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 Uma vez vi Angela Merkel toda nua, a correr, com umas amigas.

Juro, confesso, vi-a numa fotografia e nunca mais aquela imagem horrível me saiu da cabeça.

Não tem nada de machista, esta minha observação, ela é resumida e estritamente estética.

Angela Merkel não fazia a depilação, via-se bem, ao longe.

Desde esse dia que comecei a detestar a senhora, cada vez a detesto mais, admito.

A minha filha conseguiu apertar-lhe o pescoço.

Eu, como sou um homem de sorte, não me cruzei com ela, em Berlim.

A minha filha, sim, mas também ela é uma miúda com sorte, e a Chanceler não se mexia, não ouvia, não falava, nem sequer respirava, graças a deus, se ele existir.

Era de cera, a senhora.

Dizem que a verdadeira é quem governa a União Europeia, não tenho dúvidas, ela tem mais calças que muitos homens.

Espero que, nos dias que correm, ela já faça a depilação, afinal já estamos no tempo da Guerra Fria e ela já não vive na Alemanha de Leste. Outros tempos, pois.

Mais uma razão para eu a detestar, a sério, não consigo, é mais forte do que eu.

Lembro-me sempre daqueles sovacos horrorosos e não só, via-se tudo, procure no Google e verá que eu não minto mas aviso já, achtung baby, que aquilo é hardcore.

Angela Merkel é, para mim, o protótipo dos alemães antipáticos, autoritários, dos alemães que ainda têm alguns genes de outros tempos mais "socialistas".

Na sexta feira, antes da maratona, eu, a Alice, a Adriana, a Carla e a Maria fomos matar o tempo, dando voltas pela cidade, horas e horas, deslumbrados com tudo, com a história, com as bicicletas, com os edifícios, com a atmosfera.

Eu já tinha estado em Berlim duas vezes, mas nunca tinha estado ao pé do parlamento, o Reichstag.

Só a meia palavra “Reich” tira-me logo do sério. Acho que aquilo não devia ter nada a ver com a maratona.

Acontece que a entrada para os blocos de partida era ali e, no final, era ali que as famílias e os amigos se encontraram, para abraçar os seus corredores preferidos.

E, como os abraços fazem toda a diferença, muito mais depois do sofrimento e do prazer que é correr durante tantas horas.

Há abraços que comovem, mesmo que dados, apertados, em frente ao símbolo da arrogância imponente.

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Vinguei-me, “mijei” mesmo em frente ao Reichstag e ninguém me levou preso.

Vinguei-me, abracei quem amo e ningém me aumentou os impostos, nem me despediu.

Vinguei-me, fui feliz, ali mesmo, e chorei, muito, por estar feliz.

Eu detesto Angela Merkel, irei detestá-la para sempre,  porque ela é o rosto da destruição impune.

Foi ela, foi através dela e daquele ministro das finanças com ar de nazi - que entretanto desapareceu de cena, arrumado num cargo milionário, como todos os burocratas sem coração - que eu vi a destruição de famílias, de vidas, de empresas, de sonhos, no meu país.

Foi por culpa de toda aquela imponência fascista que vi filhos, irmãos, netos emigrarem, famílias divididas, como nos tempos do Muro.

Não aprenderam a lição.

Por isso, quando passei por aquele imponente edifício - mantido à nossa custa -  e mais à frente, pelo Banco Central Alemão, recheado de carros de alta cilindrada com motoristas à porta, não me contive, meio a sério, meio a brincar;

protestei, qual esquerdista a lutar pela democracia (porque os tipos de esquerda têm a mania que só eles é que sabe o que é a democracia, também têm a memória curta, como a Angela e o ministro com ar de nazi).

Perante os olhares espantados da Alice, da Carla e da Maria, com a minha reacção, ali mesmo, às portas do poder, logo me apressei a sublinhar, no mesmo tom de voz, que “não sou comunista”, e não sou.

Não consigo ser partidário. Ponto.

Voltando à maratona, que o texto, embora não pareça é sobre a maratona, tive que gramar com o Reichstag, que por sinal é de uma beleza brutal.

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Para mim, os alemães eram (o tempo verbal foi escolhido de propósito) um povo antipático, sobretudo, por causa da Chanceler.

A única alemã que eu gostava (voltei a usar o passado de propósito, embora continue a gostar dela, no presente, e no futuro) é a minha grande amiga Petra Sauer.

Se tivesse uma irmã mais velha era a ela que escolhia.

Uma alemã com mais humor que qualquer latino, com um coração maior que qualquer onda do Guincho, com tanto talento que até trabalha bem longe da Alemanha, aqui mesmo, em Portugal, e faz o favor de me aturar sempre que preciso de um ombro amigo.

Adoro a Petra e ela sabe.

É de mim, não conseguia (tempo verbal sempre no passado) simpatizar com os alemães, excepção feita à minha querida Petra, até porque, aquela tipa de cabelo pintado de encarnado e azul, que servia ao balcão do

Starbuck´s conseguia ser bem pior que a Chanceler.

Também nos vigámos dela.

Tratou-nos, ao pequeno almoço, com uma arrogância e desprezo tais que aprecia uma doutora, atrás de um balcão, onde servia, mal, clientes que apenas queriam tomar o pequeno-almoço.

