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( QUANDO ENCONTREI A MINHA MULHER, A MINHA FILHA E OS AMIGOS A 200 METROS DA META )

 

 

Confesso que, durante estes nove meses, ainda não tinha dado conta do que a seguir vou escrever.

Corri a minha primeira maratona, aos 48 anos.

Foi a primeira vez que este dado me assaltou o pensamento, o que vem provar que, afinal, vozes de burro chegam ao céu. 

Hoje, quando acordei, no dia seguinte, já com o meu sonho tornado realidade, talvez por causa das dores que sentia nas pernas, nas costas, nos braços, na cabeça, dei conta que, mais do que uma aventura, mais que um desafio extremo que coloquei a mim próprio, correr uma maratona - a primeira - aos 48 anos ( quase 50, credo ) foi, provavelmente, a maior loucura que cometi na vida.

Nunca imaginei, porque me assustava, correr ( e caminhar ) durante mais de cinco horas

( há sempre uns heróis de sofá que acham que é imenso tempo, mas não acredito que alguma vez tenham sentido aquilo que eu senti, até porque só eles acreditam em heróis e a vida nunca foi uma banda desenhada, adiante...).

Quando pensava na maratona fazia-me confusão uma coisa;

em que é que se pensa enquanto estamos a correr durante todo aquele tempo?

Descobri, no domingo, em Berlim, que pensamos em tanta, mas tanta coisa, porque temos tempo para pensar em tudo.

Pensei em todas as pessoas que me apoiaram, directa ou indirectamente, pensei na minha mulher, muitas vezes, pensei nos meus miúdos, no meu irmão, nos meus pais, nos meus amigos, os que já partiram, os que continuam aqui, pensei no Chico e na Alice que brincavam, atendiam o telemóvel, faziam directos, falavam comigo, enquanto eu, qual zombie, me arrastava a seu lado, sem sequer olhar para eles.

Apenas queria chegar ao fim.

Pensei até ns vozes de burro, naquelas que nunca irão chegar a parte alguma, quanto mais ao céu.

Nestes pensei quase nada. Pensei o suficiente para me revoltar e ganhar forças, quando elas se iam embora.

Tive até momentos em que não pensei em nada, em que não estava ali, por exemplo, quando fiquei dormente da cintura para baixo, sem sentir as minhas pernas e os meus pés, naquele momento em que tive que perguntar aos meus companheiros se estava a correr a direito ou se ia aos zigue-zagues.

Pensei em fugir dali, em desistir, mas também pensei no motivo que me levou a Berlim, nos motivos, porque ao longo dos meses o motivo único transformou-se numa bola de neve e quando aqui cheguei tinha muitos motivos para cortar aquela meta.

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Fazia-me confusão esse facto, em que é que se pensa enquanto se corre durante tantas horas.

Longe de mim imaginar o que era correr uma maratona. 

Vivi momentos de stress físico, psicológico, momentos de extrema emoção, momentos em que me senti um campeão, quando nas bermas as pessoas gritavam o meu nome ou diziam "come on Portugal" ( tinhamos os nomes nos dorsais e a bandeira na camisola ).

A Alice recordou os nossos campeões, "já viste, isto é connosco, que ninguém nos conhece, imagina quando os atletas estão no podio, a ver a nossa bandeira a subir".

Vivi momentos de afecto, de ajuda, de total comunhão, como naquele minuto em que  a Alice me disse "volta para a corrida, foca-te, volta à estrada", porque eu ia a alucinar, com o pensamento fora dali, sim, algumas vezes não era eu quem ia ali a correr, era apenas o meu corpo.

Nesse instante alguém me abraça por trás e diz-me:  "come on man, lets do this shit", e eu arranquei para uns 300 metros loucos, ssózinho, insano, sem que me lembrasse do que aconteceu.

Foi o Chico e a Alice que, no final, me contaram, já com a medalha ao peito: 

"Quando o gajo te disse aquilo e tu arrancaste e ele perguntou-nos: He is right? E, nós dissemos, yes, we think so...".

A medalha é a única coisa que se conquista na maratona de Berlim ( #berlin42 ).

Tudo o resto é pago, a tshirt de finisher, a gravação do nome na medalha, os corta-vento, os casacos, tudo, menos a medalha.

E eu conquistei a minha.

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As minhas dúvidas ficaram  então esclarecidas, afinal, há tantas histórias que acontecem durante pouco mais de cinco horas de corrida, que um só texto não suporta todos estes 42 quilómetros.

Pensa-se em tanta coisa.

Acontece tanta coisa.

A minha maratona não acabou quando cortei aquela meta mágica, ela continua, aqui, nesta sala de estar, que é o meu blog.

