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Já fiz aquilo que você, provavelmente, nunca irá fazer na vida, nesta, na outra já não sei!

Eu já corri com o Elvis Presley.

Ele é que não deu conta.

Nem eu quase dei.

“Olha, olha o Elvis”, alguém gritou.

Olhei-o de alto a baixo, mas fingi que não o vi, de propósito que houve alturas em que o que menos me interessava era gente mascarada.

Ele, o Elvis, ia ali na boa, enquanto eu, o Zé Gab ia ali a torcer-me todo, mentira minha, na altura em que passei pelo Elvis, ou ele por mim, eu ainda ia bem das pernas e da cabeça.

Só depois é que fiquei louco.

Uma das coisas que mais me stressa nas corridas são as bandas de música, por vários motivos;

Desde logo porque vou cansado e quero é paz e amor.

Depois, depois porque normalmente não se percebe nada do que estão a tocar.

Por fim, para não ser injusto, agradeço, contudo, a presença, afinal quem dá o que tem a mais não é obrigado.

A maratona de Berlim é uma World Marathon Major.

Só há seis - Berlim, Chicago, NYC, Boston ( a mãe das maratonas), Tóquio e Londres - e, diz vossa excelência; “o gajo estreou-se nas maratonas numa WMM, ainda por cima onde o outro pulverizou todos os recordes, e pior, ainda viu o Elvis, o gajo nasceu com o rabo virado para a lua".

Eu respondo, não nasci nada, é que a sorte não se encontra, a sorte procura-se.

Planeei tudo e tudo correu como eu planeei, a única coisa que eu não dominava neste processo era o facto do Eliud Kipchoge fazer cair o seu próprio recorde do mundo, ainda assim eu desconfiava que isso poderia acontecer.

Também não dominava, aqui sim fui apanhado na curva, a possibilidade de me cruzar com o Elvis Presley, confesso.

“Olha, olha o Elvis”, e era mesmo ele, em carne, osso e sapatilhas.

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Dizia eu, as bandas de música, a mim, acrescentam pouco, nas corridas, mas eu sou bicho do mato, não sou exemplo para ninguém, contudo (já usei esta palavra lá em cima, estou a perder faculdades) devo admitir que em Berlim a coisa foi diferente.

Hei-de dedicar um quilómetro só às bandas de música, porque destas eu gostei.

Havia de tudo, todos os géneros musicais, bem audíveis, bem visíveis. Gostei!

Acontece que, voltando ao tema, devo dizer que não foi só o Kipchoge que bateu o recorde na maratona de Berlim.

O espírito do Elvis Presley é omnipresente. Se calhar, muitos de nós, dos que correm, já se cruzaram com ele por esse mundo fora, a mim nunca tinha acontecido, em Berlim foi a primeira vez.

Vim a saber, já em Portugal, que o Elvis Presley não quis ficar atrás do Kipchoge e também ele fez história, tornou-se o Elvis mais rápido do mundo a completar uma maratona.

O que me deixa incrédulo é saber que ele foi vestido da cabeça aos pés, com óculos, cabeleira, apesar de a manhã estar fresca criando as condições perfeitas para correr, ainda assim, porra!

O Elvis “Nikki Johnstone” Presley quase apanhava o queniano.

Correu em duas horas, trinta e cinco minutos e vinte segundos.

É o Elvis mais rápido das maratonas ( eu sei, voltei a repetir-me, deve ser da idade), bateu o recorde de Ian Sharman, em Seattle, que durava há dezanove anos.

Isto que lhe conto está registado no Guiness.

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Havia toda uma exigência a cumprir, desde logo, correr vestido de branco, como o “King of Rock and Roll”, a peruca, simulando o cabelo original e as sapatilhas, embora não conste que o verdadeiro Elvis corresse, apesar da energia que emanava em palco.

Se leu o meu texto sobre as necessidades fisiológicas dos corredores, fique a saber que até o rei do rock fica apertado durante a corrida, disse ele no final:

“Julgava que a corrida ia ser mais fácil, mas aos vinte e um quilómetros tive que parar num WC para fazer xixi. Demorei dois minutos só para tirar e vestir o fato”.

Perante isto, porque demorei cinco horas e onze, acho que vou é dedicar-me à música.

“óh ápe bápe a lula óh ápe ben bum tutti fruti oh baluti” (ler assim mesmo).

Entrámos no quilómetro oito.

 

 

 

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