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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

20.12.18

QUILOMETRO 27 - A MINHA MEDALHA E O MEU PRESENTE DE NATAL - (DIA 84 DA MARATON)


The Cat Runner

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Alguém escreveu num post que publiquei no Facebook que “a maratona fez-te resiliente”.

A maratona fez-me muito mais do que eu pensava ser.

Fez-me olhar os outros de forma diferente, e a vida, e a mim próprio.

Havia uma pessoa, aquele homem fantástico que me treinou, que me mentalizou e me preparou para a mais exigente prova física e mental da minha vida que ainda não tinha visto a minha medalha, a única coisa que se conquista na Maratona de Berlim, porque tudo o resto é comprado.

Também é assim no Natal. Tudo se compra, menos uma coisa, o nosso "eu".

Passaram três meses, vai passar o Natal, não podia passar mais.

Convidei o meu treinador, agora meu amigo, para um almoço, para lhe apresentar a minha menina.

Olho para ela todos os dias.

A partir de hoje passa a ter um nome, chama-se “Nair”.

A minha medalha, para a qual olho todos os dias, passa a chamar-se “Nair”.

Depois de almoçarmos e de colocar toda a conversa em dia, as aventuras e as desventuras destes dias, nada fáceis, mas isso é comigo, depois de contar as histórias da corrida, da minha vida, de como estou, de como me sinto, para onde vou, eu e o José Carlos Santos fomos beber um café e comer um doce.

  • “E, então, a medalha, quero vê-la”.
  • “Está aqui”.

Saquei-a do bolso do blusão e passei-a para a mão dele.

Senti o orgulho que aquele momento nos revelou, vi os seus olhos a brilhar.

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  • “É linda”
  • “Pois é, obrigado, também é tua”.
  • “ Não é, não. É tua! Sabes porque é que te custou esta maratona?”.
  • “Sei, porque não fiz o treino dos 30 quilómetros”.
  • “Não, porque tu não começaste do zero, tu começaste do menos vinte, não estavas preparado, tiveste que tratar as dores, não foi um processo normal. Viveste muito intensamente todos estes meses, estes dias, foste carregado de sentimentos e de dúvidas, e uma certeza. Por isso, quando tu acabaste de cortar a meta foi uma enorme emoção lá em casa”.

O meu treinador, que ficou meu amigo, treina atletas de alta competição. Não gosto dos holofotes, apenas me permite estes textos e estas fotos, porque sabe que é assim que tem que ser.

Aquilo que ele fez comigo foi pegar num tipo comum e ajudá-lo em busca do seu sonho e não há dinheiro que pague isso.

Demos um forte abraço, despedimo-nos, desejámos Boas Festas.

Vamos continuar juntos. Vai continuar a treinar-me, só para estar em forma e, quem sabe, para mais uma maratona.

  • “Vais ver que a próxima vai ser totalmente diferente”.

Acredito. Acredito nele.

O resto do dia, já que estava num centro comercial, passei-o a fazer as compras de Natal.

Funciono assim, guardo um dia, e trato de tudo.

Comprei os presentes, meti as Samsonite a arranjar e, quatro horas depois vim-me embora.

O centro comercial estava completamente cheio.

O Pai Natal é um boneco da Coca-Cola, o Natal é um boneco de notas e sacos às cores.

Paciência.

Fomos nós que o fizemos assim.

Enquanto caminho reparo num homem, de cócoras, numa das zonas mais largas e visíveis do centro comercial, junto ao hipermercado, ali mesmo no meio, numa estranha posição.

A primeira impressão que tive foi que tinha deixado cair um bebé que estava deitado entre as suas pernas. Olhei, para perceber se sería preciso alguma coisa, mas não parei, ninguém parava.

A mulher pegava em outra criança pela mão.

Foi naquele instante, quando eu passei.

Ninguém reparava neles, ninguém repara em nada, quando carregam sacos às cores, a fingir que é Natal.

Naquele instante.

“Nair”!

Não sei se foi esse o nome que ele gritou, com uma voz rouca, estonteantemente desorientada. Foi esse o som que me invadiu, “Nair”.

Os seus olhos, assustados, em transe.

