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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

21.01.19

O QUILÓMETRO 34 - SIMPLESMENTE, QUARESMA - (DIA 91 DA MARATONA)


The Cat Runner

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Quando a corrida se mistura com o futebol, com a amizade, com a viagem que é a nossa vida.

Simplesmente, Quaresma.

A única ligação que eu tenho ao jogador de futebol, o das trivelas, é que somos primos em quarto ou quinto grau, por parte do meu pai, de quem um tio dele era primo direito, mas do meu avô.

Qualquer coisa deste género.

Tirando isso conheço o Quaresma e o Quaresma conhece o Quaresma por força da minha profissão e da dele.

Ao que consta Quaresma nunca jogou na Alemanha, mas não imagina que, em Berlim, ele esteve presente entre nós.

A nossa comitiva acidental, acidentalmente boa, nesta aventura mágica que foi a maratona, decidiu que aquele restaurante de esquina, do qual o nome não fixei, sería o nosso refeitório.

Em Berlim os restaurantes são caros, para as nossas carteiras, para as carteiras das pessoas da Europa de segunda (ou terceira) e o “Turco” - assim ficou conhecido entre nós - tinha variedade de pratos, era barato e, melhor que tudo, tinha uma esplanada, a esplanada da foto.

Usámos e abusámos do “Turco”, um homem baixo, cabelo preto, rosto gorduroso, devido às horas que passava em frente ao fogão, óculos com lentes tão, mas tão grossas e embaciadas, que até lhe permitiam ver vídeos, no pequeno telemóvel.

O “Turco” tinha tudo aquilo que precisávamos e, por isso, era lá que nos juntávamos, mais que não fosse para beber um café e trocar uns dedos de conversa fraternal.

De simpático ele não tinha nada, limitava-se a aceitar os pedidos, a cozinhar e a dar instruções aos empregados.

Quatro dias ali e parecia que já nos conhecíamos há anos, nós, a nós, nós, a ele.

Já sabíamos de letra os turnos em que estava a miúda, tarde/noite, o horário do turco mais novo, noite/madrugada e horário do chefe, o “Turco”.

Dava a sensação que ele fazia todos os turnos. Vim de lá com essa crença.

O restaurante estava aberto praticamente vinte e quatro horas por dia, o que era fantástico, para nós e para ele, dada a facturação, mas isso são coisas do “Turco”.

A carta tinha, obviamente, especialidades turcas, mas também tinha massas, pizzas, bifes, sandes fantásticas e servia muito bem as nossas intenções. E, a esplanada.

Almoçámos lá, jantámos lá, lanchámos lá, por vezes íamos apenas descansar, na esplanada, entre um café e os tais dedos de conversa. Histórias que não se repetem, porque a História não se repete, isso é um dado adquirido.

Foi lá, na esplanada do “Turco” que eu escrevi, algures nestes quilómetros, que chorámos todos com as nossas histórias, fruto, creio eu, do momento que se aproximava;

a minha primeira maratona, mais uma maratona para os restantes. Aprendi que sempre que se corre uma maratona passa-se pelo mesmo processo, sempre, as expectativas, os receios, os medos, até.

Contámos histórias que nos uniram naquele único propósito: Berlim!

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O “Turco” marcou-nos a todos, arrisco em dizer, cada um à sua maneira, como tem que ser.

Mas, como bons portugueses houve um momento em que o “Turco”, fizemos acontecer esse momento, do nada, em que o “Turco” sorriu para nós.

Ele parecia viver ali, em frente ao fogão, quase sempre de costas voltadas para o balcão, para os clientes.

Uma dessas noites, uma das mais marcantes desta aventura, fomos jantar “em família”, embora alguns de nós tivessem jantado noutro lugar, por força da distância entre os nossos apartamentos.

Naquela noite fomos apenas as famílias de sangue, mais a nossa Carla e a nossa Alice.

O “Turco” demorava a atender-nos.

Levantei-me, fui direito ao balcão e perguntei-lhe se podia fazer o pedido.

Deu-me a lista, com a mão direita, enquanto a mão esquerda virava o hambúrguer, coberto de cebola.

Num ápice, junto à lista, os copos, os guardanapos, os pratos, os talheres. Eu que levasse para a mesa.

Levei.

Ficámos ali à conversa, como sempre, já com umas cervejas a acompanhar-nos, quando no demos conta;

o “Turco” estava com pressa, muita pressa.

Estava a chegar a hora de jantar, o relógio batia na meia noite, mais coisa menos coisa, o que ele queria era despachar-se.

Mas, não era para jantar.

Sentado naquela mesa de dois lugares, dedos grossos e gordurosos, ele ria à gargalhada, gritava, gritava impropérios, tenho a certeza, pelo menos ouvi-lhe um sonoro “skime”, que é como quem diz, em bom português, F…se!

O “Turco” não jantava, ele passava a hora de jantar a ver vídeos no Youtube, vídeos do seu grande amor, que o levava a gritar, em pleno restaurante, a plenos pulmões, vídeos que já devia ter visto milhares de vezes, mas que provocavam nele as mesma s reacções, todas as noites.

Eram vídeos do Beşiktaş, provavelmente, o maior clube da Turquia.

Pois, isso…

Quaresma.

É lá que (ainda) joga o português Quaresma.

O que nós rimos à gargalhada!

Levantei-me, esperei que ele acabasse de ver aquele vídeo, não fosse levar-me ou fazer-me mal, tamanha era a sua devoção, fanatismo ou amor, não fosse ele pensar que eu queria pedir mais um hambúrguer e que, por isso, ia interromper a sua hora de jantar golos e trivelas bem medidas, com tudo o que ele tinha direito, tudo menos cebola frita e gotas de suor a escorrer-lhe pela testa.

Esperei e atirei-lhe, em inglês:

- Sabe como me chamo?

Levantou os olhos para mim, sem nunca largar o telemóvel, e sorriu, pasmado, sem perceber o que se estava a passar.

  • Chamo-me Quaresma!

Percebi que não estava acreditar. Contei-lhe então a história do tio do Quaresma, o Alfredo Quaresma, antigo jogador do Belenenses e do primo, em segundo grau, o Helder Quaresma, o meu pai.

Não queira ver a alegria do homem!

Pela primeira vez sorriu como deve ser, levantou-se, mostrou-me aquele golaço de trivela que estava ver no Youtube.

Apertou-me a mão e sentou-se, de novo, como uma criança deliciada.

Voltou a colocar os olhos no pequeno ecrã do telemóvel e ali continuou.

Ele e nós.

Nos dias seguintes recebeu-nos sempre de forma calorosa.

Por segundos, quando chegávamos, deixava o fogão para nos cumprimentar.

Já era um avanço.

Gostava de ter tirado uma foto com ele, mas jamais ia interromper, outra vez, aquele momento sagrado.

Um dia hei-de saber o nome do restaurante.

Até lá será sempre o “Turco”, o restaurante daquele homem baixo, cabelo preto, rosto gorduroso, devido às horas que passava em frente ao fogão, óculos com lentes tão, mas tão grossas e embaciadas, que até lhe permitiam ver vídeos, no pequeno telemóvel.

Entrámos no quilómetro 35!

 

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