Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

30.12.18

O QUILÓMETRO 29 - O MEU MAIOR DEFEITO - (DIA 86 DA MARATONA)


The Cat Runner

 

IMG2018072300180401EasyResize.com.jpg

Ninguém é perfeito.

Uns acordam mal-dispostos, outros são bipolares, outros andam sempre irritados, uns são gordos, outros são magros, outros têm o “pé chato”, outros padecem até de micose, imagine só.

Está a imaginar?

Imagine, está num evento social, rodeado de gente quando de repente lhe dá aquela comichão brutal, nas virilhas. Antes coxo dez mil vezes!

Pois, ninguém é perfeito, disso eu não padeço.

Eu, acredite, achava que era mais ou menos perfeito, apesar de também não ter "pé chato", só que dei-me conta que tenho outras coisas que são defeitos, sobretudo, defeitos de fabrico, e o meu prazo de garantia há muito que expirou.

Não acredito que acreditou no que eu disse?

Achava nada.

Muito menos acho agora.

Fiz uma ressonância magnética e, ela está na origem disto tudo.

Mas, antes, pense só nisto:

O meu pé esquerdo, há uns anos largos, teve uma Verruga Plantar, era uma espécie de prego espetado na planta do pé, em permanência.

Já corria, nessa altura. Juro!

O que eu tenho sofrido por amor, deus meu.

Fui operado e a Verruga Plantar passou a calo permanente, afinal temos que andar para a frente e não conheço ninguém que ande sem pés.

Com ele, com o calo, posso eu bem, raspo-o todas as semanas e corro como um queniano da Lezíria, o mais lento de todos os quenianos da Lezíria, and proud of it.

Adiante.

Em 2004 fui vítima de um grave acidente.

Foi num jogo de futebol, num torneio, um animal, porque o fez de propósito, entrou com tal força que me provocou uma fractura do planalto tibial, com afundamento do osso. Em linguagem comum, fez-me um buraco na rótula, no joelho, lá está, na perna esquerda.

Estive para ficar sem a perna.

Foi de tal forma violento que desmaiei três vezes, com as dores.

Muito antes disso quase entrei para o Guiness Book of Records.

Só não entrei porque não tenho um agente que cuide da minha carreira. Shame on me.

Tornei-me no único jornalista de televisão (pelo menos não encontro outro, mas pode haver, duvido) a quem caiu um dente da frente, durante um directo.

O único no planeta Terra e ilhas adjacentes, atenção!

Por esta altura pensava eu, qualquer dia vou doar o meu corpo à ciência, porque tudo me acontece.

Ora, voltemos à ressonância magnética.

Há mais de dois anos que corro com problemas no meu gémeo da perna direita. Uma cena que me dificulta a vida.

Dizem-me os quenianos mais rápidos do que eu - umas avestruzes do atletismo mundial - que eu devia correr mais rápido, para os anos que já levo de corridas.

Eles não acreditam nas minhas explicações, mas agora com a ressonância, ai caraças, até lhes a esfrego na cara.

Ok, limito-me a explicar-lhes, não esfrego nada, que eu não sou dessas coisas.

Os meus defeitos são outros.

O que eu gostava era de os ver a correr com uma "batata" no gémeo, era o corrias!

É isso que eu sinto, há mais de dois anos, sempre que começo a correr.

Os primeiros três ou quatro quilómetros chegam a ser bastante dolorosos.

Imagine uma hérnia, só que na perna, que aparece quando corro, mas que não se vê, só se sente. Parece querer sair dali para fora e provoca dores parecidas com as de uma contractura.

Isso obriga-me a correr lentamente, por vezes a ter que parar alguns segundos, outras vezes a ter que alongar, durante a corrida, as avestruzes, sabem lá.

Na maioria das corridas tenho esse problema, não em todas, felizmente e isso ainda é mais estranho.

Em Berlim, na maratona, não tive dores, ontem, na São Silvestre de Lisboa (tema do próximo quilómetro) também não tive.

Aliás, a quinésio tape faz milagres, nesse aspecto.

Bom, fui então fazer a ressonância magnética, para ver se era patológico, se era uma lesão se o que é que era.

É morfológico.

O veredicto.

Estou tramado. Imagine um bife. Esse pedaço de bife ganha fissuras. Quando é colocado em esforço ele contrai-se. Nessa contracção, porque há essas fissuras - no caso uma - o músculo, que é um conjunto de músculos, na verdade, ele  vai ter que ocupar esse espaço, “tenta sair por ali”, por assim dizer.

Daí a minha sensação de ter uma batata a querer sair pela perna aos primeiros quilómetros.

Daí a minha explicação para quando me perguntam porque é que eu não corro mais rápido.

Eu tenho um problema morfológico.

Porque é que esse desconforto desaparece ao fim de alguns quilómetros?

O médico não sabe, se calhar não desaparece, se calhar o corpo fica quente, o desconforto está lá, eu é que não o sinto, não sei!

A primeira coisa que perguntei ao médico, mal recebi a ressonãncia magnética foi se teria que parar de correr.

Que não, bastava-me não forçar, quando esse sintoma aparece, o tal sintoma que me lixa os tempos todos. Só que não.

Eu não quero ser uma avestruz, limito-me a ser o mais lento de todos os quenianos da Lezíria, isso basta-me.

Não é preciso parar de correr, é morfológico, é assim que tem que ser.

Sou feliz, porque corro, sou muito feliz, porque não vou ter que parar de correr.

Apesar de ter este, mais este, problema morfológico.

Não há nada a fazer, disse o médico, “não é uma lesão, não é uma patologia, os músculos estão impecáveis, só que é mesmo assim”.

Não é um caso raro, mas não é todos os dias que aparecem pessoas com estas coisas estranhas, como as minhas, como eu.

Por esta altura pensava eu, qualquer dia vou doar o meu corpo à ciência, tudo me acontece.

Decidi que sim, vou mesmo.

Vou doar o meu corpo à ciência, ou pensava que o meu maior defeito era o quê?

Também tenho mau feitio, é verdade, às vezes, mas não há ressonância magnética que o detecte.

E, não é morfológico, é patológico.

Entrámos no quilómetro 30!