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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

31.12.18

O QUILÓMETRO 30 - E SE UM DESCONHECIDO LHE OFERECER UM ELOGIO? - (DIA 87 DA MARATONA)


The Cat Runner

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Não há coisa melhor que um elogio.

Sobretudo, quando ele é genuíno.

Sobretudo, quando sentes que as coisas não correm como tu queres. Nesses momentos um elogio ajuda a afagar a alma.

Foi o que me aconteceu, em Lisboa, felizmente, acontece-me algumas vezes, por força da minha profissão, mas nunca tal me tinha acontecido por causa de um dos meus maiores prazeres, a escrita, este blog, precisamente.

Uma das corridas que mais gosto de correr é a São Silvestre de Lisboa, por causa do ambiente que a envolve, a noite cai cedo, na cidade, as luzes de Natal acesas, milhares de sorrisos, de gente feliz, miúdas giras, famílias inteiras, vá, não leve tudo tão a sério, é todo um conjunto.

Só que, este ano não me enganaram, guardei-me para os dois últimos quilómetros, quando temos que subir a majestosa Avenida da Liberdade. Uma subida que não se sente quando vamos de carro, mas que acaba connosco quando a fazemos a correr.

Gato escaldado de água fria tem medo e eu já corri quatro edições, já sabia ao que ia, até porque ia mais pesado oito quilos do que é normal.

Cheguei uma hora antes da corrida, estacionei no Parque Mayer (que começa a ganhar vida, outra vez), desci a avenida até aos Restauradores, para levantar o kit de convidado, até tinha o nome no dorsal e tudo, o Hugo Miguel trata-me na palma das mãos.

O tempo corria a meu favor.

Voltei para o carro, para me ir equipar, é todo um ritual, acredite.

Quaresma”, alguém gritou.

Voltei-me e deparei-me com um senhor, ar afável, feliz, sorriso enorme, largo, olhos brilhantes.

Tem idade para ser meu pai.

“Desculpe abordá-lo assim, mas eu adoro aquilo que escreve no seu blog, o Cat Run”, eu, ali, sem reacção.

“Não tenho redes sociais, recebo as notificações por email, é fantástico, sigo sempre a sua aventura de Berlim, comecei a lê-lo quando foi aquela história da gatinha”.

A Alice, disse-lhe eu. Foram as minhas primeiras palavras. Estava aparvalhado e sorridente, eu.

O senhor Isaac (não revelo o apelido por uma questão de respeito, pois não lhe pedi autorização e não sei se poderia não gostar) chama então um jovem que estava um pouco mais afastado.

“Chega aqui, olha este é o senhor Quaresma”.

Ali estávamos nós, três homens feitos, com três sorrisos do tamanho dos sorrisos daqueles milhares de pessoas que nos rodeavam.

Ficámos uns minutos à conversa, demos abraços, recordo-me que o seu cumprimento, o aperto de mão, durou imenso tempo. À homem!

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Pedi-lhe que comentasse um texto, dizendo quem era, para que eu lhe pudesse responder.

Assim o fez.

“Caro José Gabriel Quaresma. Escrevo para agradecer o seu abraço desta tarde na Avenida da Liberdade. Obrigado mais uma vez pela partilha deste diario berlinense. Receba um abraço e espero que a prova desta noite lhe tenha corrido bem.IC”

Sabe uma coisa, meu querido Isaac, espero que a prova também lhe tenha corrido bem, a mim correu. Foi fantástico, sobretudo, depois de ter estado consigo e de me fazer acreditar que as pessoas, quando querem, são boas, são humanas.

O senhor não tem redes sociais, não trocámos contactos, mas deixo-lhe aqui o meu email (jgquaresma@gmail.com) contacte-me sempre que quiser, mais que não seja para criticar um texto meu, porque eu escrevo para as pessoas, para si, e o seu abraço e as suas palavras valeram tanto como a medalha que conquistámos em Lisboa.

Depois da maratona, em Berlim, engordei imenso, uma estupidez.

Começo agora a recuperar, mas só em Janeiro é que irei entrar em regime alimentar, preciso mesmo.

Por isso fui à São Silvestre com três objectivos definidos, nada do outro mundo:

1- Divertir-me muito, sozinho, porque fui sozinho, sem sequer olhar para o relógio.

2- Subir a Avenida da Liberdade, no final, sempre a correr - lembrei-me do que me ensinou o meu querido José Massuça, a subir vai com passos curtos e imagina que vais a puxar dois cordéis com as mãos).

3- Fazer toda a corrida a correr.

E não é que cumpri os três objectivos!

Ao longo da prova, como sempre, como é normal, imensas pessoas me ultrapassaram.

Cruzei-me com elas, depois, a dois quilómetros da meta, o penúltimo quilómetro é a subida da avenida, o último é a descer, sempre a abrir. Sabia que ia ser assim, tinham dado "el berro".

Enquanto eu corria algumas dessas pessoas, algumas que retive na memória visual, por causa do equipamento, ou de uns ténis, ou de umas pernas :) essas pessoas iam a caminhar.

A mim é que já não me enganam…

Fiz toda a corrida na mesma cadência, quase sempre na mesma média, lenta, mas minha.

Admirei-me com a presença feminina, arrisco a dizer que nunca tinha visto tanta mulher numa só corrida. Eram doze mil pessoas.

Estive com pessoas de quem gosto, a Rita, a Alice, a Ercília e, agora, o senhor Isaac.

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Admirei as iluminações, a cidade fica mais bonita neste dia, sorri para as pessoas que nos apoiavam ao longo de todo o caminho, o que acontece em poucas corridas, em Portugal, fui concentrado naquilo que tinha que fazer, divertir-me muito, e recebi a medalha, linda.

É o segundo momento mais alto de uma corrida, logo a seguir ao momento em que corto uma meta.

Quando me colocaram a medalha no pescoço - é uma tradição minha - senti-me muito mais feliz.

Não vou agora explicar, mas fechei um ciclo, nesse momento, mais um.

Precisava de ir fazer esta corrida, porque correr é isso, é o ambiente, o espírito, ser feliz.

É um medicamento que em mim produz efeito.

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Mudou o ciclo. Mudei mais um ciclo.

Quando a menina, também ela feliz, me colocou a medalha ao pescoço lembrei-me do senhor Isaac, que horas antes me tinha abordado, nos Restauradores.

Depois alonguei, meti-me no carro, e vim para o calor da lareira.

Comemos uns mariscos, bebemos uns vinhos, e a vida voltou a fazer sentido.

Vem aí um novo ano.

Vem aí um novo quilómetro.

Entrámos no quilómetro 31!

 

 

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