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por The Cat Runner, em 25.04.18

SOU MAIS VELHO QUE A LIBERDADE

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Incrível, dei-me conta que sou mais velho que a Liberdade.

Também me dei conta que a liberdade é uma maluca, como diz o Palma.

Ela é livre e eu tenho-a vivido.

Tenho tido imensa sorte, na vida.

Nasci no mágico ano de 69, aquele que fechou a década que mudou o pensamento do mundo, como até então.

Assisti à queda do muro de Berlim, vi o Lopes ganhar o ouro, assisti ao nascer do telemóvel, ao aparecimento da internet, vi a selecção campeã da Europa, e estive dentro de uma revolução.

Se só isto não é suficiente!

Incrível, como me lembro melhor desses cinco anos do que do resto da minha vida, são tantas e tantas coisas que, tantas vezes, com raiva de mim, não me recordo delas.

Mas, os meus primeiros cinco anos foram guardados dentro de mim, lá no fundo, é de lá que eu venho.

Tinha quase cinco anos, há quarenta e quatro.

Assisti a tanta coisa, mas nenhuma se compara com esse dia.

Raiva de mim. Ainda agora, que não me sai a próxima frase, presa cá atrás, no início de tudo.

Quando cheguei à cozinha, para o pequeno almoço, antes de descer a rua, para ir para a Escola do Bacalhau, a minha mãe e o meu pai estavam à varanda.

Ele tinha chegado há pouco tempo da guerra, um pós-adolescente cheio de pinta, ela era uma miúda bonita, por dentro e por fora.

Ele pegou-me ao colo, com cuidado, poucas vezes via aquele sorriso no meu pai.

Olhámos, os três, num único movimento, na mesma direcção.

A minha janela dava para a auto-estrada, ainda existe a minha janela, mas já não é mais minha.

Um quarto andar, que fica ao nível da auto-estrada. Para lá vê-se a cidade, depois o rio, depois a planície da Grande Lezíria.

Perde-se o horizonte.

Ganha-se a esperança.

Não me recordo quantos eram, lembro-me que eram muitos.

Chaimites, jipes, militares, metralhadoras.

Não senti medo.

Até aquela idade tinha visto poucos, ou quase nenhuns filmes sobre guerra, não havia filmes desses.

Aquilo, para mim era tudo novo.

Eu só conhecia o Tarzan, o Bonanza e o mais perto que conhecia de violência na televisão era a série dos Vingadores. Aquilo não me meteu medo, curiosidade, perceber como é que ia brincar àquilo, quando saísse da escola, onde é que ia arranjar aqueles bonés...

Eu nunca tinha visto coisas daquelas.

O mais próximo que vi daquilo, até aquela idade, tinha sido os guardas republicanos que espancavam pessoas, na rua, que prendiam pessoas por tudo e por nada. Andavam a cavalo. Metiam medo.

Aquela coluna militar, não.

Lembro-me do “Manel Jardineiro”.

O Manel era bufo. Era ele quem cuidava do jardim municipal, aquele onde eu corro todos os dias, quarenta e quatro anos depois. No jardim cruzavam-se muitas pessoas, sabia-se, ali, muitas coisas, às vezes eram as mães, ou até as avós que deixavam escapar qualquer coisa, distraídas na conversa, enquanto olhavam pelos meninos.

O filho do Manel andava connosco na escola primária.

Sempre o tratei bem, muito bem, até.

Não entendia porque é que, de tempos a tempos, alguém dava uma carga de porrada ao Manel Jardineiro, e logo depois vinham os cavalos, e os guardas republicanos e fechávamo-nos todos em casa.

Tinha pena e não percebia porque é que batiam no pai dele vezes de mais.

Lembro-me da Ana Varina, amiga da minha avó, também ela bufa do regime, numa terra de comunistas. A Ana era varina, daquelas que carregavam sempre o ouro ao peito, uma vendedora de peixe, de sucesso, com ligações ao regime.

Foi por causa dessa amizade entre a minha avó e a Ana Varina que o meu pai se safou ao teatro de guerra, ele fez o “Ultramar” em zonas mais tranquilas. Isso e outras coisas.

No dia em que Ana Varina apresentou a minha avó ao Ministro dos Negócios Estrangeiros, em casa dele, ao pé do antigo quartel de bombeiros, lembro-me de ficar sentado num cadeirão confortável, olhando a televisão, a preto e branco, sem som.

Os três tomavam chá, numa mesa comprida. Ele, impecavelmente vestido, Ana Varina carregada de ouro e a minha avó, toda de negro.

No dia seguinte a minha avó foi à loja da Singer comprar uma televisão, para o nosso quarto.

Foi a segunda pessoa a ter televisão, na vila, a seguir ao ministro.

Eu vivi com a minha avó, até ela morrer.

Vivíamos num quarto, na rua em frente à rua onde a minha avó vendia cestos, na sua loja humilde.

Só depois fui viver para o quarto andar, de onde vi a revolução a passar por mim, a acenar e a sorrir.

Só agora percebo que sou mais velho que a revolução.

Só agora percebo que não sou mais feliz, assim. Sou feliz. Ponto. 

Naquele tempo não sabia o que era o conceito de felicidade.

Para mim, era amor.

Foi por causa da televisão que a minha avó me ofereceu, e por causa da janela da minha casa, naquele quarto andar virado para a liberdade, que durante toda a vida brinquei a muita coisa, andei de carrinhos de rolamentos, joguei com bolas de trapos, brinquei ao Tarzan - eu era sempre o “rapaz”, nas brincadeiras - brinquei aos touros, brinquei aos cowboys, brinquei às escondidas e ao alerta, brinquei a tudo.

Só nunca brinquei às guerras, por causa daquele dia.

Mas, o que eu adorava mesmo era sentar-me na bicicleta que a minha avó me ofereceu.

A primeira que tive, comprada uma semana depois de me ter comprado aquela enorme televisão, onde via os filmes de domingo à tarde e ouvia o hino nacional, no fim da emissão.

Sentava-me de costas para o guiador, e ficava ali, na rua do Chave D´Ouro, a ver quem passava.

Foi também por lá que passou a Liberdade.

 

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publicado às 20:09



Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

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