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( Em Berlim aprendi o significado da palavra gordo, perdão, da palavra Brezel  )

 

As coisas são como são e ponto final.

Conheço pessoas que vendem a alma ao diabo para terem “quinze” minutinhos de fama.

Conheço diabos que vendem a alma às pessoas, antes pelo contrário.

Isto para fazer uma pergunta e dar a reposta que eu sou um diabo e não vendo a alma a ninguém, porque só tenho uma, a pergunta é:

quem de nós nunca viu uma publicação na internet do género “saiba como perder oito quilos em oito semanas”?

Os “quinze” minutinhos de fama.

Neste caso, aqui, eu faço o papel do anti-herói, porque sempre gostei das antíteses, a exposição de ideias opostas, vou fazer o quê?

Fiz a pergunta, dou a resposta, que eu cá não engano ninguém, como o diabo.

Todos nós já vimos publicações como aquela a que fiz referência, eu já vi, vejo todos os dias.

Junte-se-lhe os sumos detox, as dietas milagrosas e os fat burner e a alma acaba vendida ao diabo. Não tenha a mínima dúvida. 

Pois bem, aqui não se explica como se perde peso, aqui explica-se como se ganha peso, embora, não possa inferir deste texto que o que aqui acabo de escrever é uma sugestão, um conselho, uma dica, nada disso.

Digamos, antes, que fui possuído pelo diabo, esse maldito, que sorri com os dentes amarelos.

Podia estar a brincar e até estou.

Quando fui para Berlim, para correr a maratona, já lá vão oito semanas, se a memória não me trai, que eu já não vou para novo e isto falha, de vez em quando, levava comigo 79 quilos.

Sou um tipo de estatura larga, por isso, a mim, não se aplica a fórmula altura vs peso.

Tenho 1,74m se pesasse 74 quilos tinha ar de doente.

Os 79 ou 78, 77, vá, é o meu peso ideal.

Cheguei a Berlim com 79 e com 79 de lá vim, apesar das Shoarmas, dos haburgueres, dosBrezel, por incrível que pareça, não comi uma única salsicha.

O diabo esconde-se nos detalhes, como dizia a costureira. Acho que era a costureira que dizia.

Quatro semanas depois estou oito quilos mais gordo, sem espinhas, sem remorsos.

Não vou ensinar como se faz, basta comer, comer bem, beber uns copos, com ponderação, às vezes e, confesso, fumar um ou dois cigarros por dia. Até isso eu consigo deixar ontem.

Depois da maratona, lá está, senti que tinha tido os meus “quinze” minutinhos de fama, vai daí, como qualquer pedante, vendi a alma ao diabo.

A ideia era;

se corri a maratona posso pecar como uma freira louca.

Claro que eu sabia os custos, mas cá entre nós, pecar é a melhor coisa do mundo.

Depois, paga-se o preço, mas valeu pelo prazer.

Durante estas oito semanas, à conta da aventura de Berlim, comi e bebi que nem um louco, ou que nem uma freira, com todo o respeito que tenho pelas sis .

A bem dizer vinguei-me, mas como tudo na vida, tenho uma explicação.

Passei nove meses a levar com filmes, mais filmes, treinos, mais treinos, comida controlada, cenas lixadas que me aconteceram, blá, blá, blá.

A paixão (que tenho pela corrida) começou a dar lugar a algo que nunca antes tinha sentido.

Uma espécie de stresse disfarçado de prazer, porque não havia como voltar atrás.

Momentos houve em que me apeteceu mandar tudo para o "cesto da gávea" (Google explica).

Só que quando corro, leve o tempo que levar, nunca volto para trás, mesmo que o prazer me abandone e me deixe ali, estupidificado.

Quando voltei para Portugal decidi parar de correr, porque o que eu faço na vida faço por prazer e já não tinha nenhum - refiro-me à corrida, ok? -.

Quis, de novo, voltar a ter prazer, por isso decidi parar, até voltar a vontade.

E, pequei.

Pequei como se não houvesse amanhã.

Os Brezel deram lugar a grelhadas mistas, a dobrada, codornizes, mousse de chocolate, pastéis de nata - isso é certinho -, choco frito e um sem número de orgasmos.

