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OS PROBLEMAS DOS POEMAS

Terça-feira, 23.09.14

"Não sei se não te amo"


 


Ela disse que ele era poeta.


Ele escreveu um poema.


Um p(r)o(bl)ema;


Ele não sabia escrever poemas.


Os poetas cantam o amor e ele não sabia cantar. Amar, mal.


Ele sabia escrever. Poemas não, de amor, não.


Ela disse-lhe que nunca lhe tinham dito, assim. E ele armou-se em poeta. E escreveu.


Escreveu mais ou menos assim:


Se fosse um livro, uma louca história de amor, num livro escrito em espiral, não sabería dizer-lhe mais que "não sei se não te amo".


Sería o título de um livro escrito em espiral.


Porque ele só sabe amar assim. Escrever assim. Ele não é poeta.


Nem ele é poeta nem o que escreve é poesia. É preguiça mental. Limita-se a escrever. Isso não é poesia e ele sabe. Por isso receia escrever.


Sabes, foi uma prova de fogo. Como tudo.


Tudo um quase.


Um quase tudo.


Ela disse que ele era poeta. Ele não acreditou. Mesmo assim escreveu.


Tudo um quase.


Um quase tudo.


Tudo lá fora desfoca, enquanto caminha no muro alto, estreito, equilíbrio, desiquilíbrio, o fio da navalha, o doce veneno do abismo, a sensação da queda.


E mesmo assim arriscou.


Escreveu.


Na ténue linha que tinha. Só essa e a escrita e a música e a vida e o estado do espírito e o Santo Graal, o sorriso.


E, lembrou-se daquela música e da outro e da outra e de tudo e escreveu. Acto arriscado, escrever.


Escreveu que em mundos pequenos, em pedaços de coisas simples, o arco-íris tem um pote. Afinal sempre tem.


No final tem um pote com todos os sonhos e as cores.


É tudo tão longo.


Estreito.


Como o parapeito onde mantém, a custo o centro de gravidade do fio da navalha, nunca a navalha. Sempre no fio. Séculos a fio.


E a história dá-se. As mãos dão-se.


Os olhos olha-se. Olham-se almas dentro.


Caminhos.


Traços e sinais.


Às vezes apenas um beijo. Meio. Toque, apenas.


E o silêncio que fala.


Dizem que não se deve voar com as asas dos outros, não. Dizem tanta coisa e o silêncio que cala, cala tanto e a dança e o toque e o encosto e o abraço.


E voar sem sair do sítio. Voar até que os pés toquem terra que não querem tocar. Fica a brisa e o perfume.


Ela disse que ele era poeta.


E ele não escreveu.


Foi só uma viagem.


Bem vindo ao mundo dos sonhos!


 


 


 

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publicado por The Cat Runner às 18:50





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