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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

18.09.18

O QUILÓMETRO UM - DIAS FELIZES ( DIA 57 DA MARATONA)


The Cat Runner

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Chorar!

Quem corre maratonas sabe o que é chorar, por estar feliz.

Sabe porque se chora.

Quem corre maratonas, com o coração, chora por quase tudo, por quase nada.

Não sou eu, estreante, que o digo, são eles, aqueles com quem tive o privilégio de me cruzar, em Berlim, durante estes dias magníficos.

Aqueles que já levam cinco, dez, quinze, ou mais de trinta maratonas nas pernas.

São esses, os que me deram a honra de privar com eles, no avião, no apartamento, no restaurante, nas ruas da bela Berlim, onde, pela segunda vez, o sacana do Eliud Kipchoge fez cair a marca mais rápida de sempre, são esses, aqueles que choraram comigo que o dizem.

Escrevo este texto, no avião, já a caminho de casa.

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O avião vai cheio.

Eu gosto de observar, encho a barriga quando observo e nestes dias observei tudo e tanto, em todo o lado.

Dentro do avião olho para trás, para a penúltima fila, e lá não vi o queniano que vem nas medalhas, mas vi, olhei, observei o homem mais rápido da maratona, em 1998. Passaram vinte anos.

Ronaldo da Costa pareceu-me ser um homem simples.

Ficou contente porque eu falava português.

Quando saímos do avião, em Frankfurt, pedi-lhe para tirar uma foto com ele.

A Carla já tinha o telemóvel a jeito, tirou uma, tirou várias, que o momento era solene, para mim, era por assim dizer “uma saída pela porta grande”, como se diz na minha terra.

Um “grand finale”, para estes dias felizes.

Em troca, Ronaldo, o brasileiro, o das maratonas, pediu-me para o identificar no Instagram (as redes sociais são donas de um poder brutal), não que me conhecesse, mas porque a sua simplicidade faz dele uma pessoa normal, apesar de ser o “brasileiro” Ronaldo da Costa, o homem das duas horas, seis minutos e cinco segundos.

“Seu” Ronaldo foi homenageado, em Berlim, pelos 20 anos do recorde do mundo da maratona.

Porra, ia ali, sentado atrás de mim, como um vulgar passageiro num vulgar vôo low cost.

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Apenas eu e os seus acompanhantes sabíamos quem ele era.

Eles, porque fazem parte do seu staff, eu, porque sempre fui um homem do desporto e tenho memória, embora não pareça, nem uma, nem outra coisa.

A minha memória foi servida, ao almoço tardio, na véspera da minha grande prova de superação. Um banquete de histórias.

Estávamos todos sentados à mesa, todos os portugueses, excepção feita a uns três ou quatro que não se misturam com as pessoas simples, como nós, ou como o campeão Ronaldo da Costa, que fez o mesmo vôo que eu.

Foi, sentados à mesma mesa, no restaurante do turco que adora o Quaresma cegamente (o outro ), que vi aquela gente a chorar, enquanto nos contavam histórias.

A Clara, a Sandrina, o Stephane, o Diogo - que bom terem entrado na minha vida - e os do costume, os meus “cúmplices”, nesta dura caminhada.

Praticamente chorámos todos os que ali estavam sentados, pela mesma razão: as histórias mais duras de serem construídas, as deles, para depois serem contadas, choradas, assim mesmo, sem vergonha, numa esplanada, em Berlim.

Gente do bem (toca a rir, vá).

Foi quando começaram a falar das maratonas que já tinham corrido, por tudo aquilo que passaram, por tudo aquilo que passam sempre que correm a prova mais dura do atletismo, isto, claro, a propósito da minha primeira maratona.

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A simplicidade não é predicado exclusivo do Ronaldo da Costa, é assim com quase todos os que correm, quase todos os que sabem o significado da palavra superação, quase todos, disse.

Eles contaram-me histórias, recordaram sofrimento e alegria, e comoveram-se, e comoveram-me.

Tudo a chorar, ali, na esplanada do turco que adora o Quaresma.

Combinámos as coisas para o dia seguinte, o grande dia, e fomos à nossa vida, de barriga cheia, com a alma farta.

Domingo;

ponto de encontro, o nosso apartamento, a duzentos metros das Portas de Bradenburg, oito da manhã, já com o pequeno almoço tomado.

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A Carla, a Maria, mais os restantes familiares e amigos tiveram um papel fundamental, foram dar-nos a força e o apoio, no caso, foram guardar (e levar para a meta) as camisolas e os corta-vento, para trocarmos, depois da maratona.

É tão bom, isto das corridas.

Há uma união mágica e genuína.

Tão bom conhecer gente, como aquela, gente que “dá bigodes às estrelinhas”, mas que mantém a humildade, só ao alcance dos grandes. Não é para todos. Não é para qualquer um.

Fui o primeiro a acordar lá em casa.

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Acordei ainda era de noite, fiquei por ali, às voltas, a perceber como estavam as minhas pernas.

Pela primeira vez em nove meses não tive qualquer dor, nem espasmos, nada.

Nem a dor de há dois dias, no gémeo, nem a dor do dia anterior, na coxa, nada, o psicológico é tramado.

Depois dos banhos sentámo-nos à mesa para o pequeno almoço.

A Carla, eu, a Alice e o Chico. Mesa farta. Conversas secretas. Vidas em dia.

O equipamento ficou, como sempre, preparado de véspera. Tudo certinho.

