, para sempre.

Ainda por cima, o Carlos jogava às quintas ferias na Tapadinha, com a malta com quem eu também jogava futsal.

 

Depois, decidi ficar esperto e deixei essas coisas da bola, que só me traziam lesões e pouco mais.

Hoje, ao escrever este texto reparo que a minha amizade  com o Carlos dura quase metade da minha vida.

É por ele que corro este quilómetro, enquanto tenho forças porque, tal como disse, vem aí o resto da maratona, o que falta é igual ao que já corri e, também como eu disse, quando agimos, persistentes, corajosos os desejos realizam-se.

O Carlos Samora ( sim, é primo do Rogério Samora) ajudou-me e muito a realizar este meu desejo, este sonho, esta prova de superação, que ninguém é grande sózinho, só os génios e, sempre, como sempre, a meu lado, com a aquele sorriso fantástico, por baixo daquelas barbas sempre brancas, que me fazem lembrar o Pai Natal.

Enquanto tomava o café e comia aqueles bolos em miniatura que ele faz questão de me oferecer, realizei que esse era o momento em que percebemos que, afinal, não estamos sós.

E, como isso é tão importante, tão decisivo, tão encorajador.

Uma maratona só se corre com coragem, tenha ela a distância que tiver, e nós só vivemos uma vida.

Abracemos os nossos amigos.

Hei-de ir aí, em breve, para te mostrar a nossa medalha.

Entrámos no quilómetro vinte e um.

 

 

 

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AMIGOS SEM ASPAS ( DIA 28 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 03.06.18

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Não via o Zé Carlos há mais de trinta anos, trinta anos.

Perdemos o rasto, um ao outro, até um dia.

Nós vivíamos no mesmo bairro e, por isso crescemos juntos, na Quinta da Mina.

No nosso bairro tínhamos o mundo inteiro só para nós.

Brincávamos ao touro, porque o Rui tinha um tio que lhe tinha dado uns cornos, que nos transformavam em destemidos forcados, em talentosos cavaleiros, em digníssimos touros. Jogámos ao alerta, e havia sempre um de nós que ficava a tarde toda a tentar “descobrir” os outros, porque os outros se escondiam no campo de futebol, atras do prédio do Luis “francês”, ou no depósito da água, ou dentro das “manilhas”, que existiam no fim da ladeira, e que faziam lembrar os bunkers das guerras que vemos nos filmes.

Putos a viver a vida a alta velocidade, em carrinhos de rolamentos, que nós próprios construíamos, na estrada do hospital, estrada abaixo, na “gáspia”, poucos automóveis havia, e os carrinhos de rolamentos tinham solas de sapatilhas, que faziam de travões, em caso de urgência.

Desvendámos imensos mistérios da vida, da vida de miúdos, quando brincávamos aos detectives, cada qual com a sua pistola e a sua maleta de mão, com “documentos da investigação”.

Imaginávamos o prédio do Covas e do Eduardo (situado mais abaixo, em relação ao meu prédio e ao do Zé Carlos) como sendo um mega arranha-céus, numa gigantesca metrópole, onde se passavam cenas de acção, elevador a cima, elevador a baixo, escondidos na casa da porteira ou deslizando nos corrimões das escadas, para não perdermos o bandido.

Havia sempre um que era “o rapaz”!

  • “Eu sou o rapaz”…

O “rapaz” era, naturalmente, o actor principal dos filmes, o que ficava sempre com a “rapariga” e aquele que nunca morria.

Grandes perseguições se fizeram, grandes tiroteios imaginários aconteceram.

O Eduardo morreu.

Morreu mesmo.

Soube-o agora, pelo Zé Carlos.

O Zé Carlos reapareceu-me na vida, depois de umas mensagens trocadas no Linkedin.

Fazia-lhe confusão como é que eu tirava as fotos das minhas corridas.

Lá lhe fui explicando, até que a dada altura me pergunta se eu sabia com quem estava a falar.

Fui delicado, expliquei-lhe que não, nem pelas coisas que ele me estava a recordar. Dessas recordações apenas reconhecia os nomes, e isso estava a fazer-me confusão.

Estava perante alguém tão próximo de mim, sem que eu conseguisse chegar até ele. O Zé Carlos contava-me histórias para me reavivar a memória, Faltava-me a cara dele.

