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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

17.09.18

O QUILÓMETRO ZERO - SOU MARATONISTA ( DIA 56 DA MARATONA )


The Cat Runner

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( QUANDO ENCONTREI A MINHA MULHER, A MINHA FILHA E OS AMIGOS A 200 METROS DA META )

 

 

Confesso que, durante estes nove meses, ainda não tinha dado conta do que a seguir vou escrever.

Corri a minha primeira maratona, aos 48 anos.

Foi a primeira vez que este dado me assaltou o pensamento, o que vem provar que, afinal, vozes de burro chegam ao céu. 

Hoje, quando acordei, no dia seguinte, já com o meu sonho tornado realidade, talvez por causa das dores que sentia nas pernas, nas costas, nos braços, na cabeça, dei conta que, mais do que uma aventura, mais que um desafio extremo que coloquei a mim próprio, correr uma maratona - a primeira - aos 48 anos ( quase 50, credo ) foi, provavelmente, a maior loucura que cometi na vida.

Nunca imaginei, porque me assustava, correr ( e caminhar ) durante mais de cinco horas

( há sempre uns heróis de sofá que acham que é imenso tempo, mas não acredito que alguma vez tenham sentido aquilo que eu senti, até porque só eles acreditam em heróis e a vida nunca foi uma banda desenhada, adiante...).

Quando pensava na maratona fazia-me confusão uma coisa;

em que é que se pensa enquanto estamos a correr durante todo aquele tempo?

Descobri, no domingo, em Berlim, que pensamos em tanta, mas tanta coisa, porque temos tempo para pensar em tudo.

Pensei em todas as pessoas que me apoiaram, directa ou indirectamente, pensei na minha mulher, muitas vezes, pensei nos meus miúdos, no meu irmão, nos meus pais, nos meus amigos, os que já partiram, os que continuam aqui, pensei no Chico e na Alice que brincavam, atendiam o telemóvel, faziam directos, falavam comigo, enquanto eu, qual zombie, me arrastava a seu lado, sem sequer olhar para eles.

Apenas queria chegar ao fim.

Pensei até ns vozes de burro, naquelas que nunca irão chegar a parte alguma, quanto mais ao céu.

Nestes pensei quase nada. Pensei o suficiente para me revoltar e ganhar forças, quando elas se iam embora.

Tive até momentos em que não pensei em nada, em que não estava ali, por exemplo, quando fiquei dormente da cintura para baixo, sem sentir as minhas pernas e os meus pés, naquele momento em que tive que perguntar aos meus companheiros se estava a correr a direito ou se ia aos zigue-zagues.

Pensei em fugir dali, em desistir, mas também pensei no motivo que me levou a Berlim, nos motivos, porque ao longo dos meses o motivo único transformou-se numa bola de neve e quando aqui cheguei tinha muitos motivos para cortar aquela meta.

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Fazia-me confusão esse facto, em que é que se pensa enquanto se corre durante tantas horas.

Longe de mim imaginar o que era correr uma maratona. 

Vivi momentos de stress físico, psicológico, momentos de extrema emoção, momentos em que me senti um campeão, quando nas bermas as pessoas gritavam o meu nome ou diziam "come on Portugal" ( tinhamos os nomes nos dorsais e a bandeira na camisola ).

A Alice recordou os nossos campeões, "já viste, isto é connosco, que ninguém nos conhece, imagina quando os atletas estão no podio, a ver a nossa bandeira a subir".

Vivi momentos de afecto, de ajuda, de total comunhão, como naquele minuto em que  a Alice me disse "volta para a corrida, foca-te, volta à estrada", porque eu ia a alucinar, com o pensamento fora dali, sim, algumas vezes não era eu quem ia ali a correr, era apenas o meu corpo.

Nesse instante alguém me abraça por trás e diz-me:  "come on man, lets do this shit", e eu arranquei para uns 300 metros loucos, ssózinho, insano, sem que me lembrasse do que aconteceu.

Foi o Chico e a Alice que, no final, me contaram, já com a medalha ao peito: 

"Quando o gajo te disse aquilo e tu arrancaste e ele perguntou-nos: He is right? E, nós dissemos, yes, we think so...".

A medalha é a única coisa que se conquista na maratona de Berlim ( #berlin42 ).

Tudo o resto é pago, a tshirt de finisher, a gravação do nome na medalha, os corta-vento, os casacos, tudo, menos a medalha.

E eu conquistei a minha.

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As minhas dúvidas ficaram  então esclarecidas, afinal, há tantas histórias que acontecem durante pouco mais de cinco horas de corrida, que um só texto não suporta todos estes 42 quilómetros.

Pensa-se em tanta coisa.

Acontece tanta coisa.

A minha maratona não acabou quando cortei aquela meta mágica, ela continua, aqui, nesta sala de estar, que é o meu blog.

Todos os dias vou contar um episódio, 42 episódios, um por cada quilómetro.

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Por agora vou apanhar o avião, para voltar a casa.

Porque as vozes de burro, afinal, chegam ao céu.

Burro não sou, mas tenho voz.

E dores nas pernas.

 

( TRIBUTO A BERLIM, A CIDADE QUE NOS ENSINA A SER MAIORES QUE NÓS PRÓPRIOS )

 

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