Tudo porque alguém, dos nossos, não entendeu a sua pergunta;

“ É para levar lá para fora?”, perguntou ela, com uma voz estridente, num inglês tão, mas tão mau, que até eu falava melhor.

Teve o que merecia, viemos cá para fora, deixámos os pedidos pendentes, deixámo-la pendurada, como só os portugueses sabem fazer.

Ficou a falar sozinha.

Cá fora, o sol sorria para nós, era o bastante.

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Restava-nos Berlim, a cidade.

Ela não tem nada a ver com a tipa de cabelo pintado com cores berrantes e absurdas, nem com Angela Merkel, apesar de ambas lá viverem. Não há cidades perfeitas.

Berlim é quase eprfeita, ela é muito mais bela, acolhedora, adorável, que estas duas aventesmas.

Berlim é tão mais do que elas que, quando me vim embora, no último dia, vim com uma ideia completamente diferente em relação à ideia com que lá cheguei.

 

Afinal, os alemães, não sendo como a minha Petra, porque ela é excepcional, são pessoas adoráveis, praticamente todos, menos aquelas duas.

Durante a maratona havia muitos estrangeiros nas ruas, mas havia muitos alemães também.

Todos eles, sem qualquer excepção, com palavras de conforto para quem ali ia a correr a corrida das suas vidas, palavras, bebidas, comida, simples toques de mão-com-mão.

Estavam ali para nos apoiar, mas também para promover a sua própria cidade, com a simplicidade dos bons.

Coisas de seres humanos, sem raça, sem idade, sem crenças, apenas humanos, seres.

Berlim obrigou-me a mudar a percepção que eu tinha sobre os alemães, essa raça com mania das superioridades, como eu achava.

Afinal, Berlim e as pessoas de lá são encantadoras e é o mínimo que posso dizer delas.

Fui-me apercebendo disso ao longo dos quarenta e dois quilómetros, cento e noventa e cinco sofridos metros.

Mas, foi no fim da maratona, já mais para lá do que para cá, já com um andar novo que eu deixei de ter qualquer dúvida.

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Este rapaz, que está nestas fotos comigo tem um nome.

Eu estava tão em transe que não lhe perguntei, sequer, mas hei-de descobrir, juro que sim. Não o conhecia, tão pouco. Não o reconheci, mesmo quando erguemos a bandeira de Portugal, os dois.

Foi preciso os meus companheiros de estrada avivarem-me a memória, no momento em que ele pediu para tirar as fotos.

“Não te lembras dele?”

“Não, quem é?”.

Eu não me lembrava, mas ele foi mais um protagonista nesta história brutal que eu vivi em Berlim.

A determinada altura da maratona, não sei se ao quilómetro 30 ou 30 e tal, a minha cabeça só tinha uma imagem, tal era o meu sofrimento, a minha mulher.

Eu sabia que a Carla estava entre o quilómetro 41 e 42, mas naquela altura procurava-a, inconscientemente, por todo o lado.

“Queria tanto dar-lhe um abraço, agora, precisava tanto”, disse à Alice e ao Francisco. 

Acho que ia a alucinar, ia num dos vários momentos de alucinação que tive.

“Volta à estrada, concentra-te na corrida, foca-te, anda, volta”, gritou-me a querida Alice.                       

Nesse momento puxei a camisola, para esconder o rosto e comecei a chorar, convulsivamente, sem parar, sem nexo, sem controle.

Nessa altura, alguém chega por trás, acerca-se de mim, agarra-se a mim, aos meus ombros, com força e grita-me:

“Come on man, let’s finish this fucking shit, let´s go man”.

Eu não me lembro, mas sei que comecei a correr rápido, tão rápido que era impossível, naquele momento, numa altura em que as minhas pernas nem sequer recebiam as ordens do cérebro, de tão dormentes que estavam.

Corri durante uns trezentos ou quatrocentos metros, a uma velocidade que era, para mim, naquela altura, impraticável.

Não me lembrava de nada do que tinha acontecido.

“Depois de te abraçar, ele perguntou-nos”, contou-me a Alice e o Francisco, “se tu estavas bem e nós encolhemos os ombros, sorrimos e dissemos que achávamos que sim”. 

Quando eu, finalmente, passei a meta, em Berlim, quando eu me tornei num Finisher, num Marathoner, quando eu conquistei o meu objectivo, o meu Santo Graal, eu só queria perceber o que é que me ia acontecer a seguir, se ia desfalecer, se ia ter um ataque, ou se ia conseguir sobreviver até chegar à tenda onde estavam a oferecer cerveja alemã.

Ao contrário de outras corridas, não queria nem abraços nem fotografias. Mas, tirei várias, tive que tirar, não tinha como não as tirar, são marcas que ficam, para sempre, sorrisos imortalizados, no digital, até que um dia alguém as apague.

Uma, algumas dessas fotos, foram com esse rapaz de camisola preta, esse alemão fantástico, do qual eu não me lembrava sequer.

Esse rapaz com nome, um nome que eu hei-de descobrir, prometi-me.

Do abraço que me deu, lembro-me agora, ainda o sinto.

Ele lembrava-se de mim, ele preocupou-se comigo, ele empurrou-me, ele marcou-me, até hoje.

Era ele, contaram-me, no fim, os meus companheiros de aventura, era ele.

E, para sempre, guardei os alemães no meu coração.

Menos a Angela e a tipa do Starbuck´s.

Essas não!

Entrámos no quilómetro dez.

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