Andámos dias nisto, até que um dia ele me enviou uma foto de quando era miúdo.

Pois.

Também eu fiquei assim, sem reacção.

Rapidamente chegámos ao Eduardo, que vivia no prédio do Covas.

O Covas trabalha nas OGMA, o Jorge é oficial superior na Armada, o Zéze perdi-lhe o rasto, o Rui tenho-o no Facebook, mas não me liga nenhuma, ao César, não sei o que aconteceu, nem ao Vasco, grande guarda redes era o Vasco.

Às vezes ficávamos no depósito da água, sentados, com as pernas para o lado de fora, a ouvir os relatos da taça dos Campeões, num rádio que falhava sempre as pilhas, à noite, depois de jantar. Outras vezes assaltávamos a casa da Comissão de Moradores (do bairro), enquanto os mais velhos tinham as suas reuniões sobre a comunidade. Nós iamos para a cave e éramos felizes.

Não havia mistérios para nós.

Mas sempre houve um mistério para mim.

Nunca o contei a ninguém, é a primeira vez.

O Eduardo era mais velho do que eu, e do que o Covas, o Rui e os outros; ele e o Zé Carlos eram os mais velhos do grupo.

O Eduardo era alguém misterioso, como a sua família.

O Eduardo era um desenquadrado com a sociedade, muito à frente no tempo dele.

A família era a avó, já muito velhinha, que lhe fazia pescada cozida com batatas, e o pai, alguém que recordo pelo seu semblante, um homem de pele escura, olhos enormes, caídos, ar de putanheiro e de jogador de casino.

Creio que nunca trocou uma palavra com nenhum de nós.

Trinta anos depois há muitos mistérios por desvendar, muitas histórias para recordar, muitas corridas para correr.

Se as corridas me têm dado a alegria de fazer amigos, foi por causa das corridas que, trinta anos depois, ali estávamos nós, outra vez.

Fomos correr juntos.

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Desde que comecei a preparação para a maratona nunca corri acompanhado.

Foi, de todas, a corrida onde me senti bem, sem quaisquer queixas.

Ficámos de voltar a correr juntos mas, sobretudo, ficámos de voltar a rebobinar o filme das nossas vidas.

Hoje fui correr uma hora.

Pela segunda vez, desde Janeiro - quando comecei a recuperação e a preparação - corri sem qualquer queixa. Consegui ter prazer na corrida.

Durante uma hora, só eu, comigo, como gosto, voltei atrás na minha vida, quando tinha sete, oito ou nove anos. Voltei a viver tudo outra vez.

Durante a corrida com o Zé Carlos não falámos daquele que era um dos momentos mais esperados, todos os anos, as fogueiras dos santos populares, quando fazíamos peditórios, na vila, para montar o balcão, com madeiras roubadas das obras, e para comprar o pão, as sardinhas e o vinho.

Depois, era correr por aquela ribanceira abaixo e saltar sobre fogueiras gigantescas, enquanto os vizinhos conversavam uns com os outros, e o bairro era o nosso mundo exclusivo.

Não falámos sobre isso, nem sobre nada do passado.

Corremos e falámos do presente.

É que eu quero voltar a tocar às campainhas dos prédios e fugir, como se fosse o dono do meu próprio mundo.

“Zé, anda para casa”, é a frase que me ecoa, quando a minha mãe me chamava, à varanda, lá do alto do quarto andar.

Por isso, Zé,  ainda temos muitas corridas para correr.

Muitas histórias para recordar, de um mundo que não era de mais ninguém.

Só nosso !

 

 

(NOTA DO AUTOR: Os títulos dos textos mencionam sempre um dia - DIA 28 DA MARATONA - esse número não corresponde efectivamente ao números de dias de treinos, pois comecei em Janeiro. É um número que corresponde ao texto, como se fosse uma página de um livro. Desfeita a dúvida)

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COISAS DA VIDA E DA CORRIDA (DIA 14 DA MARATONA)

por The Cat Runner, em 14.03.18

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A corrida tem-me ensinado algumas coisas.

Coisas sobre ser, sobre ver, sobre a vida, até sobre a morte, que já corri, para poder gritar, sózinho, eu e o céu.

Olhe, ensinou-me, recentemente que devo comer com regularidade e sempre antes de treinar, ao contrário do que fiz durante anos.

Olhe, ensinou-me que faz sentido a teoria da cabeça;

"Corpo são em mente sã".

