Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




por The Cat Runner, em 20.09.18

O QUILÓMETRO TRÊS - O AMOR CORRE DE MÃO DADA ( DIA 59 DA MARATONA )

maosdadasEasyResizecom.jpg

( FOTO: ALICE VILAÇA - MARATONISTA )

 

O amor.

O amor corre de mão dada.

Eu sei, porque vi.

E tenho testemunhas. Há pelo menos 43 mil pessoas que viram, não fui só eu.

Agora sei que se chamam Dora e Carlos.

No domingo soube que eram portugueses, pelas camisolas.

Alguns portugueses correram na maratona de Berlim, nada de relevante se comparado com corredores de outras nacionalidades.

Impressionou-me a quantidade de mexicanos, de brasileiros e de norte-americanos.

E alemães, claro.

Portugueses contavam-se pelos dedos das duas mãos.

Eu, a Alice, o Chico, a Clara, O Stephane, o Diogo, a Sandrina, um companheiro que não revelo por agora o nome - senão estraga o argumento de uma próxima história -, mais a Dora e o Carlos.

Sei que houve um outro grupo de portugueses a correr, mas não os vi durante os cinco dias de Berlim.

Não devia haver muitos mais, se havia não sei, ah, havia sim, havia um senhor de idade avançada que, por momentos, pensei ser a mesma pessoa que me acompanhou numa corrida de dez quilómetros há uns anos, em Lisboa.

“Lebres do Sado”, li eu, naquela camisola deslavada.

Falarei dele quando chegar a um outro quilómetro, que este é dedicado ao amor, que corre de mão dada.

Éramos poucos, muito menos, os portugueses, do que o tempo que demorei a escrever esta ideia.

Bastava esta frase: éramos poucos, deu para perceber.

É engraçado, quando corres uma maratona pela primeira vez nunca estás preparado, nunca, por muito que aches que estás. Nunca.

Disso dei conta no domingo, isso confirmei há bocado.

Ora leia:

" Então boas tardes, fico feliz por ver que a tua parte de "gru mal-disposto” já tenha passado :)

As sensações de uma primeira maratona são difíceis, se não praticamente impossíveis de transpor para papel.

Sei perfeitamente o que sentiste ao passar aquele pórtico de meta porque tb já passei por isso e aposto que existe um Zé AM e um Zé DM - antes da maratona e depois da maratona.

Foi divertido acompanhar os teus últimos km, ora à vossa frente, ora atrás, fartei-me de rir com os teus amigos (nessa altura eram da onça não eram?) ao ver-te rezingão e meti-me contigo (se os olhares matassem não estava aqui a escrever agora :) ).

Voltei a ver-te depois de já teres cortado a meta, quase sem palavras, todo feliz da vida a tentar retirar o "suor" dos olhos :) … muitos parabéns!!!

Pela Maratona concluída, pela resiliência e tb pelos amigos que tens.

Aquele abraço, do casalinho tuga "simpático" (digo eu) que fez metade da maratona a caminhar de mão dada :)

P.S. Fixe fixe era mandares aquelas fotos que tiramos juntos na meta. Isso é que era ;)

P.S.2 - Qual é a próxima??? :) "

IMG_20180920_182942-01_resized_20180920_063059039.jpeg

A foto já seguiu, porque os maratonistas são gente de palavra.

Ao ler o comentário do Carlos, aqui neste blog, percebi, definitivamente, que a única pessoa que ali ia a alucinar era eu. Toda a gente viu o que estava a acontecer, menos eu.

Eu só queria despachar aqueles 16 quilómetros ( baqueei aos 26) e ir à minha vida.

O que a Dora e o Carlos não sabem, porque não lhes disse é que ao ver os seus sorrisos, no final e, mesmo tendo feito mais tempo do que eu, senti-me um homem ainda mais feliz, não por causa do tempo feito, mas porque eu gosto de pessoas que sorriem, que correm de mão dada.

Na verdade, se isto não fosse uma narrativa interminável, uma história incotável, um mar de emoções, eu até podia ter ficado deprimido, porque eles foram mais lentos do que eu, mas eles não treinaram e eu treinei nove meses, mas não tenho tempo para isso, por falar em tempo.

