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 Naquela manhã de Setembro, mal despertei, a primeira coisa que fiz foi abeirar-me da janela e

espreitar o dia lá fora.

Também ele estava ainda a despertar, comigo.

Ao aproximar-me de uma das janelas do quarto olhei o Memorial dos judeus mortos, lá em baixo, à direita, e um pouco mais afastada, ainda mais à direita, a embaixada dos Estados Unidos, também ela um símbolo daquela resistência toda.

Hoje, o símbolo de coisa nenhuma, porque há um americano que quer construir um muro, o mesmo muro que separa, divide, afasta. Um americano burro que, curiosamente, deu de caras comigo durante a corrida, no fim deste texto.

Estava a poucas horas e começar a correr pelas ruas de Berlim.

A minha memória estava a ser assaltada por uma perturbadora imagem, o “Muro”.

O muro de Berlim, da vergonha, e o muro do idiota, sem vergonha.

O muro que divide, separa, destrói, afasta.

Quando decidi correr a minha primeira maratona, um desígnio solitário, escolhi Berlim por vários motivos;

Porque é uma cidade onde me sinto bem, porque é uma cidade brutalmente marcada e carregada de e pela história recente deste mundo surreal, porque queria que a minha filha caminhasse por aquelas ruas, olhasse os pedaços de “muro” e viesse de lá com a consciência toldada.

E, veio, felizmente. Ela e eu. Venho de lá sempre assim, sempre que lá vou.

Em Berlim, quem quiser, quem tiver a humildade que compete a cada ser humano ter, aprende uma enorme lição de vida, porque não tem como fugir dela.

Por isso escolhi Berlim e não qualquer outra cidade.

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Junto à minha janela, contemplava o sol que nascia e ao mesmo tempo fitava aqueles dois mil e tal blocos de betão, quando essa perturbadora imagem me assaltou. Senti-me envergonhado pela humanidade, por mim, pelo que o “homem” tem de pior.

A minha corrida, daí a algumas horas, ia ser um caminho longo, cheio de considerações, provações, lutas, sobretudo, interiores, homenagens, em vida, em morte, tanta coisa, essa ia ser a minha corrida, foi por isso que escolhi Berlim, foi por isso que tomei a minha decisão.

Ao olhar pela janela do quarto lembrei-me do que ali tinha acontecido, há não tanto tempo quanto isso. Parece que foi ontem.

Foi há vinte e nove anos, foi ontem, continua a ser todos os dias, porque as marcas continuam lá, aqui e ali, pedaços do muro, erguidos esteticamente.

Marcas do muro, espalhadas pelo chão da cidade, o mesmo chão que dai a horas eu ia pisar, naquele que era a mais importante desafio físico e mental da minha existência.

Mas, o que era isso, comparado com os desafios que ali enfrentaram todos aqueles que, numa madrugada, em Agosto, cinquenta e sete anos antes daquele dia, foram abruptamente separados dos seus, por um muro que nos envergonha a todos, que envergonha a humanidade.

Fui assaltado por muitas imagens, por muitas ideias, por muitos, ruídos, imaginários, que tentavam cortar o silêncio que ainda envolvia o quarto, a casa, tudo o resto, naqueles instantes, enquanto olhava pela minha janela.

Quando, na véspera, fui à “feira” levantar o dorsal e colocar a pulseira oficial da maratona no pulso fiz questão de colocar a minha assinatura no muro.

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Era um outro muro, mas a assinatura era minha e eu sei porque é que lá deixei a minha marca;

Berlim marcou-me e eu quis marcar Berlim.

O Muro foi construído na madrugada de 13 de Agosto de 1961.

Nesse dia, quem estava do lado de cá, cá ficou, quem estava do lado de lá, lá ficou.

Pais, irmãos, avós, amigos, uma fronteira os separou durante vinte e oito longos anos.

Uma fronteira, na cidade.

Berlim de um lado, Berlim do outro.

É difícil imaginar, mesmo estando lá, mesmo olhando as marcas que nos agitam a consciência, o que é acordar de manhã e não voltar a ver os nossos filhos.

Para quem ama é impossível imaginar.

O Berliner Mauer circundava toda a cidade, onde dali a pouco eu ia correr.