Quando a cabeça está ausente, o corpo perde-se, tal como a vontade.

Se és resiliente e vestes o equipamento e sais para treinar, daí até ao fim, sabes bem, será um brutal pesadelo.

Tudo te pesa, tudo te dói, tudo te irrita, tudo te impede, mas tu vais.

"Se a cabeça não estiver bem, esquece, Zé, nada funciona", disse-me o meu treinador. Confirmei.

Tenho treinado, nos últimos dias, como sempre, desde o dia em que me coloquei este desafio, com a certeza que vou cruzar a meta, em Berlim.

Mas, tem havido dias muito difíceis, que só me vieram comprovar a teoria.

Isto fez-me pensar em algumas coisas da vida.

É, a vida, um processo de transformação, resume-se quase a isso. Então olha-a de frente, José.

Ontem fiz o melhor treino, desde que esta aventura começou.

Quando sentes o cansaço, mas ele sabe bem, em vez de te prender ao chão, quando corres mais rádio, quase sem te dares conta, não fossem os registo do relógio, quando terminas, transpirado até dizer não, quando acordas no dia seguinte e sentes que estás vivo.

Corri abaixo dos seis minutos por quilómetro, sem qualquer dor, sem qualquer desconforto, gozando em pleno a corrida.

Nestes últimos dias, uma das muitas coisas da vida em que tenho pensado é na forma de ser feliz. Isso passa pela corrida, haja cabeça.

Desde Janeiro que questiono diariamente se, de facto, isto irá até ao fim.

Confesso, por vezes sinto-me tão em baixo que questiono tudo.

O que não faz uma corrida.

Ontem, depois de correr, voltei a sentir-me leve, em paz, feliz. Hoje acordei assim, a acreditar que a vida tem aquele lado sereno, embora demore, por vezes, a encontrar. Tamanhos conflitos interiores.

Quero poder dizer: sou maratonista, isso quero, mas a minha aventura já valeu a pena e mal começou.

O que não faz uma corrida, um momento mágico, um instante.

Há, depois, mais coisas da vida, como a emoção, os sentimentos, os afectos.

Tenho tido a sorte de ter encontrado, nestes dias de Inverno, pessoas que não saem do meu lado, pessoas que me empurraram para aqui, até aqui.

É também por elas que vou continuar, porque naquele sábado que tanto desejo, quando passar a linha de chegada é para estas pessoas, tão especiais na minha vida, que irei levantar os braços, olhá-las de frente, para que vejam o rosto do esforço, para que saibam que a minha amizade é eterna, incondicional.

Voltei a acreditar.

Em mim, na vida, na minha corrida.

É de maratonas que gosto.

É por isso que gosto da vida.

Lutar ou vencer.

Não há outra hipótese, apenas uma escapatória:

amar, muito.

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A TEMPESTADE DENTRO DE MIM ( DIA 13 DA MARATONA)

por The Cat Runner, em 04.03.18

 

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Porque há domingos assim...

 

 

Chovia a potes.

Foi de repente, de repente, assim que me despedi dos meus dois amigos começou a chover a potes. Uma daquelas chuvadas que nos empurram porta de casa dentro, para um sofá reconfortante.

Pegar ou largar !

O rio mostrava-se-me bravo, mas eu conheço-o, desde miúdo, entendo-lhe a cor escura, nem vivalma no horizonte, nem barcos a subir em direcção à ponte, nem namorados sentados nos bancos decorados pela história dos heróis da vila, grandes, nada, ninguém.

Apertei os cordões do carapuço azul, bem apertados, aconcheguei os phones nas orelhas, fiz play e fui.

Nos primeiros quilómetros vi os meus próprios passos. Só eles.

Tanta era a chuva que, não podia levantar a cabeça, apenas os meus passos. De tempos a tempos desapertava os cordões do carapuço azul e olhava de frente para o meu caminho, ninguém. Nada.

Aprendi que, afinal, não baixo a cabeça apenas para apertar os atacadores, também baixo a cabeça para ver os meus próprios passos, toc-toc-toc-toc, assim, a este ritmo.

Tenho-me obrigado a isso, a olhar os meus passos. Como se tudo estivesse prestes a recomeçar.

Já não me lembrava de como era correr à chuva. Há quem dance, há quem cante, há quem corra à chuva, eu corro à chuva.

