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por The Cat Runner, em 06.10.18

O QUILÓMETRO DOZE - SEM LÁGRIMAS ( DIA 69 DA MARATONA)

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Só passaram três semanas desde que corri a minha primeira maratona, em Berlim.

Parece que passaram três anos.

A distância permite-me, agora, um olhar mais frio, menos emotivo, mais assertivo sobre o que ali aconteceu.

O que ali aconteceu, o que ali me aconteceu, foi qualquer coisa de marcante, profundamente transcendental.

Marcas que ficam na pele, nos músculos, na alma e no coração.

Já não há lágrimas à mistura, o que é bom. Faz-nos ver as coisas como realmente elas são.

Quando entrei no quilómetro doze ia bem, ia a correr solto, leve, como há muito não me acontecia.

Ia, sei-o agora, a esta distância, a cumprir aquilo que o José Carlos Santos, o meu treinador, o verdadeiro mentor desta epopeia me tinha indicado.

Perante tudo aquilo que me envolvia era nele que eu pensava, no que ele me tinha dito, no acreditar, no que ele acreditava em mim. Obriguei-me a correr dentro das balizas que ele tinha traçado, afinal, foi ele e só ele quem me preparou para aquela que seria a aventura maior, a maior de todas.

No final, já a caminho do apartamento, com as pernas desfeitas, que eu não estou habituado a estas coisas, o meu treinador ligou-me:

“Então, atleta, és um finisher, és um maratonista, como correu?”.

Não foi o primeiro telefonema que recebi depois de concluir a maratona.

Já antes o meu irmão me tinha ligado, já antes tinha chorado como uma criança, ao telefone com o meu filho: “pai, tenho tanto orgulho em ti, amo-te muito”.

"E eu a ti, filho".

Ninguém resiste, muito menos eu.

“Sim, coach, sou um finisher, mas não correu bem”, respondi-lhe, ao meu treinador, aquele que me acompanhou todos os dias, literalmente, durante nove intensos e brutalmente desgastantes meses.

Aquele que é o verdadeiro responsável por eu ter conquistado a coisa mais absurda da minha existência, a maior superação física a quem alguma vez me sujeitei.

“Como não correu bem?”, espantou-se.

“Por um lado correu bem, cheguei ao fim, mas isso eu iria chegar sempre, nem que chegasse sem pernas, eu sou do Ribatejo, coach, só que demorei cinco horas e onze, em vez das quatro e meia que tinhamos combinado”, respondi-lhe.

Senti a indignação no tom.

“És louco? Não quero ouvir isso de novo. Lembra-te que chegaste ao pé de mim, cheio de dores, sem conseguir correr dois quilómetros de seguida. Chegaste e disseste-me, eu quero correr uma maratona. Nove meses depois cortaste a meta, nunca mais voltes a dizer uma coisa dessas”.

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Agora, três semana depois, as lágrimas já ficaram secas mas, naquele momento, enquanto caminhava, sozinho, pelas ruas de Berlim, em direcção a casa, silenciei-me por breves segundos.

“Estás aí, atleta?”.

“Estou, desculpa…”.

“Não digas mais isso, tu és um campeão, eu ando nisto há anos suficientes para te dizer que muitos poucos conseguiriam fazer o que tu fizeste, no estado em que te encontravas,  a superação que tu conseguiste, aí em Berlim, isso é digno só dos gajos sérios e fortes.

Agora, vai curtir e desfruta disso tudo, porque é único aquilo que estas a viver”.

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Há momentos, na vida, em que por muito perdidos que no sintamos basta uma palavra, desde que seja honesta e sincera, para que nos reencontremos.

E, naquela altura, naquela altura como eu me sentia perdido, sozinho, no meio da rua.

Queria agradecer-lhe com um abraço.

Três semanas depois, continuo a falhar, ainda não estive com ele para lhe mostrar a minha medalha.

Devo-lhe esse abraço.

O José Carlos Santos fez o favor de me acompanhar durante nove meses, mas ele tem mais que fazer.

Para além de ser o seleccionador nacional de Trail, ele é vice-presidente da Federação Internacional de Trail e dirigente da Federação Portuguesa.

Ele, sim, é uma máquina.

