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OS MISERÁVEIS ( DIA 46 DA MARATONA)

por The Cat Runner, em 03.09.18

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A solidariedade anda na boca de toda a gente, mas tão pouca gente faz uso dela.

Sobretudo, quem devia conhecer o seu significado.

Este texto é sobre duas viagens que fiz na mesma cidade, separadas por poucos dias, por muitos quilómetros.

Lisboa, século vinte e um.

A mesma cidade, duas caras.

As minhas duas corridas longas foram feitas com um espaço de sete dias.

Domingo-a-domingo.

Deixei o carro no parque de estacionamento, junto à Casa dos Bicos.

É um parque de estacionamento recente, embora os turistas pouco ou nada andem de carro na cidade, preferem os tuk-tuk, como numa selva.

Tudo pensado para eles.

Antigamente ninguém conseguia estacionar por ali, não havia lugares, só pobres caídos pelos cantos.

Saí a correr, ainda de dia, em direcção ao outro lado.

Ali pela zona do Terreiro do Paço creio não ter escutado uma única palavra em português (chupa Camões), a não ser dos moços dos carrinhos que vendem frutas e sumos, ou nos quiosques que vendem garrafas de água, das pequenas, a dois euros, com uma cara de pau impune.

Está-lhes na cara.

A Praça do Comércio está fechada ao trânsito, aos fins de semana.

Faz lembrar que Lisboa é uma cidade que não deve nada a nenhuma outra.

Barrada a Norte e a Sul, por barricadas feitas de peças metálicas, apontadas ao céu, em bico e ferro forte, que impedem qualquer filho da puta de entrar com um carro por ali fora e matar uma dúzia de pessoas.

A polícia controla os movimentos.

De noite e de dia, que eu sou testemunha.

Nessa altura já eu tinha deixado a Praça do Comérico, fina, cara, sentada, no Cais das Colunas, a contemplar o Tejo.

A Praça dos turistas - não tenho nada contra eles, antes pelo contrário, mas tenho conta o pedantismo, daí o tom caustico e pesado da escrita.

Pedantes, os políticos, grosso modo são pedantes e repugnam-me imenso, porque não olham os seus, apenas os outros e a si próprios.

Saí da Casa dos Bicos, fui até para lá de Algés.

Voltei, já noite escura, vinte e quatro quilómetros depois. Isso!

Que viagem!

Duas horas e meia a correr.

E, ali, mesmo à minha frente, já com a noite a chegar, a miséria.

Ali, já um tudo nada longe dos olhares dos turistas pé-descalço ( que em Portugal, em Lisboa, fazem vida de lordes), os sem-abrigo, e os voluntários, que os ajudam, todas as noites.

Estranha cidade!

No Cais do Sodré a Lisboa suja.

Quilómetro a quilómetro.

Na Praça do Comércio a Lisboa limpa e cheirosa.

Chego a Santos.

Corro entre restaurantes e esplanadas, abre-me o apetite, ver aquela gente toda a dar ao dente, sorridente, longe daquela gente pobre, os outros.

O cheiro a grelhados, puta que pariu!

Detenho-me debaixo da ponte 25 de Abril.

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Pergunto ao rapaz do bar, o bar do Clube de Padel ( lamento a má publicidade, senhores) se há onde beber água, por ali.

Olha para mim, cara de otário, que não, “acho que não”.

Sim, basta perguntar-me se queria um copo de água.

Não perguntou, nem deve ter dado conta do que não fez.

Continuou agararado ao ecrã do computador a ver o jogo da bola.

Fotografei a ponte, linda, livre, por não ser de ninguém.

Pensei no Grilo, pensei nele nas últimas corridas que fiz, em quase toda a corrida, até mesmo quando me detinha para fotografar, não resisto a uma boa fotografia.

Vou pensar nele em Berlim.

Não me sai da cabeça.

Tirei um retrato ao amor, esquecendo-me do pobre otário que não me ofereceu água, olhando para mim, seco até à medula, com um "não sei", na ponta da língua.

O Amor, com Á grande, é isso que me importa na vida, amar.

Senti-os felizes, indiferentes a mim, a tudo, menos ao rio.

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Seguindo os meus próprios passos, por aquela altura, já a noite cobria a cidade, a ponte cada vez mais bonita, toda a corrida feita junto ao rio, valha-me isso.

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Nunca tinha visto tanta gente a correr, às dez da noite, era domingo, pareciam formigas, algumas pareciam formigas atómicas.

Percebi depois que pertenciam a uma “crew” (euqipa amadora) de atletismo, os Run Tejo.

Gente boa.

O otário, funcionário do bar do Clube de Padel - tenho o direto de o ofender, pois então - sabe lá o que é a solidariedade, dava um bom político, aposto até que, se conhecer a palavra a escreve com cê de cedilha;

Çolidariedade.

É quando, do nada, escuto uma voz, junto a um banco,“ quer uma agua? Vai aí todo transpirado”.

Era dois elementos da equipa Run Tejo que estavam a dar apoio aos colegas que treinavam que, ao verem-me  nauqele estado, a passar, atiraram-me a pergunta.

Só que corre sabe como os corredores são solidários, eles conhecem a palavra que se escreve com um ésse.

Que sim, respondi.

Dádiva dos deuses.

Pedi para os fotografar, para este texto, e agradeci-lhes.

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Devia ter-lhes perguntado o nome.

