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por The Cat Runner, em 24.09.18

O QUILÓMETRO CINCO - UM NA MULTIDÃO (DIA 61 DA MARATONA)

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Ao quilómetro cinco ia na boa.

Quero dizer, ainda ia na boa, apesar de ir meio a medo, sem saber o que havia de encontrar lá mais à frente.

Ia a desfrutar daquilo tudo, porque foi para isso que lá fui, não só mais também.

Eu fui a Berlim para provocar em mim uma profunda mudança, sobretudo, interior.

Com os pés no chão, apesar de correr com a cabeça na lua, que foi isso que me aconteceu, durante aquelas cinco horas.

Ao quilómetro cinco eu não achava que ia a correr mais rápido do que devia.

Antes disso, sim.

Levava instruções para fazer a primeira metade da maratona em duas horas e treze.

Ao quilómetro cinco ia com trinta e dois minutos, podia até ter ido mais rápido porque conseguia, são que eu tinha mais trinta e sete (37) assustadores quilómetros pela frente.

Eu sabia lá o que estava para vir!

Até ao quilómetro cinco, lembro-me de ir um tudo nada preocupado, pois íamos a correr abaixo dos seis minutos, por isso, ali para o quilómetro três, mais ou menos, que a memorai já se-me falha, que a pessoa não vai para nova, fiz-me mula e abrandei, como quem não quer a coisa.

Lembrava-me, permanentemente, do que me tinha dito o meu treinador, correr a seis quinze, seis vinte por quilómetro.

À passagem pela meia maratona (21 kms) já tinha esbardalhado o tempo todo!

Em vez de duas horas e treze gastei mais dez minutos, duas horas e vinte e três, portanto, mas isso é lá mais para a frente.

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Voltando ao quilómetro cinco, lembro-me bem, - porque nessa altura o meu cérebro ainda tinha bastante oxigénio - que aquilo que mais me impressionou, para além de ter visto o Golden Angel (aquela coisa ali em cima, na foto, do lado direito, dourada) foi a multidão.

Multidão dentro da corrida, multidão a acompanhar a corrida, durante todos aqueles quilómetros.

Eu era apenas um, no meio da multidão e, meu caro(a), ser apenas um no meio da multidão é absolutamente esmagador.

Sentir que não te olham de alto a baixo, simplesmente, porque ninguém te conhece é brutalmente saboroso e isso faz-te reflectir ( a mim, não, porque há muito que reflecti nisso) naquela questão da fama.

É um veneno que todos querem tomar, deslumbrados com o efémero efeito que ele (o veneno) produz, mas não presta para nada.

Basta passar a fronteira, basta correr a maratona, em Berlim, para sentires a ressaca do veneno, lá, no momento em que ninguém te conhece e te trata de igual-para-igual.

Aquilo que mais retenho ao quilómetro cinco são as pessoas que me chamavam pelo nome (um nome que ninguém me chama), as mesmas pessoas que chamavam todos os outros pelo seu nome. Iguais entre iguais.

Naquela corrida, famoso era o nigeriano que pulverizou o recorde, mais ninguém, apesar de todos aparecerem nos ecrãs gigantes.

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Saber saborear essa condição de incógnito é algo profundamente revelador.

Conseguir pensar, reflectir e entender isso é algo profundamente tocante.

Até mesmo quando dás de caras com uma banda, que toca ao vivo, ( eram imensas. ao longo do percurso) uma famosa música dos Queen.

A fama...

Nesse isntante, em que tu passas, incógnito, em que olhas as pessoas, nos olhos, em que levas os teus sentidos vivos, excitados, nesse instante em que passas, no exacto momento em que a banda toca aquela parte famosa, ela sim, famosa, a passagem da música, e cantas em voz alta, bem alta, arrastada, para todos ouvirem, sorriso rasgado, coração cheio, incógnito, porque ninguém sabe quem és:

“we are the champions…of the world”!

Entrámos no quilómetro seis.

 

 

 

 

 

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publicado às 11:00


1 comentário

De Anónimo a 24.09.2018 às 11:40

Continuas a dar-nos momentos do que viveste de uma forma muito peculiar e absorvente. Conseguimos "viver" também um pouco desta tua experiência. Não só pelo facto de correres e "cumprires" um objectivo traçado no tempo, mas mais que tudo vivida, saboreada em cada canto, a cada quilometro. Abraço "maratonista de afectos".

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Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

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