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Em primeiro lugar, falemos de slogans.

Aquele slogan "se conduzir não beba" é correcto, não bate certo ir agarrado ao volante com a cabeça "cheia", está provado.

Por isso, neste caso, porque falamos da maratona, inventemos alguns slogans, cá vai o primeiro: "se correr beba, desde que esteja fresca".

O segundo slogan inventado virá lá mais à frente, antes disso, um pouco de história, cultivemo-nos.

A primeira maratona de Berlim aconteceu quatro meses, quase cinco, depois do 25 de Abril de 1974.

A Liberdade, em todo o seu esplendor.

Foi uma corrida com pouca gente, eram uns duzentos corredores, por aí, não mais do que isso.

Foi o SCC, o Clube de Corredores de Berlim que organizou a primeira maratona, e todas as outras, desde esse dia.

A sigla SCC ainda hoje se mantém na medalha que é colocada ao pescoço dos finishers.

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Só muitos anos depois apareceu o slogan “No Pain No Gain“ (sem dor não há vitória).

Antes disso Os Corredores de Berlim usavam uma outra expressão - para não estar sempre a repetir slogan, ups, repeti -  que, ela sim, determinava quem podia participar na prova: “No Training No Marathon” (sem treino não há maratona).

Se não treinou, não pode correr a maratona.

Eu treinei e vi-me grego (em homenagem à primeira de todas as maratonas, na Grécia Antiga) para chegar ao fim.

É engraçado que escrevo este texto num dia importante para muitos portugueses, o dia da República, e é engraçado porque a maratona de Berlim, em 1990, correu-se três dias antes da reunificação das duas Alemanhas.

 

Há aqui um certo paralelismo.

Foi, por assim dizer, um acto de celebração, pelas ruas da bela Berlim.

Claro que houve cerveja a rodos. Há sempre, percebi eu, quando lá estive.

A cerveja é um dos motivos de orgulho para o povo alemão.

No final da maratona há voluntários que distribuem cerveja sem álcool.

A cerveja oficial é a Erdinger, uma das marcas mais famosas, na Alemanha.

Também ela tem um slogan (mais um), que isto nas corridas há slogans para todos os gostos, com ou sem álcool: “100 porcento de desempenho, 100 por cento de recuperação”.

Acrescento eu (mais um) novo slogan - eu avisei no ínicio do texto que ia inventar uns dois slogans: “sofres a correr celebra a beber”.

Foi exactamente isso que fizemos, no final, um brinde ao nosso feito histórico, um brinde a nós, um brinde aos nossos.

O problema foi só um, a cerveja estava quente - houve quem a bebesse toda - e eu e o Stephane só bebemos um trago, para concluir o brinde, mas bebemos e brindámos.

Celebrámos, como diz o slogan que acabei de inventar neste texto.

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Mas, porque é que a cerveja, mesmo sem álcool - e com álcool, já lá iremos beber uma…- é parte integrante de uma maratona, desta, a e Berlim?

Fácil.

Para além de ser orgulho nacional, a cerveja alemã está subordinada a uma lei com mais de meio século ( mais de 500 anos) que assegura a pureza da cerveja.

As cervejeiras só podem fabricar cerveja pura, feita com cevada, lúpulo, água e ponto final.

É um elemento integrante da cultura.

Por isso, ao longo dos 42 quilómetros o(a) caro(a) leitor(a) não imagina a quantidade de vezes, foram mesmo muitas, que eu pensei em parar, sentar-me numa qualquer esplanada e pedir uma fresquinha.

Um dos meus companheiros de aventura não se sentou, mas à passagem por uma fila de mesas (eu nem dei conta disso) carregadas de cerveja, parou e enfiou uma de seguida, ou quase, como regista a foto, porque festa é festa.

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Eu sei lá, a mim deu-me vontade de tudo, deu-me vontade de me deitar nas macas, ao longo do trajecto, e juntar-me às dezenas de pessoas que estavam a levar massagens, em tempo real (rir), apeteceu-me entrar nas casas e atirar-me pra cima dos sofás dos berlinenses que nos apoiavam junto às suas portas, apeteceu-me sentar na beira do passeio e ficar ali, junto dos outros, a ver os outros a passar e, apeteceu-me, juro, apeteceu-me entrar nos restaurantes e bares, abertos aquela hora da manhã, para que nada faltasse a ninguém, e pedir uma salsicha e uma cerveja à pressão.

Admito, vim de Berlim e não comi uma salsicha, mas isso será tema em outro quilómetro.

Quando passámos pelas tais mesas cheias de cerveja os meus companheiros ainda disseram: “bebe uma”, mas eu ia tão “desaustinado” que nem os ouvi, hoje invade-me um sentimento de puro arrependimento ( rir, de novo), porque tenho a certeza que me teria sabido tão, mas tão bem…

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Bebi no final, só para o brinde.

Na verdade, não sou muito dado a álcool, bebo só quando tem que ser, mas uma fresquinha eu gosto, e com álcool, que cerveja sem álcool só nas maratonas.

Ao jantar pedi duas, das grandes, deve ter bebido uns quase dois litros, a acompanhar aquele bife estrondoso e caro.

Vinguei-me daquele momento em que o stress, o cansaço, a ideia fixa de chegar ao fim me impediu de ser racional e de deitar abaixo aquela fresquinha que acho agora distância teria feito de mim um maratonista ainda mais feliz.

Convém apenas acrescentar que os vencedores da primeira Maratona de Berlim, em 1974 foram

Günter Hallas, com 2h.44min.53 e Jutta von Haase, com 3h.22min.01.

Desde então, os dois, correram todas as edições desta "Major" maratona.

Os dois voltaram a correr naquele domingo, 16 de Setembro de 2018, que eu vi.

Tenho a certeza que correram todas estas maratonas pelo seu amor à corrida, mas também tenho a certeza que no final brindaram sempre com uma fresquinha, como manda a tradição alemã.

Tenho a certeza absoluta.

Entrámos no quilómetro doze.

 

(Olhe só o senhor Hallas a cortar a meta…antes de mim)

 

 

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