 Passei Belém, uma parte da outra Lisboa, a Lisboa bonita, sem pobres, sem miséria visível.

Uma hora e um quarto depois voltei.

Já não vi os miseráveis, já dormiam, entre pacotes de vinho e pontas de cigarros fumados até ao tutano, filtro e tudo.

A noite escondeu-os.

À minha vista, no regresso, apenas turistas, que o peixe grelhado é únicoe a a vista do rio, à noite, é algo único.

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Até sete dias depois.

Fim da manhã, arranquei para o último “longão” da minha longa preparação.

São nove meses de dedicação total a uma ideia louca, vinda da cabeça de um gajo louco, eu!

Estava muito quente, o sol queimava—me os ombros, senti-o durante vinte quilómetros, durante duas horas, para lá e para cá.

Tirei a camisola de alças, mal saí do centro comercial Vasco da Gama.

Ficam a saber que do Parque das Nações à estação de comboios de Santos, ir e vir, são vinte quilómetros, queime o sol os ombros, haja água ou não.

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Sete dias depois lembrei-me do barista otário.

Se sete dias antes corri ao fim do dia, sete dias depois corri com o dia no seu esplendor.

A manhã preparava-se para se sentar à mesa e almoçar.

Longe dali, a miséria escondida,  continuava escondida, adormecida, debaixo de um viaduto qualquer, longe dos olhares dos políticos, dos turistas e dos otários desta vida.

Bastava-lhes darem as sapatilhas, correr um pouco, para verem a miséria que eles próprios são, por se permitirem ter na sua cidade tamanho cenário de horror, sim, é horroroso o ser humano desprezar o seu semelhante, só porque ele está longe dos olhares dos casais altos e louros, com unhas dos pés por cortar, mas com a carteira cheia de euros.

Gente, numa manhã de domingo, escondida, em quatro paredes de papelão, junto ao rio.

Sempre o rio.

A corrida de um domingo confundiu-se com a corrida de outro domingo, noite, dia.

Lá fui eu, pela mesma Praça do Comércio, pelo mesmo Cais do Sodré que, pela manhã de domingo está inundado de garrafas e copos vazios, das noite de loucura e muita branca na cabeça, urina seca, pelos cantos, despojos de gente com dinheiro.

Ali, ali lembrei-me do rapaz otário e do casal da Run Tejo.

Foi quando parei e perguntei ao segurança da estação do cais do Sodré se havia WC.

“Há, mas tens que pagar, e a TVI, como vai?”, perguntou-me.

"Não sei, estou de baixa há meses, não sei, mesmo, estou desligado, como a televisão".

“Tens que me levar para lá”, atirou, meio a brincar.

Mais a sério, perguntou-me se queria água fresca.

“Vou lá dentro e encho-te a garrafa, na boa”.

Com tom mais sério pediu-me; "Tens que me tirar daqui da porta da estação".

Apertou-se-me o peito, deu-se-me um nó na garganta seca.

Coincidências, alguém que me dá agua, como no domingo anterior, alguém a quem eu “pago” com uma foto.

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“Pede-me amizade, no Facebook, para eu te identificar na foto”, apelei.

Até hoje, nada de pedido.

Devia ter-lhe perguntado o nome.

Não o fiz no domingo anterior, de noite, não o fiz naquele domingo, de dia.

Sou um otário.

Nem nome, nem pedido no Facebook, apenas a água que me deu, e que me permitiu continuar e voltar para trás, para acabar o treino.

Estavam 35 graus e muita humidade.

De repente, dou comigo a fazer treinos tão ou mais longos do que uma meia maratona e eu sei o quanto me custo correr as 16 meias-maratonas que já levo nas pernas, nestes anos ( quatro).

Acabei os dois últimos quilómetros da minha última corrida longa, antes da maratona, a caminhar.

Estava tanto calor que os meus pés quase coseram dentro dos ténis, de nada me valeram os “Boost” e o seu sistema de refrigeração, mais a sua solo tecnologicamente avançada .

Mal tentava correr, eles sobre-aqueciam, de tal forma que só consegui caminhar.

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Em casa, junto à piscina, esperava-me a família, e um fantástico almoço de peixe grelhado, bem melhor do que aquele que os turistas comem, nos restaurantes junto ao ri.

O relógio batia, praticamente, nas três da tarde.

O dia continuava estupidamente quente.

Pensei neles, em como é que eles aguentam, o calor, a pobreza, a fome, com um pacote de vinho na mão, logo pela manhã.

Os miseráveis ( que vivem na miséria) ainda dormiam, entre quatro paredes de papelão, longe dos olhares dos outros, os que bebem água a dois euros a garrafa, no meu regresso ao Vasco da Gama, onde tinha o carro.

Duas horas depois passei, de novo, por baixo do viaduto de Santa Apolónia, mas já não tive coragem de tirar mais fotos.

Tenho a certeza que sim, tenho a certeza que dormiam.

A vida para eles parou.

Não há domingos, debaixo do viaduto.

Passei por lá no regresso.

Tudo igual.

Senti-me tão otário, mais do que o outro.

É que a água não se nega a ninguém.

O direito a viver também não.

Muito menos àqueles que foram arrumados debaixo de um viaduto qualquer, junto a uma qualquer linha de combóio.

Um remédio venenoso.

Longe dos olhares dos que nunca correram.

 

 

 

 

 

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