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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

31.12.18

O QUILÓMETRO 31 - FELIZ ANO NOVO, BERLIM - ( DIA 88 DA MARATONA )


The Cat Runner

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Faz hoje um ano.

Pela primeira vez, uma ideia,  que me passou pela frente, faz hoje um ano. Daquelas que são únicas, porque o tempo guarda-se dentro de uma caixa de sapatos, para quando tivermos saudades podermos voltar atrás.

Faz por isso todo o sentido, não só mas, sobretudo, porque também. Todo o sentido.

Este quilómetro é especial.

É nesta altura que bato contra “o” muro.

Esmago-me, com a verdade e a missão. A passagem.

Provação.

Nessa noite imaginei uma provação, corporal e mental, tracei-lhe a rota, vinquei-me nela, e enfrentei-a. Como sería?

A luz era uma réstia.

Um ano passou, mas as tatuagens que fazemos dentro de nós jamais desaparecem, como as que levamos no corpo.

Às vezes doem, magoam, outras, não.

Outras, sorrisos, cumplicidades, comunhão, sofrimento, instantes, frames, imagens que não conseguiremos ver sempre da mesma forma, a cada vez, a cada passo, que aqui, não se facilita, na escrita. Só nela.

Há um assumir de imensas incertezas, mais nesta altura, na altura em que, porque muda o ano, o ciclo, a vida, mudamos nós.

Durante este quilómetro, exactamente, Berlim, o que tenho dentro, tatuado, definitivo.

Não havia opções, voltra atrás, ir para a frente, era tudo muito longe, regressar ou chegar, não há derrotas, há ensinamentos.

Havia chegado a altura, ao quilómetro trinta e um materializava-se a provação a que me sujeitei, porque a quis entender e não tinha outra forma.

Acho que foi neste momento que me convoquei, sem sossego, o corpo sem sentido, os músculos e os tendões contraídos, como os caminhos do meu cérebro, a vida estava a passar por mim, durante aquelas passadas já muito pesadas, a corrida é dura, contaminou-me, naquele dia, exactamente como hoje.

Eu tive uma visão.

Não escolhi correr o quilómetro trinta e um, na  noite de trinta e um, a última.

A primeira, digo eu.

A maratona não acaba aqui.

Faz hoje um ano, na minha cabeça.

E, aquilo que se correu num ano!

Se houvesse perfeição os recordes do mundo das nossas mais íntimas maratonas seriam batidos todos os dias. Ainda bem que não há perfeição, em lado algum.

Um caminho, para as grandes coisas que perdemos, para pequenas coisas que ligamos.

Quantas vezes, durante uma corrida, saímos da estrada e pisamos o passeio?

Tentamos com que não reparem, mas o caminho diverge, a escolha é nossa, por isso corremos pelo passeio, só depois voltamos à estrada.

Berlim, faz hoje um ano.

Numa noite como esta pensei ir e fui. Não fui só. E, ainda bem.

Leal, ingrato, bondoso, amigo, injusto, apaixonado, afastado, próximo, aqui, onde for, nada paga aquilo que eu sinto saudade. Esta corrida nunca foi uma corrida como qualquer outra corrida.

Que raio, Berlim é plano!

De hoje em diante, vão passar nove meses, até chegar o dia da grande maratona. O tempo conta.

Passaram nove meses de um ponto ao outro. O nascer de um ideal até ao cortar a linha de chegada.

Nascimento. Renascimento.

Foi assim, faz hoje um ano, assim começou.

Quando se corta uma meta, não significa que a corrida acabou.

Ela é interminável.

Basta querer.

Foi isso que eu quis e escolhi.

Estou de volta à corrida.

Feliz Ano Novo.

Entrámos no quilómetro 32!