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Correr uma maratona, demore o tempo que demorar, acaba sempre por ser uma história de sucesso e de realização pessoal.

Fama, para uns, glória, para todos.

É assim, para aquele que corre em quase seis horas, é assim, para aquele que corre em pouco mais de duas horas e bate todos os recordes.

Cada qual, ao seu ritmo, ao ritmo do seu sofrimento e alegria, conta a sua história, atinge o momento porque tanto esperou e lutou.

Chama-se a isso su-pe-ra-ção!

Quando acabei a minha prova, cinco horas e onze minutos depois, recebi muitos telefonemas e mensagens.

Havia muitas pessoas, em Portugal, muitas mais do que eu imaginava, a seguirem através da app oficial a minha corrida.

Por isso, quando terminei havia muitos amigos e familiares a quererem saber das novidades.

Vi-me obrigado a não olhar para o telemóvel, para conseguir gerir o meu cansaço mental e físico e aquele stress que é o telemóvel sempre a vibrar.

Curiosamente, pela primeira vez em nove meses, acho até que, pela primeira vez desde que corro, corri sem usar o teleóvel (uso-o apenas para ouvir música). Até nisso Berlim foi diferente.

Pois bem, naquela hora, após ter cortado a meta eu apenas queria reencontrar-me, nada mais.

Obriguei-me, então, de novo, a pensar que não tinha telemóvel.

Mas, houve algumas mensagens às quais tive que responder, pessoas que me amam, verdadeira e incondicionalmente, e que estavam preocupadas, expectantes, para saber como é que eu estava. A essas respondi. É fácil perceber quem são.

Abri, no entanto, uma excepção, enquanto caminhava sózinho - que é como quem diz, porque o que não faltava era gente por ali -, pelas ruas de Berlim, à procura não sei bem de quê!

Em inglês, em uma dessas mensagens, perguntava-me o Arturo Torres (um mexicano a viver nos EUA), que eu tinha conhecido dias antes no avião a caminho de Berlim, como é que tinha corrido a minha primeira maratona.

Ele já levava mais de trinta feitas.

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Respondi-lhe o mesmo que respondi a todos, "por um lado correu bem, porque cheguei ao fim, mas isso, eu iria chegar sempre, por outro, correu mal, porque demorei mais 41 minutos do que era suposto".

A maratona de Berlim desperta fascínio em corredores do mundo inteiro.

É o palco perfeito para a queda de recordes de atletas profissionais e amadores e para estreias de tipos como eu.

Naquele domingo Arturo ia correr uma maratona especial, porque Berlim é sempre especial, mas ele não ia atrás de nenhum recorde, porque quem já correu mais de trinta maratonas já bateu todos os seus recordes.

Arturo fazia anos dali a três dias.

Por isso, Berlim, confidenciou-me no avião, ia ser diferente de tudo.

Para mim também.

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Arturo cortou a meta na maratona de Boston, poucos minutos antes dos atentados.

Contou-me isso no avião, nessa curta conversa deu-me um conselho, "se esta é a tua primeira maratona, esquece o tempo, esquece o ritmo, convence-te apenas que tens que chegar ao fim, e até lá repara em tudo aquilo que está à tua volta, sê feliz, esquece o relógio".

O relógio foi um dos meus grandes problemas, durante toda a corrida, mas esse é um tema para um outro quilómetro, não este.

Berlim tem outro encanto, tem charme, tem história.

Vivem lá três milhões e meio de pessoas de 180 nacionalidades.

É uma cidade que se inventa, a ela própria, todos os dias. Uma cidade que resulta de um passado rico, mas de contrastes. Fama e glória.

Eu preocupei-me com todos esses conselhos, quis observar os contrastes, marcados no chão, ou na arte urbana, quis sentir o passado rico, por vezes triste, por vezes glorioso.

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Mas, o relógio traíu-me, fui incapaz de não olhar para ele durante toda a corrida, mesmo quando já tinha falhado o objectivo das quatro horas e meia.

Foi tudo ao contrário do que aconteceu com o telemóvel, no final.

