Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]


IMG20180914103624EasyResizecom.jpg

Não, este texto não fala sobre se deve ou não deve praticar sexto antes de correr, era o que mais faltava, eu meter-me na cama entre si e o seu par, nem pensar!

Este texto tem a ver com segurança.

E, se pensa que lhe vou deixar conselhos sobre como controlar a natalidade durante o acto, tire o preservativo da chuva, perdão, o cavalinho. Na verdade dê-lhe o nome que quiser, vai tudo dar ao mesmo, sexo!

Enquanto corria nas ruas de Berlim, há dois meses e meio - parece que foi há séculos - confesso que pensei, muitas vezes, na segurança.

Berlim é uma cidade daquelas, a maratona é a mais rápida do mundo e uma das mais conceituadas, tudo era possível acontecer. Pensei nisso, enquanto me divertia, enquanto corria.

Só quando as dores começaram a tomar conta do meu corpo é que me esqueci da segurança, esqueci-me de tudo.

Ali por volta do quilómetro 24 lembrei-me de uma notícia que tinha lido, um mês antes de partir para a minha grande aventura.

Aeroporto de Berlim, Schonefeld, Agosto de 2018.

O mesmo aeroporto onde aterrei e onde levantei, curiosamente, um dos piores e mais pequenos aeroportos onde alguma vez estive, nem parecia Berlim.

Durante uma revista normal de bagagem os funcionários, grandes como torres, deviam calçar para aí o 52, barrigudos, detectaram um objecto suspeito na mala de um passageiro.

Acharam eles que era uma bomba.

Mal sabiam eles que, durante a maratona, quem quisesse metia ali as bombas que entendesse, tal era a falta de segurança, pelo menos, eu senti-a.

O terminal do aeroporto foi evacuado (aprenda, não se evacua pessoas, as pessoas é que evacuam, mas isso não vem agora ao caso, evacua-se instalações e não só). O dono da mala foi detido temporariamente e levado para uma zona exclusiva.

Os agentes alemães precisaram de uma hora inteira para perceber que objecto era aquele.

Eu precisei de cinco horas para correr a maratona.

Não creio que alguém tenha aguentado cinco horas, a não ser com ajudas extra, tal como eu. Na corrida, bem entendido.

Posso dizer, com propriedade, que sou um verdadeiro maratonista (rir).

Depois dessa tensão toda (eu disse tensão) os agentes lá perceberam, com alguma surpresa, que a bomba era pacífica (rir, de novo).

Quero dizer, ela provoca estragos, mas em bom.

O que parecia ser um engenho explosivo era, afinal, um brinquedo sexual (nome pomposo para vibrador).

O passageiro confessou que o tinha comprado umas semanas antes, ele e a namorada.

Quanto ao uso, dê largas à sua imaginação, porque eu, como disse em cima, não me meto no meio, nestas coisas.

Este episódio foi animando a minha corrida, apenas isso, porque enquanto se corre poucas coisas são compatíveis, embora se transpire imenso, se atinja, por vezes, aquela sensação de orgasmo, embora tenhamos imenso prazer, mas são poucas as coisas compatíveis com a corrida, muito menos se ela fora longaaaaaaaaaaa, a corrida.

Eis quando, por volta dos 24 quilómetros dou de caras com uma situação embaraçosa.

Preferia ter sido apanhado com um vibrador dentro da mala.

Enquanto o pelotão corria, alguns pré-humanos, uma raça que não é exclusiva de Portugal, existe em todo o mundo,  atravessavam a estrada de um lado para o outro, uns iam a pé, a correr, podiam ter-se juntado a nós, mas não, e outros com bicicletas pela mão, podiam ter ido a pedalar, mas não.

Dou comigo a pensar, credo, numa Major Marathon é esta a segurança?

Bem sei que, garantir a segurança de mais de 40 mil pessoas ao longo de mais de 40 quilómetros só mesmo se fossemos chefes de estado ou assim, ainda assim…

Lembrei-me da história do vibrador, quando vi aquela gente a faltar ao respeito a quem corria, a colocar em perigo quem corria, a menosprezar quem corria, ainda por cima a pagar, e bem, e lembrei-me da história do vibrador só que, desta vez, não lhe achei graça nenhuma.

Pensei, isso sim, que estávamos ali, todos vulneráveis, durante algumas horas.

À mão de semear.

Confesso que, enquanto tive forças para correr e pensar ao mesmo tempo, só pedia para que não acontecesse nada que, ironicamente, meses antes esteve para acontecer;

Um atentado, falhado, em Berlim. Basta pesquisar as notícias. Eu tinha feito essa e outras pesquisas, porque preparei bem a minha primeira maratona.

Pensei em Boston, até porque na viagem para Berlim conheci um mexicano, o meu amigo Art Torres, que tinha cruzado a meta em Boston poucos minutos antes do atentado.

Pensei em milhares de coisas, enquanto tive forças para pensar.

Pensei que podia acontecer alguma coisa nas Portas de Bradenburg, onde estavam milhares de pessoas.

Depois, depois perdi as forças, e deixei-me ir, sem pensar em nada, como acontece sempre que perdemos as forças, sabe a que me refiro.

Só não fumei um cigarro, depois, no final, porque quando se corre não se fuma.

Ou estava a pensar que perdi as forças por outro motivo?

O brinquedo sexual era do outro senhor, não era meu.

Não me "fecundem".

Entrámos no quilómetro 25!

 

Autoria e outros dados (tags, etc)



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.



Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D