“Nair”, gritou, de novo, “Nair”, gritou a mulher.

Olhavam em volta, às voltas, perdidos, assustados.

Eram indianos.

Olhei em redor, apressei o passo, virei a esquina do corredor.

Um dos seguranças conversava, tranquilamente, com uma senhora. É Natal.

-“Desculpe, acho que estão ali uns pais que perderam uma criança”.

-“Onde?”

-“Ali, mal vira à esquerda, vá lá ver”.

O homem correu, como um louco.

Continuei a minha caminhada para o carro, coração apertado.

Eu já perdi o meu filho, uma vez, tinha ele dois anos.

Não, não escrevo o que senti, é indiscritível, aglutina, asfixia, morremos por dentro, em segundos.

Não podia seguir viagem. Não segui, apenas abrandei.

Passei um corredor, olhei, outro, e outro, olhei para todos os lados, para todos os cantos, para todas as pessoas.

Voltei a olhar, já estava distante do local onde tinha presenciado aquela cena perturbadora.

Só podia ser ela.

“Nair”, pequenina, sozinha, a caminhar, perdida, como o seu olhar.

Vi-me dentro de um filme. Só podia ser ela. As crianças pequeninas não andam às compras sozinhas num centro comercial de gente grande.

Foram segundos, tão rápidos, como os passos daquela multidão, que carregava sacos às cores, nas mãos.

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Só os passos, dela, perdidos, eram lentos, tudo o resto girava à minha volta.

-“Papá”, disse-lhe baixinho, “papá, anda, eu levo-te ao papá”.

Senti que ela não me entendeu, mas...

Mas, papá, papá até um bebé convence, é uma palavra de amor.

Hesitou, por momentos.

Encaminhou-se para junto de mim.

Acho que a minha voz a reconfortou naquele momento.

Segundos. Durou segundos.

Estendi-lhe a mão. Agarrou-a.

-“Vamos ao papá, eu levo-te, não chores, o papá está ali, anda”.

Caminhámos, de mão dada, passos lentos. Não a queria assustar ainda mais.

Protegi-me, não fosse alguém pensar outra coisa qualquer.

A minha mão esquerda segurava a dela, dali não a deixava ir, a minha mão direita, carregada de sacos às cores, levantada, para que toda a multidão me visse, porque quis que me vissem.

Ninguém quer ser visto se raptar uma menina, foi o meu pensamento, naquele momento.

Quis proteger-me.

Enquanto caminhava para o sítio onde tinha visto o desespero personificado naqueles pais ia assobiando alto, para chamar a atenção.

Naquela altura já dezenas de pessoas nos fitavam, sem entender o que estavam a ver.

Olho em frente.

Ele vem a correr, desesperado, com um dos filhos ao colo, aos gritos, perdido, “Nair”, “Nair”, não sei se era esse o nome que gritava, era esse o som que entrou em mim. Cravado em mim, no meu eu.

Frente-a-frente. Eu e ele. Ele e ela.

Ajoelhou-se, com a outra criança ao colo, com a multidão parada, parou, finalmente, a multidão, para ver o que aquilo era.

Ele, ali, ajoelhado, à minha frente.

O mundo parado.

Finalmente.

De joelhos, em frente a mim, olhando-me de baixo para cima.

-“Está aqui, encontrei-a, está aqui, Nair, olha o papá”.

De joelhos, ali, em frente a mim, agora, agarrado às duas crianças, estendeu-me a mão e apertou-me-a.

-“Obrigado, obrigado”.

Olhei-o.

Olhei à minha volta.

Deixei cair uma lágrima que me molhou o sorriso.

Não havia mais nada a dizer, não havia mais nada a fazer.

Apertei-lhe a mão,com força e virei costas, mas antes, enquanto lhe apertava a mão disse-lhe com a voz turva,

-“Feliz Natal”.

Sim, a maratona fez-me resiliente, fez-me outro homem, fez-me outra coisa qualquer.

Já não sou eu.

Foi por isso que a corri.

Foi por ela que ali fui, para mostrar a minha medalha ao meu treinador.

Chama-se “Nair”.

Assim será, para sempre.

Entrámos no quilómetro 28.

 

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