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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

09.01.19

O QUILÓMETRO 32 - EXORCIZAR A NEGRITUDE - (DIA 89 DA MARATONA)


The Cat Runner

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Prazer.

Prazeres há muitos, seu palerma, diria Vasco Santana, no filme, se soubesse o que eu sei hoje.

Uma das coisas que mais gosto de fazer, mais prazer me dá é correr.

A outra é escrever.

Correr dá-me liberdade, permite-me ser apenas eu e ser feliz.

Escrever exorciza-me a negritude que, por vezes, me invade.

Dois actos, uma liturgia.

Gostava de escrever mais, mas a minha corrida, no último ano e no início deste tem tido imensas pedras no caminho, não as suficientes para construir o tal castelo.

Nem um Super-Homem é sempre o Super-Homem, basta ver quando tira a capa.

Começámos a corrida deste ano, ainda vamos no princípio e quase nada mudou, a não ser o calendário.

Não comi as doze passas, na mudança do ano, algo que já deixei de fazer há alguns anos, em primeiro lugar porque não gosto de passas comidas assim à bruta, depois porque não acredito em coisas dessas.

Gosto de sultanas com mel.

Há um ano, em vez de comer as doze passas decidi correr a maratona.

Este ano, nem isso, não decidi nada. Tudo o que me acontecer irá acontecer porque tem que acontecer. Já não tenho estômago para comer passas por imposição.

Este é o primeiro quilómetro deste novo ano. Doze meses.

Faltam dez, para acabar esta maratona, neste blog, que me é tão especial, tão meu, tão único.

Aqui, sou eu, mais do que em qualquer outro lugar.

Se há algo em mim que gosto, gostar é diferente de ter prazer, essa coisa é levar até ao fim aquilo com que me comprometo.

Foi assim em Berlim. É assim há uma carrada de tempo.

Assim será esta saga, até ao fim, já faltou mais, faltam os tais doze quilómetros para chegar aso quarenta e dois. Doze quilómetros de escrita, como quantos mesmos faltam para voltarmos a virar o calendário e a acreditar que o mundo corre ao nosso lado.

Depois, independentemente daquilo que me possa acontecer irei escrever um livro.

Sem objectivos comerciais, sem querer parecer escritor, sem querer o que quer que seja senão ser eu mesmo, como o fui e serei toda a vida.

Um livro diferente dos que já escrevi, um livro meu.

Entre os dias, este ano já corri uma meia dúzia de vezes, não destoando do habitual.

Voltei a treinar Muay Thai, um ano depois de ter parado, por causa da maratona, e por força das saudades daquela família, onde me sinto querido e acarinhado e por força dos quilos que ganhei desde Setembro.

Iniciei-me, desta forma, na gastronomia do exercício, criei um novo parto, a entremeada de desporto, Muay Thai às segundas, corrida às terças, e assim sucessivamente, dia sim, dia não. Ao fim de semana não treino. Em um desses dois dias vou namorar.

Pego na mão dela e vamos caminhar para o passeio ribeirinho, que o rio continua lindo. Depois descanso.

Acaba por ser um treino, porque caminhamos oito quilómetros, mas é mais do que isso, é um momento exclusivo. Afecto, amor.

Só que, os treinos e as corridas, não funcionam apenas para me manter activo, feliz, eles servem, sobretudo, para segurar a auto-estima, para que ela não venha por aí abaixo porque, garanto, quando ela cai é extremamente difícil voltar a vir cá a cima.

Resiliência, foi o que me ensinou Berlim.

É uma palavra feia, mas cheia de força.

Aprendi a conhecê-la no ano passado, antes, durante e depois da maratona.

A maratona de Berlim teve várias consequências. Ensinou-me outras coisas sobre mim próprio.

As boas, tem vossa excelência lido por aqui, as menos boas reservo-as, na sua maiora.

Uma delas, por incrível que pareça foi retirar-me o prazer de correr. Dessa eu não estava à espera.

Sobrecarga física e emocional. Obrigação. 

Correr uma maratona é personificar a metáfora da nossa própria vida. É mesmo.

Não é uma prova de corrida.

Para mim não é, por isso, dificilmente, irei correr outra. Vivi essa catarse, chegou-me.

Admiro que gosta de correr maratonas, pelo prazer de correr, mas admiro mesmo.

Eu não tive esse prazer, apenas luta, luta titânica, uma batalha contra mim próprio e contra os quilómetros, lentos, lentos e lentos. Foi assim que quis que fosse. 

Desistir era olhar-me ao espelho e ver um homem fraco.

Fui, fomos, até ao fim.

Mas gosto de correr e irei correr até que o corpo me obrigue a parar.

Voltando à terra,

a escrita faz-me sentir outro, não faz sentido não escrever todos os dias, só que é isso que acontece e não tem sido por falta de tempo, infelizmente. Tenho tido todo o tempo do mundo, infelizmente.

Não sei se acontece a mais gente, mas quando sinto em baixo, quando as coisas não me aparecem, nem parecem como eu quero, às vezes basta um telefonema desanimador, perco a vontade, a vontade de correr, a vontade de escrever, a vontade de fazer as coisas que mais prazer me dão.

Bicho estranho, o ser humano, não me bastava ser bicho do mato.

Ando para aqui às voltas, dia-após-dia, à procura da meta, de uma meta que não se consegue ver quando estamos no início da corrida, por fica muito longe.

À medida que vamos correndo e gastando os quilómetros a meta continua invisível, ela só começa a vislumbrar-se no último quilómetro, mas para isso é preciso lá chegar.

É preciso ter força, ter forças.

Ter pernas e pulmões, alma e coragem, paciência e uma mão apertada, agarrada à nossa.

Resiliência,

independentemente daquilo que me possa acontecer irei escrever um livro.

Vou começar hoje.

Depois vou treinar Muay Thai.

Exorcizar a negritude.

Antes disso vou correr.

Basta-me ser feliz durante essa janela de tempo.

Amanhã começa tudo outra vez.

Entrámos no quilómetro 33!

 

 

 

 

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