Todos os dias vou contar um episódio, 42 episódios, um por cada quilómetro.

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Por agora vou apanhar o avião, para voltar a casa.

Porque as vozes de burro, afinal, chegam ao céu.

Burro não sou, mas tenho voz.

E dores nas pernas.

 

( TRIBUTO A BERLIM, A CIDADE QUE NOS ENSINA A SER MAIORES QUE NÓS PRÓPRIOS )

 

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10 comentários

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De Anónimo a 17.09.2018 às 14:05

Comovente sem dúvida; mas sempre soube apesar das contrariedades que naturalmente irias ter, que desistir não está no teu vocabulário. Quanto à idade, pode ter alguns impedimentos, mas por norma só para quem não quer. Ainda bem que o Apoio de muitos te absorveu durante a longa jornada das 5 horas. Parabéns mais uma vez Marathon Man
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De The Cat Runner a 19.09.2018 às 16:31

Pena de não saber com quem estou a falar, para agradecer em nome próprio. Desistir não faz parte, de facto, da minha vida. Mas, pensei varias vezes nisso, depois revoltei-me com as dores e com o cansaço, pensei em tanta gente e fui. Desistiram 3 mil. Eu fiquei do lado de cá. Um abraço
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De Anónimo a 17.09.2018 às 14:25

Parabéns!! Ao longo destes meses fui acompanhando a sua aventura e sempre acreditei que seria capaz. Acredito que quando queremos muito uma coisa e que ela só depende nós...conseguimos!! Transporte essa força de vontade e determinação para tudo na sua vida e... será capaz!! Por aqui continuará a ser uma inspiração para mim que acredito que também serei capaz de cortar a meta em Sevilha!!! E pensar que os 10km da Corida pela Arte, há pouco mais de 1 ano, pareciam tão longos.... hoje devem parecer-lhe um pulinho, já ali!! Um grande beijinho cheio de admiraçao
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De The Cat Runner a 19.09.2018 às 16:30

Olá, tenho pena de não saber com quem estou a falar. Se estivemos na Corrida Pela Arte, então, conhecemo-nos. Cortar a meta em Sevilha só depende de si. Quando quiser e sentir que deve desistir, como me aconteceu, lembre-se daquilo que o(a) levou até Sevilha, cerre os dentes, chore, e vá até ao fim. Grande abraço
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De Anónimo a 17.09.2018 às 18:33

Meu amigo, parabéns pela persistência, parabéns por teres insistido em ultrapassar os teus limites, parabéns porque consegues partilhar os teus sentimentos, as tuas emoções e as tuas convicções. Acredita que o que fizeste não é para todos, é somente para aqueles que ACREDITAM que um dia “eu vou conseguir”. Um enorme abraço.
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De The Cat Runner a 19.09.2018 às 16:28

Obrigado, desconhecido.
Quando determinamos um objectivo devemos ir até ao fim. Eu sou assim, vergo mas não parto. Grande abraço.
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De Anónimo a 18.09.2018 às 07:26

Muitos parabéns. Fantástico.
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De The Cat Runner a 19.09.2018 às 16:27

Obrigado, desconhecido. Grande abraço.
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De Agridoce a 11.10.2018 às 21:32

Só cheguei aqui hoje, vinda directamente do blogue do Carlos, mas já li os posts todos que se seguiram a este... É difícil parar :)

Muitos, muitos parabéns por esta Maratona! Vou tratar-te por tu, desculpa, mas a malta das corridas é assim :)

Só tens de sentir orgulho no que fizeste! Fizeste a tua primeira Maratona, depois de muito treino, esforço e dedicação. Chegaste ao fim! Nem todos conseguem isso e uma Maratona é só mesmo para alguns!

Também fiz este a minha primeira. Escolhi Madrid (não foi uma escolha particularmente sensata...). Identifico-me muito com muito do que aqui escreveste e estou curiosa para ler os quilómetros que faltam. É incrível como cabem tantas histórias e tantas emoções em "apenas" 42,195km, mas quem já passou por isso, sabe que é mesmo assim.

Quase um mês depois, e mais uma vez, parabéns! És Maratonista!
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De The Cat Runner a 15.10.2018 às 20:44

Olá, Inês, permite-me que te trate assim :)
As tuas palavras afagaram-me a alma.
Perante elas há pouco a dizer,
apenas,
Obrigado,
também gosto de panquecas com manteiga de amendoim, também devoro caixas com mil-folhas e bolas de Berlim (em Berlin não há bolas de Berlim) e adorei o teu blog.
Já sou seguidor.
Quanto ao resto, anda daí, correr os quilómetros que faltam.
Um abraço, feliz.
Um obrigado, mais feliz ainda.

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