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Começo por dizer que este é um texto melindroso.

Está avisado, se continuar a ler será por sua conta e risco.

É melindroso, desde logo, porque é sustentado pelas necessidades fisiológicas das pessoas.

Isso mesmo que acabou de ler.

Como é que eu me vou referir ao acto de mictar ou de obrar, sem correr o risco de este texto sair molhado ou tornar-se literalmente num texto de merda (desculpe o palavrão, mas é aqui que começa o meu melindre)?

Este é um texto sobre “aflições”.

Dizem os entendidos que não se deve estrear ou experimentar o que quer que seja durante uma corrida longa, como a maratona.

Dizem os especialistas e disse-me o meu treinador, vezes sem conta.

Esta parte tem a ver com o gel (que dá energia), mas já lá irei.

Certo é que os corredores, tal como qualquer outra pessoa, também têm necessidades fisiológicas.

Também há quem diga que quando estamos concentrados numa coisa dificilmente temos vontade de ir ao WC. Bulshit!

Eu, sempre que corro - e como provarei adiante, não sou só eu - tenho vontade de ir ao WC, às vezes até nas corridas mais curtas de cinco ou de dez quilómetros.

Pois bem, nós começamos a conhecer o nosso corpo e o nosso organismo e começamos a contornar estas questões.

Para ter uma noção, na manhã da maratona eu acordei às seis da manhã, três horas antes.

O pequeno almoço estava marcado para as sete, duas horas antes.

Quero dizer, antes do pequeno almoço e várias vezes depois do pequeno almoço fui ao WC, para não ter que ir durante a prova.

Mas, estas coisas não são assim tão…lineares!

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 “Malta, lamento, mas preciso de ir fazer xixi - que havia senhoras perto e mijar soa mal”, disse eu aos meus companheiros, mesmo antes da partida.

Olhámos à nossa volta, à nossa volta havia milhares de pessoas, o Reichtag ( o parlamento alemão), um bosque um pouco longe - e também cheio de gente - e um enorme descampado.

As hipóteses era reduzidas, a moita era a solução, a única solução.

Uma moita, no meio do descampado.

Encostei-me, discretamente e, pelo que parece havia mais gente aflita, que aquilo da maratona provoca nervos bons.

Eu e os meus homens, ladeados pelas guarda-costas vigilantes Alice e Sandrina sacámos as cenas e pimba, que alívio.

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 Só que, mal o tipo de branco (na foto) nos viu naqueles propósitos, dirigiu-se à mesma moita, no lado contrário e pimba, sacou da cena e, vimos na cara dele, que alívio.

Ninguém deu conta, a não ser nós, achamos nós.

Como dizia, é proibido experimentar e estrear o que quer que seja nas corridas longas, mas nós somos os Rainbow Runners, por isso o Chico correu com uns ténis novos, bem bonitos e eu, bom, eu é a história da minha vida;

Em Portugal, durante os treinos, experimentei o gel de uma marca.

Na maratona, em Berlim, tinha instruções para tomar um gel de meia em meia hora. Oito, no total, credo.

Lá está, esqueci-me de comprar em Portugal, portanto, fiz a maratona com géis que comprei em Berlim, mas de outra marca.

Sempre que preciso de ir ao WC durante uma corrida eu vou, estou a cagar-me (rir, agora) para os tempos, há prioridades.

Só que eu não queria incomodar o Chico e a Alice, porque os “três mosqueteiros” - como a Clara nos chama - iam felizes, na primeira metade da corrida, por isso nunca lhes disse que o meu interior mais profundo estava a travar uma permanente batalha consigo próprio a partir das duas horas de corrida, ainda nem vamos a meio.

O gel que eu já tinha tomado (quatro embalagens) e que o Diogo me recomendou, comprado na feira da Maratona era bom, era dos bons, mas o meu organismo não estava habituado e, aquilo foi uma luta interior deus me livre.

Não lhes disse nada, e ainda bem. Consegui orientar a coisa e a partir do quilómetro trinta não havia gel que desse cabo de mim, nem água, nem bebida isotónica, nem chá quente, nem banana, nem nada. Eu estava era com outras dificuldades.