Ainda bem que demoraram mais do que eu, senão nunca me teria cruzado com eles.

casa 2 (1).jpg

 Respondi ao comentário do Carlos:

"Boa tarde, Carlos,

Estou sem palavras, a sério.

Notou-se assim tanto o meu stress?

Imaginas o tanto que cerrei os dentes para continuar. Sabes o que senti ao passar aquele pórtico. E, sim, Há um Zé AM e um Zé DM, não havia outra forma, foi também por isso que lá fui, para vir de lá um ser humano diferente.

E, consegui.

Os meus amigos da onça tornaram-se muito mais do que amigos, naquele domingo em Berlim;

eles foram lá para me ajudar a ser maratonista, não foram para correr por eles e, isso não está ao alcance de qualquer um, é preciso ter um grande coração, gostar muito dos outros, sem falsidades.

Sim, houve momentos em que o meu olhar matava qualquer um, porque as minhas pernas me matavam, a mim. Nunca me faltou o fôlego, apenas as pernas. 

Isso provocou-me revolta interior. Eu queria, mas as pernas não.

Quando vos vi, e percebi que eram portugueses, apetecia-me abraçar-vos, mas não conseguia, naquele momento só queria ver a minha filha, a minha mulher, abraçá-las e depois cortar a meta."

Carlos, Dora, desculpem não ter sido simpático, desculpem não vos ter ligado nenhuma naquele instante, mas não consegui. Tive que apelar ao maior do egoísmo, para chegar até ao fim.

Não podia desistir, não conseguia andar, e tinha que correr.

Por muito difícil que fosse, nunca cortei uma meta a passo, não o podia fazer ali.

"Isto não foi apenas uma corrida, isto foi muita coisa junta, para mim, dentro e fora da corrida, que a vida tem sido um desafio constante e há corredores (com letra pequena) batoteiros.

Vocês não são um casalinho simpático, vocês são o casal que fez a maratona de mãos dadas ( estou a chorar, neste momento) e, isso, também não é para qualquer coração.

Hoje, "O Quilómetro Três" é dedicado a vocês.

Envio a foto, sim, pede-me amizade, no Facebook (ZeGab Quaresma).

Forte abraço

PS: a próxima será Londres, para o ano, abaixo das 5H :) "

Amor.

Eu sei que amor corre de mão dada.

Eu vi e tenho testemunhas.

A foto já seguiu.

A maratona de Berlim deu ao Carlos o meu blog.

A maratona de Berlim deu-me mais dois amigos, o Carlos e a Dora.

Deu-me tanto, a maratona de Berlim.

Entrámos no quilómetro quatro.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:32



Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

Mais sobre mim

foto do autor



Arquivo

  1. 2019
  2. JAN
  3. FEV
  4. MAR
  5. ABR
  6. MAI
  7. JUN
  8. JUL
  9. AGO
  10. SET
  11. OUT
  12. NOV
  13. DEZ
  14. 2018
  15. JAN
  16. FEV
  17. MAR
  18. ABR
  19. MAI
  20. JUN
  21. JUL
  22. AGO
  23. SET
  24. OUT
  25. NOV
  26. DEZ
  27. 2017
  28. JAN
  29. FEV
  30. MAR
  31. ABR
  32. MAI
  33. JUN
  34. JUL
  35. AGO
  36. SET
  37. OUT
  38. NOV
  39. DEZ
  40. 2016
  41. JAN
  42. FEV
  43. MAR
  44. ABR
  45. MAI
  46. JUN
  47. JUL
  48. AGO
  49. SET
  50. OUT
  51. NOV
  52. DEZ
  53. 2015
  54. JAN
  55. FEV
  56. MAR
  57. ABR
  58. MAI
  59. JUN
  60. JUL
  61. AGO
  62. SET
  63. OUT
  64. NOV
  65. DEZ
  66. 2014
  67. JAN
  68. FEV
  69. MAR
  70. ABR
  71. MAI
  72. JUN
  73. JUL
  74. AGO
  75. SET
  76. OUT
  77. NOV
  78. DEZ
  79. 2013
  80. JAN
  81. FEV
  82. MAR
  83. ABR
  84. MAI
  85. JUN
  86. JUL
  87. AGO
  88. SET
  89. OUT
  90. NOV
  91. DEZ