A seguir, claro, um cigarrinho.

Fiz alguns treinos de ginásio, não os suficientes para equilibrar a balança e ela desequilibrou-se, a favor do diabo.

Foi assumido, eu sabia o que ia acontecer, porque já tinha sido este eu, sabia o que ia passar para voltar a ser o outro eu.

Oito semanas e oito quilos depois, decidi voltar a calçar os ténis (sapatilhas não é para mim, que sou do Ribatejo e sempre disse ténis), voltei a sentir o cansaço grande, os olhos a arderem por causa do suor, voltei a fechar os olhos e a deixar-me ir.

Voltei a correr, como me dá mais prazer, sem me armar aos cucos, que já tenho fama que me chegue. Se tenho a fama que tenha o proveito.

Foi assim que tudo aconteceu.

Lento, muito lento, que carregar estes quilos todos é de bradar aos céus, ou aos infernos.

Hei-de lá chegar, aos 77, 78 ou 79 quilos, eu sei que sim, porque se há alguém que me conhece bem, esse alguém sou eu. Só eu.

O diabo nem sabe quem eu sou, ele só conhece o que eu lhe quero dar a ver.

Incha diabo.

Incha ele e incho eu, que é assim que me sinto, inchado, giro, mas gordo.

Agora é tempo de voltar a ficar pintarolas.

Voltei a correr e a ter prazer.

Só assim vale a pena.

Só assim sei viver.

Costumo dizer aos meus alunos que, quem quer fazer televisão tem que saber rir de si, em primeiro lugar. Mostro-lhes o vídeo que me catapultou para a fama, quando perdi o pivot, em directo. E rimos muito. Como agora, neste momento, quase meia noite e eu a rir.

Eles acreditam em mim.

Eu acredito em mim.

Sou como eles, ainda sonho coisas boas.

Sei rir de mim, antes de qualquer outra pessoa.

Não preciso que me digam: "estás mais gordo", porque se assim for vejo-me obrigado a responder "e tu estás mais parado do cérebro", porque constatar aquilo que é o que se vê acaba por ser um exercício de profunda burrice, digo eu, que gosto de mim mais ou menos assim, menos assim, oito quilos menos.

Estou mais gordo. 

Vou ficar mais magro.

Na segunda feira recomecei a correr, todos os dias, como antes, com prazer, como gosto.

Só não gosto quando estou na passadeira e chega um bimbo altamente perfumado, deixando um rasto por onde passa, agonia.

Detesto bimbos.

Quem é que vai perfumado para um ginásio?

Só mesmo quem vendeu a alma ao diabo, ou quem, eventualmente, anda à procura dos seus “quinze” minutinhos de fama. 

Amanhã volto à rua.

Correr na rua é como a vida, como na vida, encontro muitos bimbos, enquanto corro, mas pelo menos não me agonio com o perfume deles.

Dou-lhes distância.

A léguas.

Não vá o diabo aparecer-me ao caminho e vender-me a alma.

A dele.

Que a minha não está à venda.

Entrámos no quilómetro 24!

 

 

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2 comentários

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De O ultimo fecha a porta a 22.11.2018 às 00:47

Desde que comecei a correr com mais "regularidade", entende-se tento uma vez por semana, sinto que emagreci nos primeiras semanas, juntamente tb com uma alimentação mais cuidada.
Gosto de correr pelo convívio com o grupo com quem costumo ir e porque sinto diretamente as calorias a queimar.
Tenho muito pouca resistência. Ainda domingo fizemos 14 km, mas ao fim de 8 já estava com vontade de parar. Foi muito longo até para o que costumamos fazer.

Um dos "organizadores" foi os ultimos kms até ao ponto de partida sempre a puxar por mim ao meu lado. Só não parei por vergonha , mesmo com a chuva.
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De The Cat Runner a 28.11.2018 às 16:31

Boa tarde, vergonha? Quantas vezes eu páro? Quantas vezes me sinto cansado? Eu corro, para mim, por mim, nunca para os outros, nem em função dos outros. O prazer está aí. Continue, corra, páre, caminhe, corra, de novo, mas encontre nesse tempo um pedaço de felicidade, só assim faz sentido. Um abraço

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