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Correr uma maratona é muito mais difícil do que escrever uma maratona.

Garanto.

Eu sei, porque já corri uma.

Eu sei, porque estou a escrever uma.

Quilómetro a quilómetro.

Há nesta corrida em linhas escritas quem, por direito próprio, mais que não seja porque gosta de ler o que eu escrevo, a sério, há quem goste de ler o que escrevo, dizia, há quem me pergunte:

“Então, não há mais textos?”…

Claro que há mas uma maratona demora tempo, por muito rápido que o escritor seja.

Isto da escrita corrida tem dias, momentos, embora pareça que é quando um homem quiser.

Nada mais errado, isso é o Natal, quando um homem quiser, com a escrita não é bem assim.

A pessoa precisa de inspiração, a pessoa precisa de assunto, a pessoa precisa de ter vontade, a pessoa precisa, imagine, de ter coragem.

Correr uma maratona, escrever uma maratona, exige bastante coragem.

Garanto.

Eu sei, porque já corri uma.

Eu sei, porque estou a escrever uma.

Deixa-se no asfalto pedaços de nós, marcas que trazemos connosco, para sempre, coisas que só nós guardamos e escondemos, até de nós mesmos.

A escrita é um pouco assim, é preciso ter coragem para escrever, coragem para mostrar as nossas marcas, os pedaços que deixámos lá no asfalto, mesmo que escondamos tanto do muito que vivemos.

Há tanto de vida na escrita quanto o há na corrida.

Dito isto, penso que já percebeu que o acto de escrever é, por vezes, penoso, para mim.

É mesmo. 

Às vezes falta-me a coragem, outras a bateria do computador.

Se calhar os escritores a sério dizem o mesmo.

Eu não passo de um simples Técnico Instalador de Palavras.

Há algum sofrimento misturado com algum prazer, alguma entrega misturada com alguma indecência. É indecente revelarmos fragmentos de nós. É sempre indecente e corajoso.

Mas, quando coloco um ponto final sinto o mesmo que quando corto uma meta;

sou eu, apenas eu naquilo que me constrói, apenas eu naquilo que me faz sentir ansiedade e inquietação.

A vida, a corrida, a escrita.

Um triângulo que só consegue ter as pontas ligadas se transpirar alma, como eu qie transpiro muito quando corro, muito menos quando escrevo. São formas diferentes de sofrer e de sorrir.

Contrasta um tudo nada com a ideia que temos dos alemães. Preconceitos.

São conhecidos pelo pela frieza.

Ideias pré-feitas.

Percebi em Berlim que, neste cenário de ideias já formadas, os alemães têm uma adoração, diria, colectiva à organização.

Tudo funciona.

Mas, tudo funciona à velocidade deles, à sua maneira, dentro da sua vontade.

Funciona, de forma organizada.

Ainda que pela frente tenham apressados portugueses, mais criativos, é certo, mas muito, muito mais desorganizados.

Ali, em Berlim,  a fama dos alemães é levada à letra;

Por exemplo, levantar o kit, com o dorsal, o chip (que controla o tempo da corrida), e mais uns autocolantes é feito em tempo recorde. Não se levanta mais nada, a não ser que se pague.

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Nada que me espante.

É sempre assim, nas corridas por onde tenho passado e já lhes perdi a conta mas, em Berlim, estamos a falar de 43 mil almas. Cenário perfeito para o caos.

Senão, repare neste video que fiz, quando me dirigi à feira, no antigo aeroporto, para ficar definitivamente com os dois pés na 45ª Maratona de Berlim.

Estávamos na véspera da coisa e eu não sabia bem se estava nervoso, ansioso, sei que estava estupidamente feliz.

 

 

 

Parece fácil.

Parecem formigas.

Nunca vi tanta gente numa só corrida, no caso, na véspera da corrida.

E, tudo fluiu, sem stress, sem tensão, tudo envolvido num ambiente feliz, tudo envolvido numa única razão, pareciamos pastores de uma daquelas religiões que eu não respeito. Respeito quase nenhuma. Diria que nenhuma, mesmo, embora não lhes falte ao respeito.

Correr.

Vivi dias muito felizes, em Berlim.

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Dias que são, infelizmente, irrepetíveis, porque uma história bonita só se escreve uma vez, mesmo que o escritor a divida em 42 quilómetros, mais 195 metros.

No fim desta maratona vai perceber porque é que, sempre que escrevo, faço questão de sublinhar os 195 metros finais.

Até lá, tem duas opções, ou deixa de me ler, ou corre comigo até ao fim e, no fim, vai entender.

São apenas alguns metros.

São metros inesquecíveis.

Vai ver que é fantástica a sensação de cortarmos a meta juntos.

A organização dos alemães sentiu-se nesse sábado, quando fomos levantar os kits à feira, sentiu-se durante a corrida, nesse domingo, onde os postos de abastecimento estavam bem distribuídos, cheios de opções, fiquei com a sensação que estava tudo tão detalhadamente calculado que a ideia deles era que a experiência fosse em tudo positiva.

E, quase que foi.

Se reparar, até agora, ainda não corri um único quilómetro de texto com uma única ideia negativa.

Mas, ela vai chegar, muito em breve, que isto de correr uma maratona não é um mar de rosas.

Muito menos escrever 42,195 quilómetros.

Peço-lhe paciência, é que ainda nem vamos a meio da corrida e eu já vou com algum cansaço.

Aina nem cheguei à meia-maratona, imagine.

Prometo não desistir, porque nunca desisti de nada.

Prometo sofrer, porque isto do prazer envolve sofrimento.

É uma cena sado-maso, a sério, ele há gente para tudo!

Se sentir falta de me ler imagine que eu volto rápido, estou só a apertar os atacadores, para continuar a corrida, até ao fim.

Entrámos no quilómetro quinze.

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