Ao telemóvel eu desprezei-o, completamente, a não ser quando recebi as tais mensagens e chamadas que tanto me aconchegaram o coração, dos meus pais, do meu irmão, do meu filho, que ficaram em Portugal.

E, a excepção, a mensagem do Arturo, o mexicano, que vive nos Estados Unidos, onde um presidente acéfalo queria construir um muro, provavelmente, porque não sabe nada sobre a História do mundo.

Não sei se ainda quer construir esse muro, pelo menos nunca mais falou nisso, o abrolho.

Foi a pensar no que me disseram amigos e corredores bem mais experientes (que eu sou o verdadeiro amador) que, enquanto tive discernimento, fui apreciando tudo em redor e fui escutando histórias, fui vivendo a própria história, à conta das dores - nas pernas - porque a História é feita de dor e paixão, fama e glória, sempre a fama e a glória, na base de tudo, é a condição humana.

O quilómetro seis fica na zona do Reichstag, o edifício que alberga o parlamento alemão, onde muita dessa História aconteceu.

É uma das atrações mais fotografadas de Berlim, embora, provoque em mim uma sensação de raiva pura, pois simboliza o pé alemão, no pescoço português, aquando da crise da década de 2000. A mesma crise que, com a cumplicidade do governo de então (constituído por vários "emissários" do FMI, da Goldman Sachs e afins, a quem chamo mercenários) destruiu mulhares de pessoas, de famílias, de sonhos, no meu próprio país.

Raiva, senti.

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Ali, no Reichstag, aconteceu um duro golpe na democracia alemã.

Em Fevereiro de 1933, o plenário foi completamente destruído por um incêndio provocado por um jovem comunista holandês.

Menos de um mês depois de ser empossado como chanceler, Adolph Hitler aproveitou esse facto para solidificara sua negra ditadura.

“Agora não há mais piedade. Quem se colocar no nosso caminho será eliminado”, teria dito ele.

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Eliminou quem se colocou no caminho e quem dele fugiu.

Raiva!

O resto é o que vem nos livros.

Bom, nem em todos, porque nas escolas portuguesas os miúdos não fazem a mínima ideia do que aconteceu em Berlim, antes e depois do "muro".

Somos uma amostra de país, não passamos disso, por isso há "pés" que nos pisam o "pescoço", sempre que quiserem, se tiverem a ajuda dos de cá, muito melhor.

"Pés" que nos pisam o "pescoço", tal como Trump quis fazer com os mexicanos.

Nunca cheguei a falar sobre isso com o Arturo.

Não gosto de melindrar os meus amigos, embora, ao contrário, não sempre seja assim, quando acontece não os elimino, porque, felizmente, não me chamo Adolph, mas afasto-os, muitas das vezes silenciosamente, sem sequer darem conta.

É o meu lado mais negro.

Quando olhei para a mensagem que o Arturo me enviou, depois da corrida, e lhe respondi que tinha corrido bem porque tinha terminado a maratona, mas tinha corrido mal porque não tinha feito as quatro horas e meia, ele respondeu-me assim:

"Chegar ao fim, na primeira maratona que corres é sempre um atingir do objectivo. Não te esqueças do seguinte, eram 43 mil corredores, 3 mil desistiram, nós os dois ficámos do lado de cá. Parabéns, campeão. Um abraço, do Art Torres".

Também por isso eu escrevi, no início deste texto:

Correr uma maratona, demore o tempo que demorar, acaba sempre por ser uma história de sucesso e de realização pessoal.

É que o Arturo já correu mais de trinta maratonas.

Entrámos no quilómetro catorze.

 

 

 

 

 

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2 comentários

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De Ana a 11.10.2018 às 10:24

Nem mais.
Chegar ao fim é o verdadeiro sucesso.
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De The Cat Runner a 15.10.2018 às 20:38

Olá,
Correr uma maratona, demore o tempo que demorar, acaba sempre por ser uma história de sucesso e de realização pessoal.
É "a vida", para mim é. :)

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