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Correr, ali, assim, era algo de totalmente impensável há vinte e nove anos, precisamente, porque havia ali uma fronteira física, um muro, que separou uns dos outros, para lá do muro havia pistas onde cães ferozes corriam atrás de quem se atrevesse, alarmes que soavam ao mínimo movimento, homens armados, com ordens para atirar a matar quem ousasse sequer espreitar para o lado de lá.

Foi com essa ideia no pensamento que fui tomar o meu banho e vestir o meu equipamento, antes de tomar o pequeno almoço: há poucos anos era impossível eu fazer aquilo que iria fazer dali a pouco tempo, correr em Berlim, por toda a cidade, livre, seguro, feliz.

Houve quem pagasse com a própria vida, para que naquela manhã de Setembro, eu em mais 43 mil pessoas pudéssemos fazer uma das coisas que mais gostamos, correr.

Dias antes eu tinha estado a tomar café junto ao Check Point Charlie, que hoje em dia não é mais do que um ponto turístico, onde se factura dinheiro com fotografias.

Na altura da guerra fria, o Check Point Charlie era o único posto militar para a passagem das tropas aliadas de uma Alemanha para a outra.

Depois de tomar o café fui visitar uma exposição ao ar livre, onde se conta a história de dois soldados que tentaram saltar o muro. Um conseguiu fugir. O outro foi ferido.

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As tropas aliadas não tinham autorização para o ir buscar, as tropas orientais também não, e ele morreu, ali mesmo, horas depois de estar a agonizar, banhado no seu próprio sangue.

Senti um arrepio, quando olhei para o lado e vi a fotografia do momento em que, finalmente, os soldados aliados conseguiram retirar o corpo daquele local.

Estando ali - passámos lá perto durante a maratona - sentimos dentro de nós toda a verdade e toda a mentira do mundo dos homens.

 

Um longo filme passou-me em frente aos meus olhos, durante aqueles breves minutos, enquanto olhava pela janela do meu quarto.

Naquela manhã de domingo, enquanto corria a maratona, enquanto escutava as palmas e as palavras de incentivo de mais de um milhão de pessoas, dei por mim a olhar em redor, e sim, vi pedaços do muro, e sim, pisei as marcas no chão, com os mesmos pés que pisaram o bunker onde Hitler se matou, logo a seguir à porta do prédio, lá em baixo, por baixo da minha janela.

Em Berlim serei sempre um homem feliz, porque foi lá que corri a minha primeira e, provavelmente, única maratona, porque a história não se repete.

Felizmente.

Lembrei-me da minha filha, quando passei por aquele pedaço de muro, junto ao hotel onde antigamente existia uma rádio, que através dos seus reclamos em néon passava mensagens para as famílias do lado de lá do muro.

Um pedaço de muro violentado, todos os dias, nos nossos dias, por gente miserável, carteiristas que distraem os turistas com jogos ranhosos, para os roubarem, se seguida, gente cobarde que foge depois de escutar um grito de aviso, do outro lado da rua.

Vem aí a polícia.

Estávamos lá, nesse momento, passei por lá quando estava quase, quase, quase a chegar ao fim da maratona.

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 Relembrei a cena que vi nos dias anteriores, olhei o hotel, onde havia a antiga rádio, e segui passo-a-passo.

Tenho a certeza que a minha filha jamais esquecerá Berlim, foi por isso que a convidei para ir comigo, para juntos vivermos aqueles dias estonteantes.

Berlim fica tatuado na nossa alma.

Marcado em nós, tal e qual as marcas no chão, ao longo de toda a cidade, onde corri durante cinco horas e onze sofridos minutos.

Nada que se compare ao imenso sofrimento daquela gente separada por um muro.

O muro esteve sempre presente, até, mais à frente, nas minhas pernas, sempre presente, durante aqueles dias, na minha cabeça.

O muro.

Lembrei-me de Donald Trump e do muro que ele quer construir.

Lembrei-me de Donald Trump e de um cartaz que vi, a determinada altura da maratona, dizia assim:

“if an idiot can run a country, you can run a marathon”!

Entrámos no quilómetro nove.

 

 

 

 

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