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E quando uma conhecida lhe oferece uma bandeira isso é…

Já lá vamos a essa parte.

Primeiro o enquadramento.

A Carla Fernandes gosta muito pouco da exposição, ao contrário da maioria dos seres humanos, que a procuram incessantemente. Isso faz dela uma amiga muito especial, mas não apenas isso.

Ela gosta de ser discreta, de passar entre os intervalos da chuva, só que desta vez não tem hipótese.

Conheci a Carla há uns bons quatro ou cinco anos, nas corridas.

A empatia que a Carla cria traduz-se, não raras vezes, em amizade.

A Carla tem uma colecção de ténis impressionante, mais, a marca preferida dela é a mesma que a minha, ainda por cima gostamos de ténis coloridos (na minha terra diz-se ténis).

Eu conheci a Carla nas corridas, mas não a conheci por causa das corridas.

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Foi em Bruxelas que tudo começou, por causa de um livro que eu escrevi.

Um belo dia fui a Bruxelas apresentar esse livro à Comissão Europeia.

Foi lá que conheci o Jorge, Fernandes, de apelido.

Era o responsável pela delegação dos Super Dragões de Bruxelas, casa onde passámos, eu o Eduardo Vieitas e um outro senhor “do qual não se deve pronunciar o nome” três fantásticos dias, entre bifanas, minis e jogos de matraquilhos.

Já eu andava nas corridas há um bom par de anos, quando o Jorge, um dia, me mandou uma mensagem:

“Tens que conhecer a minha irmã, ela também vai sempre a essas meias maratonas onde tu vais, já lhe disse para ir ter contigo quando te vir”.

Dito e feito. Não me recordo em que corrida foi, apenas sei que foi numa manhã de domingo que alguém se aproximou de mim e me disse, “olá, eu sou a Carla, a irmã do Jorge”.

Eu sou gajo de sorriso fácil e abraços soltos.

Desde então, a Carla cruzava-se sempre comigo quando eu ia a essas meias maratonas, em cidades património mundial.

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Ela gosta de fazer o bem, gosta de fazer voluntariado, ainda por cima, soube em Berlim, foi campeã nacional de atletismo.

Só em Berlim, mea culpa, associei a minha amiga ao nome, ao tempo e ao feito hirtórico.

A sua humildade é de tal forma incrível que nunca me o tinha dito.

Que ela percebia muito de atletismo isso saltava à vista, mas nunca a tinha associado a essa imagem de topo, o que ainda a aconchegou mais no meu coração e me fez ter ainda muito mais respeito e carinho por ela.

Mas, não foi apenas isso...Há mais.

A Carla tem uma mania, ela costuma ir buscar-me-nos a duzentos metros da meta, puxa por nós, ao nosso lado, e depois deixa-nos cortar a linha sozinhos. Afasta-se, no momento final.

Vai buscar-me-nos, apesar de tudo, sempre.

Mal sabe ela o bem que sabe.

Mas, o coração dela é grande demais, é muito maior, ainda.

Quando os meus companheiros de aventura souberam que eu ia correr a minha primeira maratona em Berlim, sozinho, ofereceram-se para me acompanhar, isso já é público, o que não se sabe é que a Carla, mal soube que o Francisco e a Alice iam fazer-me companhia e ajudar-me a ser maratonista, também ela decidiu ir, também ela foi a Berlim.

Tinha acabado de percorrer toda a Europa, com a filha, em férias, tinha acabado de chegar a Portugal, quando voltou a apanhar um avião e rumou a Berlim.

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Foi ela que teve a ideia das bandeiras.

“Vou com vocês e vou levar três bandeiras, para vos dar antes de chegarem a meta”.

Eu, de imediato, acreditei nela, mulher do norte cumpre a palavra, amiga minha, de coração, nunca me engana, a não ser às vezes, em relação aos autocarros, como o vídeo demonstra.

 

A atitude da Carla foi qualquer coisa de marcante mas, sobretudo, um acto de coragem impar.

Eu explico;

A Maratona  de Berlim faz parte do circuito WMM (World Marathon Majors), é por assim dizer a elite das elites, uma prova extremamente organizada, onde tudo é cuidado ao detalhe.

Pois bem, a Carla, levada por esse sentimento ao alcance de poucos, quando verdadeiro, que é a amizade, e porque é uma mulher corajosa, bondosa, incrível, decidiu esperar por nós entre o quilómetro 41 e o 42, um pouco antes do local onde estava a nossa família e amigos (que já tinham terminado a corrida).

Ela pensa tanto nos outros, antes de pensar nela que, muitas das imagens e alguns dos vídeos que têm visto por aqui (e as que ilustram este texto) são da sua autoria.

Do nada, a Carla saltou as baias, entregou-nos as bandeiras de Portugal, eram três, uma para cada um, ligou o telemóvel, começou a filmar o último quilómetro, sempre ao nosso lado.

Foi sem calções, com calças de ganga, mas com a camisola dos “Rainbow Runners”, feita especialmente para a maratona de Berlim que ela correu, connosco, o último quilómetro.

Foi, para além de uma maravilhosa amiga, a nossa repórter dos metros finais.

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Carla, aquilo que aconteceu em Berlim é por assim dizer uma página que o destino nunca conseguirá rasgar.

Ainda hoje, já refeito de todas as emoções, e com o distanciamento devido, consigo viver aquele último quilómetro, como se ainda lá estivesse, no limite de mim mesmo.

Ainda hoje consigo ouvir a tua voz, quando dei aquele abraço à carla, a minha Carla: "continuem, continuem, a meta é lá à frente, vamos, ainda falta!".

A Carla, como sempre fez, foi-nos buscar antes do final, para puxar por nós e, como sempre fez, ao cortar a meta colocou-se de lado, porque ela entende que aquele momento é nosso, de cada um de nós.

Teve sorte, porque eu já não ia no meu perfeito estado mental, porque se fosse, desta vez ela não escapava, cortava a meta de mãos dadas comigo, porque aquele momento também foi todo dela.

Foi, digo-o hoje, à distância, como se tivesse cortado aquela meta, comigo, de mão dada.

A Carla, que conheci nas corridas, por causa da minha viagem a Bruxelas, e das bifanas e das minis, mais os jogos de matraquilhos, foi a grande campeã desta maratona inesquecível.

Não está ao alcance de muitos aquilo que ela fez.

Não está ao alcance de quase ninguém.

Depois de me colocarem a medalha ao pescoço, que linda que é, ainda hoje dou por mim a admirá-la, depois desse momento incrível, olhei para ela, para a medalha e chorei.

Só voltei a sorrir quando levantei a cabeça e vi a Carla, a olhar fixamente para mim, com aquele olhar cor de castanha doce.

Admirei a medalha, a dela.

Sim, depois de tudo isto ela tinha que ter uma medalha.

E teve-a.

A medalha da Maratona de Berlim, a mais inesquecível de todas as corridas.

Entrámos no quilómetro onze.

 

 

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2 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 04.10.2018 às 22:00

* premeditado
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De The Cat Runner a 04.10.2018 às 23:58

Toda a "ração"...alterado.

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