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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

14.02.19

O QUILÓMETRO 38 - TERRA FRANCA - (DIA 95 DA MARATONA)


The Cat Runner

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( Fotos by ZGQ)

A vila está diferente.

Desde logo, a vila é uma cidade.

A vila só é vila para os da vila, será eternamente a vila.

Coisas calcificadas no espírito de cada um de nós;

Os mergulhos, junto à fábrica do arroz, quando nos deixávamos ir, nas correntes do nosso rio.

Há muitos de nós que ainda hoje olham para si, mergulhos descuidados, tardes quentes, e os avieiros.

A fábrica do arroz nunca o soube, mas ela sempre foi a fábrica de vidas.

Tenho algumas dificuldades em construir frases que espalhem a minha ideia, aqui, quando falo da vila.

Tenho pena de não lhe dar mais, dou quase nada. Gosto de escrever. E, de correr. Só isso.

O pai da Leonor, que andou comigo ao colo, deve estar com um orgulho do tamanho do céu.

O céu. A noite.

A Leonor é uma miúda, como eu era um miúdo, naquele tempo em que a minha avó se sentava, em gigantes rolos de carpetes, que lá se vendiam, autênticos sofás, enormes, tardes inteiras, na loja da avó da Leonor, em conversas que eu não ouvi.

A Leonor não é, propriamente, da minha geração. Bem mais nova.

A mãe, mulher linda, inteligente, corajosa, hei-de saber como se sente, um dia que me cruze com ela, na vila.

A Leonor é realizadora, produtora, argumentista, o que quer que seja, mas ela é da vila.

Passeia-se na cena internacional com a mesma humildade e naturalidade como quando está na vila, o que deve ser raro, nesta altura, dado o sucesso do seu trabalho.

Todas as pessoas da vila que viram o seu documentário “Terra Franca” sairam das salas invadidas pelo mesma viagem que eu fiz.

Naquele documentário estava a vila.

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O rio, a família de avieiros, o mercado, as festas, as dificuldades, a esperança, a nostalgia.

“Terra Franca” impregna-nos de nostalgia, de tal modo, que não volta a sair de dentro de nós.

Resta-me dizer que a Leonor Teles é brilhantemente premiada e o seu trabalho.

Foi a mais nova realizadora a receber um prémio de curta-metragem no festival de Berlim, com a curta “Balada de um Batráquio”.

O filme de 11 minutos que retrata a tradição portuguesa de colocar sapos à porta das lojas para evitar a entrada de ciganos,

No final Leonor, filha de pai cigano e mãe não cigana parte os sapos à porta das lojas, num acto de vandalismo. Tabú. Não tabú!

Voltando ao Albertino Lobo, avieiro, da vila, ele é o fio condutor da história, mas também desta história.

Desde que vi o documentário, e sempre que vou correr para o Jardim e para o Passeio Ribeirinho, ao lado do rio, para lá da fábrica do arroz, lembro-me da Leonor e do Albertino.

E das suas famílias.

Encho-me de coragem e tiro sempre uma foto aquela rua, virada para o rio, à saída do Jardim, terra franca.

Mas, nunca uso essas fotografias.

Elas são sempre tiradas à noite, no fim da minha corrida, à luz de candeeiros lampiões, amarelos, que dão uma tonalidade ouro-fosco ao que se sente.

Cria-se um arco de luz, desenhado por um iluminador comum - leu bem - que contorna o alcatrão, quase como uma enguia, até à casa da família Lobo e para lá, mas cerca do rio, das redes e das bateiras.

Sempre que tiro a fotografia, no fim de cada corrida, sinto-me como que a invadir o recato daquela gente que é minha também.

Ali, onde é a casa do Albertino, onde ele projecta as suas mágoas e as suas pequenas alegrias, onde vive e partilha afectos e crença os estores estão quase sempre corridos, as luzes apagadas, silêncio.

Como um intruso.

E, de todas as vezes, apago as fotos do telemóvel.

Por respeito.

E é isso que ser da vila nos incute;

respeito!

E mais uma mão cheia de coisas, pó DNA de memória.

 

Na segunda feira saí para fazer 12 quilómetros, da entrada do jardim, com a rua do Albertino ali ao meu lado esquerdo, iluminada no ponto certo, mais o rio, à esquerda, a linha do combóio e o casario, à direita, até para lá da fábrica do arroz e da fábrica do cimento.

Custou-me imenso, mas tive, como tenho sempre, os meus momentos exclusivos, viagem por muitas vidas, como um gato, umas sete, muito mais.

A fábrica do arroz deixou de ser a fábrica do arroz, cedeu o seu lugar à Fábrica das Palavras.

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( Foto by CMVFX )

Dizem que é uma das bibliotecas mais modernas da Europa e eu acredito, pelo menos será das mais bonitas, ali, ali mesmo, em cima do rio.

É a linha de chegada, se quisermos, depois só mais uns 400 metros, Jardim dentro, até ao carro.

Quando passei por ali, na volta,  já o Jardim se tinha tapado, com a noite, apenas uma, duas, três pessoas que saíam da estação em direcção aos carros.

Esperei que todos se fossem embora, aproveitei para alongar. Estava frio. A mesma névoa cor de ouro-fosco.

Enquanto alongava, junto ao pavilhão do União, onde há muitos anos jogávamos bola e assistíamos a grandes jogos de hóquei em patins, foi lá que vi o Livramento jogar, pela primeira vez, onde outrora era o ringue dos avieiros, dei comigo a olhar para o lado esquerdo.

Em frente o pavilhão, o mural em tributo a Alves Redol e,

a rua do Albertino.

Não havia ninguém à volta, comecei a correr, liguei o modo vídeo no telemóvel e, num acto de puro vandalismo sentimental filmei durante meia dúzia de segundos, passo de corrida comprometido.

Mostro o vídeo, aqui, por são imagens exactamente idênticas às da “Terra Franca”, da Leonor e porque, sobretudo, é apenas uma rua. Uma homenagem. Uma viagem. Uma corrida mais.

 

Uma das coisas que tenho mais saudade, na vila, é das ruas.

Era nas ruas que vivíamos os nossos sonhos de toureiros, de detectives, de jogadores de futebol, de organizadores de venda de senhas para angariar dinheiro para as festas.

E, a casa da Associação de Moradores do bairro, onde fazíamos peças de teatro só para nós, na cave da casa, que ficava junto ao depósito da água.

Fazia um mundo de coisas.

E, cresci ali, na vila, assim.

Nessa altura só não corria nas ruas da vila.

É a única coisa que reescrevia na história de um amor.

A não ser no Colete Encarnado. Aí, também corria.

Acho que rua do Albertino, no bairro dos avieiros, vai deixar-me fazer-lhe uma visita, sempre que acabar de correr, sem que eu me sinta um intruso, na minha própria rua.

Porque a rua do Albertino, aos olhos da Leonor, e dos meus, é a vila, na sua beleza mais intensa.

E porque hoje é Dia dos Namorados.

A vila será sempre a minha namorada.

Entrámos no quilómetro 39!