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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

26.12.18

O QUILÓMETRO 28 - NADA PESSOAL, FELIZMENTE - (DIA 85 DA MARATONA)


The Cat Runner

 

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Hoje recebi uma notícia que não era a que eu esperava.

Esperava por ela há algum tempo, mas não acreditava que ela chegasse assim, seca, impávida, hoje.

Foi surpreendente. Nada de pessoal, felizmente.

Era algo em que eu tinha acreditado profundamente e, por isso, fiquei sem reacção, como se tivesse sido vítima de um espancamento da alma.

Eu acredito muito nas coisas e nas pessoas.

Mas viver é como correr, vamos até ao fim, umas vezes saímo-nos bem, em outras nem tanto, mas vamos até ao fim e nunca cortamos a meta a caminhar, nunca, isso não.

Acordei com ela.

E, por muito que me tenha afectado, despertei.

Despertei de uma forma que não queria.

Fui fumar um cigarro.

A cabeça invadiu-se de milhares de pensamentos, o corpo deixou escondida a sua vitalidade, senti a barriga colada, vontade quase nenhuma de me vestir e sair de casa, nem de ouvir pessoas, nem ver pessoas, nem comer.

Fui percebendo que este não era eu, aquele que de forma determinada e implacável decidiu correr a sua maratona. Fui a Berlim por isso, para provocar profundas mudanças em mim, enquanto ser humano.

Estava na hora de me testar, de verdade, pela primeira vez.

Já passaram algumas horas, as bastante para começar a refazer-me, mas este é um daqueles dias que nos ensinam. Muito. Muito mais que anos e anos de banco de escola.

Só que, na verdade, é só mais um dia.

Amanhã será outro.

Essa notícia que eu não esperava fez-me rever este último ano, não foi um ano fácil, embora eu faça por sorrir e mostrar o meu sorriso, um ano difícil que termina com impacto, com este impacto.

Nada de pessoal, felizmente.

O meu sorriso vai durar mais uns dias, porque outro ano estará a bater-me à porta.

Vou abri-la, escancarada, para mim.

Vou agarrar-me a ele e vou obrigá-lo a correr comigo, a meu lado, pelo menos até ao próximo ano, como o fiz em Berlim.

E, tenho pensado, não tenho feito outra coisa.

Pensei que tudo aquilo que não vai ao nosso encontro e que por isso é mau existe sempre alguma coisa que nos torna mais fortes, mais que não seja porque aprendemos.

Porque depende só de sermos mais fortes, mais sérios, mais pessoas.

Crescemos quase tudo, num dia.

Na vida, como nas corridas, ou ganhamos ou aprendemos.

Nunca perdemos.

Depois do primeiro embate, do qual lentamente me refaço, desde a manhã, fiquei sozinho em casa.

Aquele momento que é só nosso, como quando corremos, mesmo que rodeados de centenas ou milhares de pessoas. É nosso, só nosso, basta querer.

Vi e revi dezenas de vezes as fotografias da minha maratona, ao longo deste dia, a tal que tanto me ensinou, aquela que me transformou e pensei, que raio, isto não pode ser só no papel.

Apelei, por isso, à minha racionalidade, nesta confusão de pensamentos, de sentimentos, de tudo. Quero saber se corri a minha maratona e se voltei de lá outro homem. Hoje é o dia.

E, vi o vídeo da minha chegada à meta, em Berlim.

Instantes que duraram mais de cinco horas, durante os quais me esqueci de tudo, nesse domingo mágico, quando corri em direcção à Carla e à Maria e as abracei, como nunca, e quando cruzei aquela meta, com a bandeira de Portugal nas mãos e gritei: “consegui, c…”.

 

Consegui e tornei-me outro homem, nesses dois precisos momentos felizes.

Hoje, finalmente, tenho a certeza disso.

Neste preciso instante.

São instantes, como aquele em que recebi essa merda de notícia.

Nada pessoal, felizmente.

Foi a esses instantes que me agarrei, para contornar esta notícia, que tanto impacto provocou em mim.

Num rasgo, concluí, não foi, porque não tinha que ser, será quando tiver que ser. Se tiver que ser.

Passar do papel à prática.

Está passado. É passado.

Desde aquele domingo mágico de Setembro, hoje, hoje foi a minha primeira prova de fogo, mudei ou não mudei, sou ou não sou outro homem?

E, sorri, aqui, sozinho.

Sou, respondi-me.

Já abri a janela, a que me mostra o futuro, e quando acabar este texto vou preparar a mochila e vou correr, correr esvazia-me os pensamentos, faz-me voltar a acreditar em mim e depois, sozinho, vou jantar e hei-de acabar a noite a ver uma série.

Porque hoje quero estar sozinho.

Apenas comigo a meu lado.

Enquanto corria em Berlim, naquele domingo mágico, tantas vezes pensei em tanto, mas sempre levei nos meus pensamentos uma interrogação permanente: será que irei tornar-me outra pessoa, na verdade?

Hoje, tenho a certeza absoluta.

Aqui estou eu, resiliente, crente em mim, abrindo janelas para ver o que está à minha frente, fechando portas por onde já não irei entrar, por elas ficam lá atrás.

Superação, motivação, resistência, querer, acreditar.

E sonhar.

Tenho sonhado muito, nestes dias.

Tenho acordado com pesadelos, a rir, porque quando acordo eles morrem, ali mesmo.

Em quase todos os meus textos digo que a corrida é uma metáfora da vida, digo-o porque acredito, acredito porque o sinto.

Hoje tive a prova disso.

Mais uma prova disso.

Provavelmente, se nunca tivesse corrida a minha maratona, hoje estaria enfiado na cama, tapado até à cabeça, a pensar porquê?

Na verdade, estou a acabar este texto e não quero sequer saber porquê, embora o saiba.

Mas, já não me interessa.

Interessa-me ir correr, ouvir os ruídos do rio e do jardim, das pessoas, apetece-me cumprimentá-las à minha passagem, sorrir-lhes, e fechar os olhos, por instantes.

Sentir o suor molhar-me o rosto e gritar, se tiver que gritar.

E, voltar. 

Recebi uma notícia que era aquela que não queria receber.

Nada pessoal, felizmente.

Uma má notícia, apenas.

Sim.

Mas, uma má notícia encerra em si coisas boas, porque elas fazem parte da vida, senão isto era uma descompensação permanente, e não o é.

Acredite que não o é, sobretudo, acredite em si mesmo, não há nada mais encorajador.

Quem corre tem prazer, enquanto corre, mas também sofre por dentro, porque assim tem que ser, mas corre e corre até ao fim.

O lado positivo desta notícia é que ela só chegou ontem, deixou-me passar o Natal em paz.

O outro lado positivo desta notícia é que a Carla e a Maria voltaram a abraçar-me, como em Berlim, naquele domingo inesquecível.

A janela está aberta, vou olhar o futuro lá fora.

Antes disso vou correr.

Quando voltar a porta fechou-se, os pensamentos arrumaram-se, a alma afagou-se e o corpo estará mais feliz.

Como eu!

Entrámos no quilómetro 29!

 

 

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