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por The Cat Runner, em 25.09.18

O QUILÓMETRO SEIS - OS FALSOS GÉMEOS ( DIA 62 DA MARATONA)

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Temos que ler as coisas com atenção, porque a velocidade a que recebemos e processamos a informação é estonteante.

Esta é a era da tecnologia e por isso o que esta no “de” (o remetente) chega ao “para”

(o destinatário) mais rápido do que o recorde do mundo do queniano, em Berlim.

Atenção, please.

Falsos gémeos, por exemplo, é diferente, completamente diferente, de gémeos falsos.

Penso que concorda comigo.

Mas, lendo a correr, porque este blog fala muito de corrida, pode parecer uma e a mesma coisa.

Tem tudo a ver com a nossa consciência, com a forma como interiorizamos a vida e as coisas.

Por exemplo, se segue o que eu escrevo sabe que, desde ha uns nove meses e picos, me queixei sempre dos meus gémeos, aquelas duas barrigas abaixo dos joelhos.

Os meus gémeos costumavam estar tão, mas tão grandes e inchados que conseguiam a proeza de serem maiores que a minha própria barriga ( não a perco totalmente porque as damas dizem que dá um certo charme, não que eu acredite nisso, apenas porque ainda não me mentalizei para a perder).

Quando cheguei a Berlim, naquela quinta feira, uma dor específica, na parte lateral do joelho, começou a intensificar-se, a prender-me a perna por ali abaixo.

Andei à voltas, quase a entrar em parafuso.

Antes de seguir viagem, o Guedes, o meu massagista, dizia-me que era uma espécie de bolsa, entre o osso e o músculo que estaria inflamada.

Deitei-me a fazer gelo, alongamentos, até, imagine, a manipular a zona com o dedo o que me provocava ainda mais dores.

Quanto aos gémeos, os verdadeiros, os meus, esses já nem contavam, afinal, estavam permanentemente doridos.

Juro, não houve um único dia, nesses nove meses, em que os meus gémeos e as minhas restantes pernas ficassem tranquilos(as), nem um.

Era um ciclo vicioso, treinava todos os dias, descansava apenas um dia, fui para Berlim todo lixado das pernas, com caixa/resistência bem, preparado, mesmo, mas lixado das pernas.

Em Berlim já estava, por assim dizer, habituado. Até já tinha ganho algum afecto às dores das pernas, mas aquela dor era nova e preocupante.

Ponha-se no meu lugar, anda nove meses a trabalhar para cumprir um dos sonhos de uma vida inteira, consegue passar todo esse tempo sem se lesionar, apenas com uma ou outra bolha nos pés, já que nas pernas é como lhe disse; faz parte, e chega a dois dias do grande dia e começa a sentir que não vai conseguir.

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É aqui que entra a Alice.

A Alice, na véspera da maratona, tal como eu, começa a queixar-se de uma dor na perna.

Com o passar das horas vamos trocando olhares e à pergunta se estava melhor respondia que sim. Mentira.

O olhar desmentia-a.

Eu e ela estávamos com uma dor na perna e estávamos pensativos e apreensivos porque no dia seguinte tínhamos uma maratona para correr.

A Alice tem dois gémeos, todos nós temos, a bem do rigor, mas a Alice nem tem dois, tem quatro gémeos.

Dois gémeos verdadeiros, como os meus e dois falsos gémeos, verdadeiros, os dela.

Dois gémeos, os verdadeiros, estão nas pernas, os dois falsos gémeos ( e verdadeiros, porque existem) estão no coração.

Eles receberam-na, no aeroporto, com braços abertos, como só os filhos sabem receber os pais e, como o amor faz parte das corridas, como faz da vida, a primeira coisa que lhe pediram, logo a seguir ao carinho intenso daquele momento, foi a medalha.

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Ai, a medalha, ainda hoje ando com a minha dentro do carro para a mostrar a quem me pede mas, sobretudo, para a ver quando quero.

Se ela me fascina, imagino ao Salvador e à Francisca.

O que sei é que, em Berlim, a coisa estava a dar para o torto.

O gelo atenuava-me a dor ( a Alice não fez gelo, nem tomou nada) que voltava pouco depois.

Os anti-inflamatórios também a escondiam, a dor, mas não a levavam.

Começava a mentalizar-me para uma tarefa praticamente impossível; correr a minha primeira maratona com uma dor permanente que me ia impedir de chegar ao fim.

Estava mentalizado, apesar de os meus companheiros de aventura, e de todos os que estavam comigo me dizerem que aquilo não era nada.

Era, eu sentia.

No sábado, véspera da corrida, fomos à Expo (a feira da maratona), que fica no antigo aeroporto de Berlim, mandado construir por Hitler, para servir a aviação da guerra nazi.

A feira é fantástica, tem de tudo o que tem a ver com corrida e corredores, quando digo tudo é tudo, mesmo.

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Aproveitei para comprar fitas de “kinésio”, que são fitas que têm como objectivo “aconchegar” os músculos, permitindo a sua estabilidade.

Pensei que aquilo poderia fazer o lugar das meias de compressão, que quase nunca usei porque me apertam em demasia.

A dor continuava a prender-me a perna.

As fitas cumpriram esse papel, na perfeição.

Ajudaram-me, e de que maneira, a correr aqueles longos quarenta e dois quilómetros mais cento e noventa e cinco metros, a mesma distância que o soldado Fidípedes correu entre o campo de batalha de Maratona até Atenas.

Lá chegado anunciou a vitória dos exércitos atenienses contra os persas.

Morreu exausto.

Eu não queria morrer antes de partir para a minha missão.

Adormeci preocupado - um destes quilómetros conto a história desse sono sobressaltado -, estava muito preocupado e nervoso. Dormi pouco, mas dormi bem, apesar de tudo.

Foi quando acordei que tive aquela sensação de espanto, surpreendente, que às vezes nos invade.

Nove meses depois de um sofrimento auto-infligido, um dia hei-de perceber o que é que me passou pela cabeça para me ter decidido fazer tal coisa, nove meses depois, acordei, pela primeira vez, sem qualquer dor nas pernas.

Nem a dor que me andava a ensombrar existia.

Eu tinha dito à Alice que a dor dela era psicológica, ela sabia que sim.

Eu estava convencido que a minha dor era real.

Tudo falso.

Tudo invenção da minha cabeça.

Eu sentia a dor, mas ela não existia, ela era fruto do meu sub-consciente, do meu estado de ansiedade, tudo me doía, sem que nada me doesse.

Corri a minha primeira maratona sem dores.

Aquilo que me aconteceu a meio foi outra coisa, foi uma transformação;

As minhas pernas transformaram-se num pesadelo, sem dor, apenas um pesadelo, uma dor única e global, nas pernas.

Conclusão:

Os meus gémeos, afinal, eram falsos, não eram uns falsos gémeos, verdadeiros, como os da Alice.

Tudo não passou de uma invenção da minha cabeça.

Ele há com cada coisa...

Entrámos no quilómetro sete.

 

 

 

 

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publicado às 11:16



Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

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