Por isso a coisa deu-se e os restantes géis tomei-os, mas quase nem dei conta, aliás, o Chico é que me lembrava;

“Zé, já tomaste o gel?”.

Nós dávamos conta disso, não que eu fizesse qualquer ruído interior, mas porque começava a falar muito, dada a cafeína ingerida (rir, de novo).

Durante a corrida senti, de novo, a necessidade de ir fazer xixi ( ou chichi), que urinar é um termo horroroso.

Convém dizer que havia mais de um milhão de pessoas na rua, os 43 mil corredores entendiam a minha necessidade, vi-os a mijar em vários sítios, até à porta de prédios, até junto a uma esplanada, que aquilo não dava para entrar nos cafés, mas eu tinha algum pudor.

Não conseguia, com tanta gente a ver (rir, again).

Lá encontrei mais uma moita, num cruzamento, num dos muitos bairros pelos quais passámos;

“Malta vou mijar, não aguento mais”, e fui.

Cá entre nós, que ninguém nos ouve, aproveitei e recuperei um pouco o fôlego. Mais aliviado segui viagem.

Minutos depois o Chico;

“Vou aproveitar e também vou fazer xixi”, confesso que não sei onde fez porque não vi, era o que mais faltava.

Ao que, a nossa Alice respondeu;

“Vocês, homens, tem cá uma sorte, já eu não posso fazer nada”, e não fez, mas podia, digo eu (continuar a rir, sff).

Não voltei a ter dificuldades de qualquer ordem, desse tipo, não voltámos a parar mais para fazer xixi (que termo tão fofo).

Aliás, a partir dos 28 quilómetros aquilo foi tão duro para mim, que nem conseguia pensar em necessidades que não fossem as de chegar ao final daquela coisa toda.

Quase, quase a chegar, a uns oito quilómetros da meta, o Chico começa a falar com a Alice e eu a ouvir;

“Alice, não estou a acreditar, nem consigo olhar, não olhes”, achei aquilo estranho.

“Não olha para onde, Chico”, perguntei eu, que nunca perdi a faculdade de falar, apenas a escondi durante alguns quilómetros, lá está, concentração, José.

“Não olhem para a frente, vai ali uma tipo toda borrada”.

Juro que foquei o meu olhar na berma da estrada, aquela era a última visão que que poderia ter durante aqueles quilómetros finais.

“Porra, Chico, que merda é essa?” , perguntei, meio aflito, sempre as aflições.

“Não olhes, Alice”, gritei, “alguma vez eu fazia isto, se é para cagar que se cague em condições, no WC, pá isto não é possível, a senhora deve ir em dificuldades extremas”.

Só sei que a ultrapassei porque num raio de dois metros ninguém se aproximava dela (voltar a rir).

Pior, no fim da maratona, disse-me a Moita (a minha, nada de confusões com a moita do inicio do texto, que essa é com m pequeno e a minha com M grande antecedido de Carla);

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môr, estava preocupada contigo, tinhas dito quatro horas e meia e passaram cinco horas e eu não sabia nada de ti”.

Disse-lhe que podia ter ligado ao Francisco, que para além de ter sido o meu pagemaker também foi assessor, pois recebeu tantas chamadas, que eu nunca imaginei ser possível.

A Carla diz que nem se lembrou disso, mas confessou que estava assustada, porque tinha visto muitas pessoas a passarem por ela - ela estava entre o quilómetro 41 e o 42, mesmo antes das Portas de Bradenburg- em dificuldades extremas;

“uns iam de lado, outros iam a arrastar os pés...cheguei a ver uma senhora toda borrada, juro, fiquei chocada e preocupada”.

Como a senhora que a Carla viu não podia ser a senhora que nós tínhamos ultrapassado, respondi-lhe;

“Acabemos com esta conversa de merda”.

Não respondi assim, mas deu-me jeito para acabar o texto.

Quem nunca se borrou que atire a primeira pedra!

Entrámos no quilómetro cinco.

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