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( FOTOS E VÍDEOS DO REALEJO DA AUTORIA DE INÊS XXX )

 

 

Estou para aqui sentado a ouvir o god damn black old Armstrong.

Canta assim:

 

“I see trees of green, red roses too

I see them bloom for me and you

And I think to myself what a wonderful world…

 

The colors of the rainbow so pretty in the sky

Are also on the faces of people going by

I see friends shaking hands saying how do you do

They're really saying I love you…”

 

Fui buscar a letra da canção porque ela pinta às cores aquela manhã de domingo, em Berlim.

As manhãs de domingo, se reparar, são idênticas em qualquer parte do mundo.

Já estive em Seul, em Moscovo, em Londres, em Paris, em Amesterdão, em Lisboa, em Budapeste, em Oslo, em Copenhaga, em Berlim, já estivem montes de cidades e de países e sei o que digo.

As manhãs de domingo têm todas a mesma ambiência, a mesma brisa fresca, as mesmas caras e sorrisos, as mesmas flores, os mesmos cheiros, independentemente da cidade e do país.

As manhãs de domingo mostram-me sempre árvores verdes, rosas vermelhas, as cores do arco-irís, mesmo que ele não esteja lá.

Nós somos os Corredores do Arco-Íris, ou em “cámone” os Rainbow Runners, nunca se esqueça disso.

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Nós chegámos ao fim do arco-íris e, como tínhamos determinado, encontrámos o pote da felicidade, que nós não procuramos ouro, apenas procuramos a felicidade.

Os amigos, o céu azul, dizer-te que te amo, a letra levou-me de novo para as ruas de Berlim, onde mais de um milhão de pessoas nos tratava como verdadeiros campeões.

Gritavam pelo nosso nome, gritavam o nome do nosso país. Foi assim durante mais de cinco horas.

Ora, escutar Louis Armstrong, enquanto escrevo, é inspirador, e assenta que nem uma luva na aquela manhã mágica de domingo.

Tem tudo a ver, senão, ouça a música enquanto lê este texto, o texto chamado "O Quilómetro Dois".

Estes textos não retratam o que se passou a cada quilómetro. Eles encerram em si, cada um deles, uma ou várias histórias que se passaram durante aqueles 42 quilómetros, mais 195 metros, por isso, se continuar a ler já não vai ao engano.

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Lá íamos nós, os três, passada certa, ritmo controlado, a corrida estava a ir bem. Foi para isso que treinei.

O Francisco, reparava eu, pela surra, sem que ele desse conta, olhava para o meu rosto, de tempos a tempos. Marcava o ritmo, marcou o ritmo até eu baquear, lá mais à frente. Depois o ritmo era meu, de sobrevivência. Nada diferente do que tenho feito toda a vida, viver e sobreviver, lutar, cair e vencer. Ponto. Nada de novo, portanto.

Ele queria perceber como é que estava a correr a gestão do meu próprio esforço.

Senti-o descansado, eu ia bem, fui bem durante uns bons 26 quilómetros.

Se imaginar um milhão de pessoas, mais de um milhão, a bem do rigor, todas elas espalhadas pelas ruas de uma cidade, facilmente percebe que quem correu a maratona de Berlim teve apoio do princípio ao fim, literalmente.

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 Até à meia maratona, sempre que gritavam os nossos nomes - Alice, Francisco, José - ou o nome de Portugal, nós agradecíamos, a sério, agradecíamos mesmo.

As primeiras horas, os primeiros quilómetros foram de uma felicidade incontável numa só página de uma crónica.

Íamos muito felizes, os três.

Aqui e ali, ao logo de toda a corrida, as bandas de música.

Brutal.

Chegámos a dançar e a cantar, juro!

Havia de tudo.

Bandas de rock, bandas étnicas, bandas clássicas, músicos solitários, também.

Um ficou-me na memória, e creio que, na memória dos mais de 43 mil que corriam em Berlim.

O tocador do realejo.

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O realejo é um instrumento musical que me remete para quando eu era pequenino, para aqueles tempos inocentemente belos, como a maratona de Berlim, sim, a maratona de Berlim é bela, encerra nela uma misteriosa beleza.

Íamos felizes, dizia eu, quando de repente, aquele som mágico, do realejo, nos entrou pelo coração adentro.

“Olhem para isto, brutal, que cena tão bonita, sinto-me tão mas tão feliz”, disse eu aos meus companheiros de aventura.

 

 

 

Não me lembro da resposta deles, mas lembro-me das caras, sorriam tanto quanto aquela música mágica me fazia sorrir.

Foi nesse instante que a corrida parou, congelou, frizou.

Ficámos ali, suspensos, durante uma fracção de sonho.

“Quaresma, Quaresma…”, escutámos.

Alguém me chamava, por trás do senhor que tocava o realejo.

Ficámos incrédulos, sem saber o que nos estava a acontecer.

Durante todo o percurso, recordo, todos nos chamavam pelos nomes que levávamos nas camisolas;

Alice, Francisco e José.

 

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Quaresma…

Olhámos uns para os outros. Não parámos de correr.

Virei-me para a ver, aquela miúda misteriosa que naquele instante saía de trás do tocador do realejo.

Cabelos pretos, cara redonda, pele branca, olhos grandes.