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 A Carla ainda me massajou as pernas, tomei meio Lexotan, que estava em altas aquela hora da manhã. Tomei os suplementos. Estávamos prontos para ir.

A malta de Viseu chegou, deixaram as camisolas, tirámos a foto da praxe, e seguimos para a maior aventura da minha vida, uma das maiores da vida deles, tenho a certeza.

Nestas cenas raramente me engano. Perguntem-lhes!

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Éramos um grupo de sete pessoas. Cinco partiram do mesmo bloco, os outros dois partiram de blocos diferentes, em momentos diferentes.

Eu, o Francisco, a Alice, a Sandrina fomos para o bloco “F”, o Stephane, a Clara e o Diogo para outros blocos de partida.

Havia ali muita química no ar. Naquela altura já estávamos para lá da normalidade, invadidos pelo mar de gente, contaminados pela música, cantava a Ivete Sangalo, cantámos com ela, o Brasil impregnou esta história ( para além da Ivete e do Ronaldo foi um brasileiro que viabilizou a nossa presença em Berlim, o Henrique, da agência Maratonas no Mundo).

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Não bastasse, uma brasileira, mais velha do que nós, juntou-se ao grupo antes da partida.

Disse-nos, depois da foto que acabou de ver - e que mostra o ambiente fantástico que se viveu antes da maratona - que “não foi aquela maratona que nos escolheu, fomos nós que a escolhemos, por isso era para desfrutar”. Uma das seis Majors Marathons.

Havia “muita emoção no ar”, não só a que cantava a Daniela Mercury, nas potentes colunas mas, principalmente,  a emoção que sentíamos na pele, nas pernas, na alma, na cabeça, nos olhos, via-se essa emoção, nos ecrãs gigantes, que mar de gente. Éramos mais de 43 mil. Só 40 mil é que chegaram ao fim, três mil desistiram, eu não desisti.

O Francisco filmava tudo ( porque o nosso livro vai ter fotos, som e imagens ) mas, sobretudo, filmava por causa dessa emoção que não dava para disfarçar, nem ele conseguia, apesar das suas quase 20 maratonas já corridas.

A Sandrina e o Stephane já tinham ido à vida deles.

A senhora brasileira, que ia correr sozinha, que tinha prometido ir connosco, desapareceu, em segundos, engolida pelos milhares de maratonistas e pré-maratonistas, como eu.

Começou a contagem decrescente.

Five, four, three, two, one…Go!

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Começámos a correr 19 minutos depois do recordista do mundo ter arrancado, ainda vimos parte da corrida dele nos ecrãs, durante aqueles minutos.

“Olha a bisga do gajo, vai com três lebres, puta que pariu, que velocidade”, comentámos entre nós.

“Vai a fugir de mim”, disse eu aos meus parceiros. Rimos.

O Francisco mostrou-me uma pulseira, às cores, que tirou do pulso;

“é esta pulseira que vai puxar por ti, agarrada à minha mão, sempre que precisares”, e quantas, mas quantas vezes precisei dela, durante aquelas cinco horas e onze minutos, as mais longas e duras, da minha vida.

Começámos a correr, eu, ele e a Alice (no País das Sapatilhas).

Foi a primeira vez que caí em mim.

Foi quando, por breves momentos, olhei para o “Golden Angel”, o anjo dourado, ali bem à nossa frente, a rotunda que iniciava, na verdade, a maratona de Berlim ( não tirei foto, porque pela primeira vez, desde que corro, não liguei o telemóvel).

Desliguei a ficha, realizei que estava a correr a minha primeira maratona, tinha chegado o momento. Agora, era ir até ao fim, fosse como fosse. E, fomos!

Olhei para as costas do Francisco e da Alice.

“Cada quilómetro, por ti, Grilo”, estava escrito nas camisolas.

Ele foi connosco.

Limpei as lágrimas.

Entrámos no quilómetro dois!

2 comentários

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    The Cat Runner

    20.09.18

    Boa tarde, Carlos,
    Estou sem palavras, a sério.
    Notou-se assim tanto o meu stress?
    Imaginas o tanto que cerrei os dentes para continuar. Sabes o que senti ao passar aquele pórtico. E, sim, Há um ZA e um ZD, não havia outra forma, foi também por isso que lá fui.
    Os meus amigos da onça tornaram-se muito mais do que amigos; eles foram lá para me ajudar a ser maratonista, não foram para correr por eles e, isso não está ao alcance de qualquer um, é preciso ter um grande coração.
    Sim, houve momentos em que o meu olhar matava qualquer um, porque as minhas pernas me matavam, a mim. Nunca me faltou o fôlego, apenas as pernas.
    Quando vos vi, e percebi que eram portugueses apetecia-me abraçar-vos, mas não conseguia, naqueles momentos só queria ver a minha mulher, abraçá-la e cortar a meta.
    Isto não foi apenas uma corrida, isto foi muita coisa junta, para mim.
    Obrigado:
    "… muitos parabéns!!! Pela Maratona concluída, pela resiliência e tb pelos amigos que tens … Aquele abraço"
    Vocês não são um casalinho simpático, vocês são o casal que fez a maratona de mãos dadas ( estou a chorar, neste momento) e, isso, também não é para qualquer um.
    Hoje, "O KM TRÊS" é dedicado a vocês.
    Envio a foto, sim, pede-me amizade, no Facebook (ZeGab Quaresma).
    Forte abraço
    PS: a próxima será Londres, para o ano, abaixo das 5H :)
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