É, portanto, um tipo que podia estar perfeitamente a cagar-se para mim.

Mas, não, assumiu o compromisso de me fazer começar e acabar uma maratona e levou-o até ao fim, até aquele telefonema, até ao abraço de gratidão que ainda lhe devo.

Dali não vem mentira, nem aproveitamento, nem falsidade.

Provo o que digo, dias antes, cometo a inconfidência, tinha-me enviado este email, ainda eu não tinha partido para Berlim:

 

“ Amigo, tenho orgulho em ti desde o dia em que nos conhecemos e iniciamos o trabalho juntos. 

Alguém que não conseguia correr 2km seguidos propunha-se correr uma maratona....é de Homem!

Com a tua dedicação e resiliência já alcançaste objectivos inimagináveis, e o grande dia está ali tão próximo...

Lembrar-me de como falavas da meta que julgavas impossível dos 6m/km, e ver o que fazes hoje, é algo que me enche de orgulho.

Falta só mais um pouco....

Grande abraço”

 

Entre o quilómetro dez e o quilómetro quinze, ainda ia eu fresquinho da silva, foi nele e nos seus ensinamentos que pensei, consecutivamente.

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No pace, na passada, na respiração, no tempo. Ia a cumprir e sentia-me orgulhoso, por ele, por mim. O pior veio depois, lá mais para a frente, que ainda há quase trinta quilómetros para escrever.

Se pensava que as histórias começavam a fraquejar, como as minhas pernas, que a escrita começava a morrer, como os meus músculos, está muito bem enganado(a).

Eu entendo, não me conhece.

Pouca gente me conhece, verdadeiramente.

Parece que me dou a conhecer a toda a gente, por causa do meu sorriso fácil, do meu trato simples, mas não, desengane-se, por incrível que possa parecer, quase ninguém me conhece, só que eu quero que me conheça.

O resto, o resto são sorrisos ocasionais.

Só me conhece quem eu quero, a quem eu me entrego.

Só me conhece quem me trata por Zé Gabriel, como ele me trata, que para os outros sou tudo, menos isso, porque não tem que ser.

Ao José Carlos Santos devo gratidão eterna. Ele, ele eu sabemos o que eu sofri para aqui chegar.

Não foi fisicamente.

A minha prova de superação não era física, isso foi só uma consequência.

A minha prova de superação foi para além do resto que é imaginável, para além do sofrimento.

Sofri muito mais mentalmente que fisicamente, durante nove meses, o tempo que uma criança leva a nascer.

Sou feliz e sou-o todos os dias, quando olho para a minha medalha. É minha. E dele.

Tem noites que durmo com ela à cabeceira.

Como que a suplicar para que não me fuja, porque ainda a tenho que mostrar ao José Carlos.

Sei que ele vai gostar de a conhecer.

Sei que aquilo que nos une, desde o momento em que cortei aquela meta, é uma coisa tão forte que, até eu, homem das palavras, não consigo aqui deixar escrito, de tão profundo que é. Intenso.

Não dá para lhe explicar.

Há coisas que não se explicam.

Há coisas que não têm que ter explicação.

Só quem me trata por Zé Gabriel, esse minúsculo universo, que me trata assim, só ele sabe os quês e os porquês.

Foi assim que eu sonhei, foi assim que eu quis.

O resto é mundo, lá fora.

Entrámos no quilómetro treze.

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publicado às 23:53


2 comentários

De Anónimo a 07.10.2018 às 13:16

Amigo Ze Gabriel, como já te disse muitas vezes, foi um prazer e um orgulho imenso, ter feito parte deste teu percurso, e ter merecido a tua confiança para te ajudar a ultrapassar este enorme desafio. O mérito é teu por teres conseguido cumprir o teu sonho, quando tudo apontava (quando começaste), para a quase impossibilidade da tarefa. Mérito no empenho e disciplina que colocaste nos treinos, e na resiliência que demonstraste. Foi com muita emoção que acompanhei a tua prova, e certamente será com a mesma emoção que vou pegar nessa tua medalha de Finisher. Grande abraço

De The Cat Runner a 15.10.2018 às 20:39

Sem palavras, a não ser: obrigado, por fazeres parte das pessoas boas com quem me cruzei na vida. De resto, sem palavras.

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Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

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