Eu e ela, cara-a-cara, enquanto uma mancha humana continuava a correr.

No meio de milhares e milhares de pessoas, naquele berma, naquele passeio, atrás do tocador do realejo, alguém me chamou pelo meu apelido, Quaresma.

A Alice e para o Francisco perguntavam quem era aquele miúda baixinha.

“Não sei, acho que foi minha aluna, mas não sei”.

Olhei-a, de novo.

“Quaresma, vim aqui só para vos ver, eu sabia que vocês vinham, vim para te dar um abraço”.

Puta que pariu” ( assim mesmo) pensei eu, que cena é esta que me/nos está aqui a acontecer?

Não quis sequer encontrar a resposta.

Saí da estrada, subi o passeio, olhei o tocador do realejo, primeiro, a cara dela, a seguir, e dei-lhe um grande abraço. Não se importou por eu etar completamente alagado em suor, a cheirar mal.

“Obrigado, obrigado, adoro-te”,

disse-lhe, já em passo de corrida, que por aquela altura ainda me sentia corredor, com forças, feliz, à procura do pote no fim do arco-íris. Começava ali a encontrá-lo.

 

Nos metros seguintes a nossa dúvida era sobre quem era aquela miúda misteriosa.

“Quem é, Zé?”…

“Não sei, a sério, não sei, que cena mais marada…”

Já não me lembro se foi o Chico ou a Alice, mas um deles disse-me;

“Mas, ela esta a chorar…”

Voltei a olhar lá para trás, vi-a a caminhar entre as pessoas, cabeça baixa, não sei se chorava, sei que eu chorei porque, incrivelmente, fiquei preocupado, quem seria ela?

Quem é que iria até ali só para nos ver, só para nos dizer “estou aqui connvosco”?

Que bom que foi, que belo que foi.

O tocador do realejo continuava a tocar o realejo.

 

Nunca tinha vivido um momento como aquele.

Ontem à noite, em casa, enquanto viajava pelo Instagram reparei num “like” de alguém em Berlim.

Bateu-me uma coisa cá dentro.

Abri o perfil dessa pessoa.

A primeira coisa que me apareceu foi um vídeo, o vídeo do tocador do realejo.

Os corredores, em fundo, a passarem, na sua corrida, naquela manhã mágica de domingo, em Berlim, enquanto ele tocava aqueles sons que me deixaram sem qualquer reacção, como quando as pernas me falharam e a cabeça fugia dali, muitos quilómetros depois.

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Chama-se Inês.

Não revelo o nome todo, porque não sei se ela irá gostar, apenas que se chama Inês e gosta de mim, e eu dela.

Meti conversa.

Disse-lhe que aquilo que tinha acontecido, no domingo, tinha sido um flash para nós os três e perguntei-lhe de onde nos conhecíamos, se tinha sido minha aluna, por exemplo?

“Olá, sinceramente, não sei, eu acho que é capaz de ser do facebook. Penso que lhe mandei um pedido de amizade há bastante tempo. É capaz de ser dai”, respondeu-me.

“Acho que comecei a seguir o seu blog e depois mandei o pedido”, acrescentou, na resposta.

Agradeci-lhe e disse-lhe que ia escrever sobre ela no texto de hoje, “O Quilómetro Dois”.

Disse-me que estudou jornalismo, mas não tinha sido minha aluna.

Está a viver temporariamente em Berlim.

“Eu vi um grupo com as bandeiras de Portugal nas camisolas, mas não tinha reparado que estava lá.

Gritei Portugal, mas vocês não me ouviram.

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Só depois reparei que estava lá no meio”, continuou ela, a contar-me o que ali aconteceu.

“Foi aí que gritei o seu nome, depois de hesitar entre os seus três nomes :) “

A nossa troca de mensagens continuou, até hoje.

Foi ela quem me deu os vídeos e as fotos deste texto.

“Como vivo aqui em Berlim e gosto muito deste tipo de provas, achei que tinha mesmo de vos vir apoiar”.

Ainda me custa um pouco a acreditar que aquilo aconteceu de verdade.

Quando o tempo pára no tempo!

Quando isso acontece é difícil acreditar, porque ainda passou pouco tempo, desse tempo.

É difícil, mas acredito, porque sei que a Inês existe, porque agora sei quem ela é, porque trocámos mensagens, ela existe.

E, eu passei a ter mais uma pessoa na minha história.

Estou feliz porque, embora, não tenha a certeza que ela tenha chorado, naquele instante, eu chorei.

Estou feliz porque, sei que a Inês jamais vai esquecer aquela manhã de domingo, em Berlim.

Nem ela, nem eu, nunca mais.

Entrámos no quilómetro três.

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2 comentários

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De José Carlos Oliveira a 19.09.2018 às 23:20

Tens de escrever um livro sobre esta aventura, Ze.
O talento que tens para nos manter presos a uma história, aparentemente banal (da qual me orgulho de fazer parte), tem de ser dado a conhecer a muitas mais pessoas.
A envolvência do que te rodeia, e marca, contada de forma simples e emotiva, não deve ficar apenas pelo teu blog.
Grande abraço amigo
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De The Cat Runner a 20.09.2018 às 15:10

Viva, isso é o menos importante, as experiências ficam registadas aqui, no blog. Grande abraço, meu amigo. Obrigado, pelas tuas palavras.

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