Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




por The Cat Runner, em 09.02.18

SEM STRESS ( DIA 11 DA MARATONA)

IMG2018020816551401.jpeg

 

 

Hoje falhei o primeiro treino, verdade !

Na segunda feira corri pela primeira vez, em dois anos, sem dores, ao fim de cinco semanas de paragem.

Na terça descansei.

Na quarta voltei a correr, numa inquietude só desfeita no fim da corrida.

Hoje devia fazer treino de pernas, no ginásio, e baldei-me.

Mas, como isto é um caso sério pedi a opinião ao meu treinador, que de forma clara me disse que devia fazer o treino.

Só que o dia já ia longo e já não tinha tempo útil de ir ao ginásio - a pessoa tem que arrumar a casa e assim, quando a dona Cristina fica doente e não nos pode vir ajudar -, dediquei-me ao lar.

Arrumei tudo, limpei tudo, e vim escrever.

Perguntei-lhe, então, ao meu treinador se podia fazer “pernas” no sábado.

Que não, que domingo volto a ter treino de corrida e é melhor não.

Sugeri metermos este treino no plano da próxima semana.

“Sem stress”, respondeu-me.

O José Carlos Santos transmite a calma e a segurança necessárias, para acreditar que a minha ideia louca vai fazer sentido.

Salta-se o treino e não se fala mais nisso.

Não sei se reparou, mas referi neste texto que voltei a correr, sem dores, ainda que numa fase de experimentação. Eu sei que reparou, mas precisava de voltar a ligar as ideias para seguir com o texto.

A minha inquietude era tamanha que só pensava naquilo que não devia, eu sei, quando morrer vou para o inferno, mas também nunca fui um bom rapaz.

A dor.

Era tudo o que não queria, era tudo em que mais pensava.

IMG2018020617260501EasyResizecom.jpg

 

Foram dois anos de sofrimento, desconhecimento, raiva comigo próprio.

Dois anos depois corri meia hora sem parar, sem alongar, sem caminhar.

Corri devagar. Essas eram as instruções do meu treinador. Mesmo que quisesse correr mais rápido, a inquietude (gosto mais do que inquietação, isso é mais sobressalto), o receio, a insegurança impediam-me.

Na segunda feira comecei a aprender a correr.

Não consegui caminhar nos primeiros minutos, para aquecer, apesar de ser essa a instrução, mas corri muito devagar.

Queria perceber o quanto antes se estava livre deste inferno.

As pernas começaram a responder. A sensação que tinha era de alguma fadiga, por não correr há cinco semanas, mas não tinha sinais de dor, fiquei confiante, mas ainda não convencido.

Aos dez minutos devia acelerar um pouco. Foi o que fiz.

Mais soltas, mais leves, sem dor, as minhas pernas foram-me levando para a frente.

Apenas um ligeiro desconforto na zona que estava mais afectada, no gémeo interior direito.

Perante a ausência de dor continuei.

Estava feita a minha primeira meia hora de corrida, sem parar.

 

Nos últimos dois anos deixei de ter a capacidade de olhar o céu azul, por cima do rio, nem o rio voltei a admirar, embora ele me acompanhe todos os dias.

Deixei de identificar o cheiro a chocolate que emana das flores encarnadas.

Parei de conseguir ouvir os meus próprio passos, a minha respiração.

Deixei de descodificar sinais e o belo tornou-se a minha estrada de espinhos.

Os olhos ardiam, as pernas rasgavam, mas nunca desisti.

Durante aquela meia hora de corrida voltei a ver que o céu é cada vez mais azul, que o rio corre, afinal, para o mar, que as flores perfumam o meu destino, que os meus passos soam bem, que a minha respiração é como um motor que faz andar, que são estes os sinais de que estou vivo, que a estrada não tem espinhos, são as rosas que têm espinhos, e elas são belas, bonitas, como bonita foi a minha corrida.

Ontem voltei a saborear um travo de felicidade, porque sou feliz enquanto corro.

Agora, no fim deste texto, concluo que, afinal, não fui ao ginásio, não porque tinha receio de sobrecarregar as pernas, não porque já não tivesse tempo.

Não fui ao ginásio porque ainda estou a saborear as minhas primeiras corridas, quatro anos depois de ter começado a correr.

E, sabe tão, mas tão bem, que arrisco a dizer que me sinto feliz.

Sabe tão bem…

Estou desculpado.

Sem stress !

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:16



Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

Mais sobre mim

foto do autor



Arquivo

  1. 2019
  2. JAN
  3. FEV
  4. MAR
  5. ABR
  6. MAI
  7. JUN
  8. JUL
  9. AGO
  10. SET
  11. OUT
  12. NOV
  13. DEZ
  14. 2018
  15. JAN
  16. FEV
  17. MAR
  18. ABR
  19. MAI
  20. JUN
  21. JUL
  22. AGO
  23. SET
  24. OUT
  25. NOV
  26. DEZ
  27. 2017
  28. JAN
  29. FEV
  30. MAR
  31. ABR
  32. MAI
  33. JUN
  34. JUL
  35. AGO
  36. SET
  37. OUT
  38. NOV
  39. DEZ
  40. 2016
  41. JAN
  42. FEV
  43. MAR
  44. ABR
  45. MAI
  46. JUN
  47. JUL
  48. AGO
  49. SET
  50. OUT
  51. NOV
  52. DEZ
  53. 2015
  54. JAN
  55. FEV
  56. MAR
  57. ABR
  58. MAI
  59. JUN
  60. JUL
  61. AGO
  62. SET
  63. OUT
  64. NOV
  65. DEZ
  66. 2014
  67. JAN
  68. FEV
  69. MAR
  70. ABR
  71. MAI
  72. JUN
  73. JUL
  74. AGO
  75. SET
  76. OUT
  77. NOV
  78. DEZ
  79. 2013
  80. JAN
  81. FEV
  82. MAR
  83. ABR
  84. MAI
  85. JUN
  86. JUL
  87. AGO
  88. SET
  89. OUT
  90. NOV
  91. DEZ