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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

06.12.18

O QUILÓMETRO 26 - UM TIPO COMO EU - (DIA 83 DA MARATONA)


The Cat Runner

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Como deve calcular, por esta altura as pernas já pesam o dobro, a cabeça já começa a perder o tino, se é que alguma vez o teve, as ideias ficam turvas.

O máximo que corri, durante a preparação para a maratona de Berlim foi 25 quilómetros, falhei o mítico treino dos 30, achava eu que cinco quilómetros não faziam a diferença. Fizeram e muito.

Foi por esta altura que vi a construção do muro, em Berlim, dezenas de anos depois do verdadeiro ter caído e mudado o mundo, da forma como o conhecíamos até então.

O muro é uma barreira psicológica e física que atormenta e aterroriza muitos maratonistas. Outros nem tanto.

Conheço muitos que passam através do muro como se nada fosse, quais Harry Potters de calções, mas eu não, era o que mais faltava, se havia muro para embater nele, eu tinha que experimentar.

Digo-lhe uma coisa, parece fácil, para muitos, correr 26 quilómetros sem parar, mas é obra e das grandes.

Dito isto,

(vou só meter os fones que não gosto de escrever sem música)

Dito isto, dizia eu, feitas as contas, já lá vão cinco anos de corridas e 8 mil e 500 quilómetros nas pernas.

Ao fim de tantos quilómetros eu tinha que correr uma maratona, era como morrer virgem, perdoe-me a imagem criada.

Foi bastante atribulada a minha inscrição na prova, uma das mais prestigiadas do mundo.

Uma decisão isolada, tomada sozinho, planeada individualmente, porque há coisas só nossas, é aquela história do homem solitário no meio da multidão.

Apesar de tudo, é isso que guardo, fui acompanhado, mas a minha maratona é minha, que não restem dúvidas. O que a rodeou foram circunstâncias. Casualidades. Coisas que só acontecem uma vez.

Uma maratona é uma prova de tudo mas, sobretudo, uma prova de seriedade, para connosco, para com os outros, que nos ladeiam do princípio até ao fim.

O resto não entra aqui, fica do lado de fora.

Ao longo de 8 mil e 500 quilómetros conheci meio mundo, por força da minha exposição pública, algo que não se ganha de um dia para o outro, leva uma vida inteira, cimenta-se na integridade, na seriedade, na verticalidade, em princípios, os meus, que sempre levei ao extremo.

Ao longo de 8 mil e 500 quilómetros é natural que, conhecendo tanta gente, dando-me a conhecer a outra tanta, tenha encontrado gente séria e gente que se faz passar por séria.

É transversal, a corrida é o desporto mais democrático, basta calçar uns ténis, basta, depois, uma palavra, uma aproximação, um sinal, e criam-se relações.

Em Berlim, na verdade, antes de Berlim, conheci um homem sério.

A desconfiança incial era legítima.

Bom, conhecer não conhecia, só o conheci em Berlim, mas foi ele que me abriu a porta do meu sonho, Henrique Reck Farias, um tipo como eu.

Gosta de correr, corre para comer e viaja muito - esta é uma das poucas coisas que nos separa, isso e a nacionalidade.

O Henrique é brasileiro. Foi, até há poucos dias, o dono da agência Maratonas no Mundo, uma agência especializada em corridas.

Um homem tão sério e profissional que nunca quis que eu citasse a sua agência, nem em hastags, nem em comentários, zerinho.

Cheguei até ele através de um amigo que só conhecia do Facebook, e que também vim a conhecer pessoalmente só em Berlim, o Ricardo Areias.

Foi o Ricardo que, vendo o meu desespero em não conseguir comprar uma inscrição (em Berlim sorteia-se os dorsais entre milhares e milhares de pretendentes) me colocou em contacto com o Henrique. Bendito Facebook.

Tratámos de tudo por email, as condições, o pagamento, o alojamento, as inscrições, tudo menos as viagens porque a comitiva do Henrique vinha do Brasil. Mas, se fosse caso disso, até disso ele tratava.

Chegado a Berlim, um contratempo, o único, era preciso pagar largas centenas de euros para o apartamento.

Surpresa, as nossas contas estavam saldadas, lnão fazia sentido, a alemã estava irredutível.

Liguei ao Henrique e de imediato o seu cartão de crédito entrou em acção, estava garantida a nossa presença na mítica maratona. Fomos festejar.

Fui o único que conheceu o Henrique, da nossa comitiva.

Estive com ele e com outros brasileiros, na véspera, de manhã, para me entregar uns blusões, guardo o meu religiosamente, e mais umas lembranças e, claro, para nos conhecermos.

O Henrique é um homem sério, cumpriu, em rigor, tudo aquilo que estava combinado, sem sequer nos conhecermos. Sério e profissionalão.

Não o voltei a ver, mas fomos trocando mensagens, até hoje.

Soube há dias que deixou a empresa, a agência, que ele próprio criou e construiu.

Primeiro, funcionava nos aeroportos, nos hotéis, cá e lá. Onde calhava. Era a corrida que importava, ela e os corredores viajantes, peregrinos do asfalto.

Agora, Henrique deixou uma empresa com escritório montado e com um elevado número de colaboradores. Uma empresa sólida e credível. Mundialmente credível. Quem sabe se não me dedico a este negócio, quem sabe. Nem seu sei. Se calhar.

Não sei o que vai fazer da sua vida, pareceu-me estar feliz, apesar de tudo, mas não lhe perguntei, porque não sou desses, não me estico só porque sim, mas fiquei pensativo.

Pensei, no entanto,  que já escrevi sobre tanta gente, mas ainda não tinha escrito sobre o homem que me abriu, verdadeiramente, as Portas de Bradenburg.

Decidi, por isso, prestar-lhe esta homenagem.

Se eu sou maratonista, isso deve-se a um grupo muito restrito de pessoas, que me ajudaram, mas deve-se ao Henrique, no limite, sem ele nenhuma ajuda teria valido, porque teria ficado em terra e o sonho não passaria disso.

É de elementar justiça, este texto, porque aquilo que que mais gosto no ser humano é da sua integridade.

O Henrique tem coluna vertebral.

É dos meus.

Um dia hei-de publicar uma foto com o blusão alusivo à maratona de Berlim que ele me ofereceu. Hoje é o dia.

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E, hei-de descobrir o que é que ele vai fazer da vida, porque quando eu decidir voltar a correr uma prova fora de Portugal, o que vai acontecer em breve, será a ele que vou recorrer.

Quem me engana uma vez não me volta a enganar.

Quem nunca me enganou terá sempre aquilo que quiser ter de mim.

Boa sorte, meu caro Henrique, seja o teu futuro aquilo que for.

Já vamos no último terço desta maratona.

Daqui para a frente acabaram as homenagens.

Agora é tentar chegar ao fim.

Faltam 15 dolorosos quilómetros.

Daqui para a frente será sobre alucinação, superação, raiva, dores, desespero e felicidade extrema que irei falar e escrever.

Sério, mas alucinado.

Eu, não o Henrique.

Entrámos no quilómetro 27

 

(É preciso manter a calma...a música ajuda...faltam ainda tantos quilómetros para viver)