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Berlim 2018

 

Chegámos à meia maratona.

Agora, falta-me metade, até cortar a meta, até atingir o meu objectivo.

Um pouco como com a vida, dentro de dias faço 49 anos, já vou na correr para a segunda metade da corrida e, pelo que me parece, a passos largos.

Dispensava tanta velocidade, corro mais ano a ano que quilómetro a quilómetro e isso inquieta-me.

Inquieta-me, porque penso que o tempo fica curto, porque há tanta coisa que quero fazer, transformar, viver, que fico com a impressão que já não tenho tempo para tudo.

Gastei tempo mais do que devia ter gasto. O tempo é das poucas coisas que não se recupera, nesta vida, nem na outra.

Em Berlim, por esta altura, na maratona, também tinha essa noção, não ia conseguir cumprir o tempo definido.

O meu treinador, o José Carlos Santos tinha-me dito que “quando chegares à meia maratona reavalias o teu estado, se estiveres bem corres mais rápido, se estiveres cansado abrandas a velocidade”.

Como com a vida, eu sabia que ia estar cansado, que não ia conseguir ser mais rápido, afinal, tinha treinado tanto, tinha corrido tanto, sabia, sabia o que me acontecia ao corpo a partir das duas horas de corrida, sei o que me tem acontecido  enquanto homem grande, a partir dos 40 anos.

Sou mais maduro, sou mais responsável, sou mais consciente, mais experiente, sou intelectualmente mais evoluído, mas os quilómetros cansam, pesam nas pernas, vale o coração e a coragem, que isso só depende de mim. Isso leva-me onde quero, custe-me o que me custar!

Depois, passa uma música no Spotify - que na maratona, em Berlim, não usei o telemóvel, mas na vida estou sempre com os fones nos ouvidos - e sinto-me de novo com coragem para os quilómetros que faltam, embora se pudesse evitava-os.

Evitava, mesmo, mas não posso, nem na maratona, em Berlim, eu os pude evitar.

São uma obrigação, enquanto a respiração fica mais e mais ofegante.

Ninguém gosta de envelhecer, por muito que se convença que o passar dos anos faz de nós pessoas melhores. faz, é um facto, mas não gosto. Não nos torna, apesar de tudo, pessoas mais fortes.

É a lei da natureza, a seguir ao Verão vem o Outono.

“Papa Was a Rolling Stone”.

Ouço, lembro-me, sigo correndo e vivendo, enquanto vou cantarolando, para mim próprio, sem que ninguém mais ouça.

Em Berlim, por esta altura, em vez das duas horas e dez, já ia com duas horas e vinte.

Sabia que estes dez minutos a mais iam transformar-se no dobro, à medida que o cansaço se ia apoderando das minhas pernas, malditas.

O que não me passava pela cabeça é que em vez de correr mais vinte minutos do que o planeado ia acabar com mais quarenta.

Longe de mim imaginar as dores de alma e de pernas, até de braços, que ia sentir e que me impediam de ser tão “leve” quanto os meus companheiros e todos aqueles milhares que iam lá à frente, à minha frente.

Não podemos ser bons em tudo, somos bons em quse nada, nada.

Lembrei-me depois daqueles milhares que ficaram atrás de mim. Isso é um facto.

Uns partem, outros chegam, outros ficam a meio.

Seja como for, os planos sairam-me furados, naquele momento, neste moment, na meia maratona, em que tinha que reavaliar a minha corrida sairam furados.

Daqui a dias faço 49 anos, é na próxima terça feira.

Será um aniversário especial, por ser diferente dos outros aniversários.

Tenho-me lembrado da segunda parte da maratona de Berlim. Foi a partir daí que o meu sofrimento se tornou real, único e quase insuportável.

Espero que até terça não se-me massacrem os músculos, e que a partir de terça em diante se-me não massacre a alma, porque tenho mais uma meia maratona para correr, até ao fim da linha.

Filhos para ver, mulher para amar, pais para adorar, irmão para abraçar, amigos para sorrir-lhes.

Enquanto isso a voz negra continua a cantar “Papa Was a Rolling Stone” e é aí, nesse momento inspirador, que vou buscar a coragem, cerrar os dentes, ganhar forças inimagináveis, para seguir em frente, rumo ao fim.

Um dia, daqui a uns tempos, conto-lhe porque é que escrevi esta crónica desta forma e não de outra.

Entrámos no quilómetro 22!

 

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2 comentários

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De Jorge Quaresma a 10.11.2018 às 15:33

Porque se fosse escrito de outra forma, não era a mesma coisa....
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De The Cat Runner a 13.11.2018 às 09:59

És grande, "primo".
Forte abraço

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