Corro contra o vento, contra o tempo, contra aquilo, contra isto, corro, mesmo quando sinto puxar-me para trás.

Agora que corro sem dores nas pernas, finalmente, continuo a fazer tempos de corrida idênticos. A diferença está no facto de, agora, ter voltado a desfrutar do prazer de correr, o prazer de sentir as gotas de suor a cair nos olhos, misturadas com as notas da chuva, sim, consigo diferenciar, o prazer de sentir a temperatura do corpo a subir, e a cabeça a viajar, as pernas a responderem.

O prazer de correr sem ter que parar, só a porcaria do relógio parou, a aplicação também, a meio da corrida. Chateou-me, claro que chateou. Vou mudar, de relógio e de aplicação.

Vou mudar tudo, ou quase tudo, depois da maratona que vou correr, pela primeira vez.

Cada vez mais o sinto.

Tenho vivido momentos difíceis, coisas minhas mas, nos últimos dias têm-me acontecido coisas boas, pessoas. As pessoas fazem-me bem, ao sorriso.

Hoje, pela primeira vez, fui a uma corrida e não corri. Foi nesta corrida que me estreei, há quase cinco anos, sozinho, como sempre, como eu próprio. Fui lá só para dar um abraço, a dois amigos, que me estimam, que estimo, amigos feitos a correr, porque a vida é isso mesmo, uma corrida de fundo, como a maratona.

É este o meu desafio, a minha corrida, a minha experiência. Toda a vida desafiei a vida.

Estamos cara-a-cara, eu e ela, de novo, eu e ela.

A minha maratona não é só uma corrida grande, a minha maratona é a metáfora de toda a minha vida. É agora que preciso, muito, de saber se sou capaz, de saber quem sou eu, de saber como irei ser, dali em diante, porque é perder ou ganhar.

Já não há mais tempo. É o meu tempo, o meu confronto, perder ou ganhar.

Não é apenas uma maratona, é a minha maratona.

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Estive com estes dois amigos, depois da corrida, ele de Guimarães, ela de Arruda dos Vinhos, vieram correr à minha terra, ao meu sítio.

Foi, orgulhoso, que lhes falei do caminho onde corro, onde me reencontro, onde sinto e vivo, “é ali em frente, fantástico, não é?”, perguntei, enquanto tomávamos um café, olhando o rio, bravo, o rio.

“Estás a ver a praça de touros? O meu primeiro restaurante era logo a seguir...”.

Falei-lhes imenso de tudo, como sempre, falo imenso, ninguém é perfeito.

Metemos a conversa em dia. O Francisco vai correr a maratona, comigo, em Setembro, a Alice, provavelmente.

Falámos sobre os apoios que estamos a tentar, para suportar esta aventura, falámos da família, amigos.

Tenho tido, nestes dias de temporal, amigos que fazem questão de entrar dentro da metáfora que estou a construir.

Se escrevo este texto, hoje, devo-o à Petra, um ser humano como nunca conheci, não que me tenha feito nada, a não ser empurrar-me para a escrita, de novo, e o tanto que isso é.

Amigos.

E, se ao Francisco e à Alice devo o abraço - há um ano, exactamente, estava em Moçambique, nas aldeias do abraço - à Petra devo o sorriso, e se à Petra devo o sorriso, ao Rui devo um mundo inteiro.

Não contem a ninguém, mas eles não sabem que lhes devo tanto.

Amigos.

Assim que me despedi deles começou a chover a potes.

Foi quando comecei a correr !

 

 

 

 

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NÃO SEI SALTAR À CORDA

por The Cat Runner, em 02.09.15

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Ontem foi um dia diferente.

Ontem, o dia foi marcado por momentos que ficam registados no disco duro da memória.

Ainda ontem falámos da necessidade de manter alguma regularidade em relação aos textos publicados no blog, e como essa intenção é difícil de levar adiante.

Foi ao fim da tarde.

Ao fim de um dia marcado por momentos, um dia diferente.

Ainda ontem falámos das corridas, da forma como gostamos de correr, em que é que a corrida nos modificou, enquanto pessoas. Falámos sobre como a corrida condiciona os nossos dias e as nossas vidas e as vidas dos outros.

Falámos dos nossos amigos, dos conhecidos, dos familiares, das famílias.

Foi ao fim da tarde.

 

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