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por The Cat Runner, em 25.10.18

O QUILÓMETRO 19 - GUARDO O TEU SORRISO NAQUELE LIVRO - ( DIA 76 DA MARATONA)

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Levei horas para começar a escrever este texto.

Como se as palavras me fugissem para longe.

Como se os dedos estivessem presos, asfixiados.

Como se a boca estivesse seca, em sofrimento.

Como se a cabeça estivesse fora do meu corpo, pendente numa memória qualquer.

Como se não quisesse escolher as palavras, com medo daquilo que elas me trazem.

Como um cobarde.

Levei horas para começar a escrever este texto.

Eu gosto de escrever enquanto escuto música.

A música guia-me as frases, endireita-me o pensamento, mistura-me os sentimentos, revolve-me, entranha-me, transforma-me e, enquanto escrevo, deixo de ser eu, passo a ser apenas um instrumento usado por aquilo que não consigo ser.

Como um cobarde.

Liguei-me ao Youtube e meti a tocar a música que mais me chocou, em toda a minha vida.

Nunca mais saí de dentro dela, nem ela de dentro de mim.

A mesma música que usei quando fiz a minha mais brutal Grande Reportagem, em Moçambique, onde voltarei, um dia, quem sabe. Eu sei, sei que sim. Voltarei.

Ir e voltar.

A vida obriga-nos a ir, faz-nos voltar.

A morte não, a morte é uma puta sem vergonha.

Ela leva pedaços de nós e não nos devolve mais.

Deixa-nos essa coisa chamada memória, que dói, que inquieta, ansiosa, que mente.

Passaram três anos.

A morte roubou-nos o João Paulo e eu não chorei.

Eu sabia que ele não queria que nós chorássemos. Eu não chorei.

Vou contar pela primeira vez, a primeira vez que não chorei a partida de um amigo, porque ele não queria que eu chorasse.

Este quilómetro vai ser doloroso, faz parte, já vamos nisto há dezanove quilómetros e uma maratona é um lugar para gente forte, não tem lugar vago para cobardes.

O João Paulo Vargas, o Vargas, é o culpado por eu ter começado a correr.

Conto rápido, que eu corro muito mais devagar que isto;

A minha mulher conhecia-o desde os tempos da Rádio Renascença.

Quis essa coisa chamada destino que nos cruzássemos todos lá na fábrica.

Ainda hoje, quando lhe disse que passaram três anos ela respondeu-me:

Penso nele quase todos os dias, sabes, quando vamos para o guarda-roupa, junto aos cacifos, estão lá fotografias dele coladas, olho para elas todos os dias”.

Para ser sincero, acho que todos nós passamos por ali, todos os dias, para olhar as fotografias do João Paulo, mesmo que a desculpa seja ir à máquina do café.

Foi ali, numa dessas noites longas, nesta longa maratona, quando eu ia para o guarda roupa, naquela altura em que eu era um gajo de valor que me detive à conversa com ele.

Já lá vão quase seis anos.

O Vargas tinha ganho uma batalha contra uma Leucemia grave.

Depois dessa batalha ele começou a correr, corria muito.

Falávamos muito, muitas vezes. Gostava de o escutar, de o ouvir, de olhar para o seu rosto enquanto ele me contava as suas histórias.

Já naquela altura ele corria os (agora tão na moda) trails de centenas de quilómetros, maratonas, meias maratonas, ele nunca me o disse, mas eu sempre achei que aquela era a forma de ele brindar a vida. Só os homens bons sabem fazer brindes à vida e detestam que chorem na sua morte.

Isso eu sei, já perdi tantos amigos, homens bons, já me levaram tantos pedaços meus, que isso eu sei, só eles sabem fazer brindes à vida.

Depois morrem. Todos morremos.

Não há nada mais democrático que a morte.

Enquanto escutava as histórias que o Vargas me contava ia pensando que “um dia vou ser como tu”, mas nunca lhe o disse.

Como um cobarde.

Uma dessas noites longas, na fábrica, que tanto marcou a minha vida, no bem e no mal, a fábrica guarda memórias de uma vida quase inteira, numa dessas noites o Vargas apareceu-me à frente com um livro.

“Gab, toma, leva, lê, este gajo é japonês, escreveu este livro que acho que vais gostar, devolves quando acabares, não tenhas pressa”.

O livro era de um dos maiores romancistas modernos vivo.

Haruki Murakami, escreveu uma dúzia de romances brutais, mas aquele era “o” livro.

“Auto Retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo”, contava a história de Murakami, a história que mudou a sua própria vida, a minha e, pelos vistos, a do Vargas.

O livro centra-se na mudança de vida do autor, quando deixou de ser dono de um bar e se dedicou a escrever livros.

Nesse livro, sobre as corridas dele, eu descobri tanta coisa bela que, correr, para mim, passou a ser outra coisa que não isso.

Nele, eu aprendi os cheiros, as cores, as paisagens, os sons, o suor que arde os olhos, o barulho da cadência dos passos, aprendi a que sabe o cansaço e a resiliência, a superação e a coragem.

Nesse livro aprendi a correr, a viver, a ser um homem um pouco melhor, embora longe ainda dos homens bons com quem tive a sorte de me cruzar.

Quando decidi correr a maratona, em Berlim, com tudo o que esta aventura louca envolveu - até morte brutal de mais um amigo, a morte, mais uma vez, e as corridas, e a vida -, a coisa que senti mais falta, confesso-o agora, que é o momento certo, foi dos conselhos do Vargas.

Ele dava-me muitos conselhos, sobre tudo, mas muitos mais sobre as corridas.

E, eu admirava-o imenso. Isso eu tive oportunidade de lhe o dizer e disse, muitas vezes, quase sempre, no fim das nossas conversas.

Ensinou-me, o João Paulo, muito mais que o “Auto Retrato do Escritor Enquanto Corredor de Fundo”, embora tenha sido um ensinamento que me guia todos os dias.

Dava-me conselhos, a mim, novato nestas coisas de correr, e eu seguia-os, tirava-me dúvidas, imensas, muitas delas patéticas, vindas de um gajo já com barba rija.

Não minto, durante os nove meses, que me custaram tanto, enquanto preparava a maior superação física da minha vida, pensei nele, no João Paulo vezes sem conta.

No que me tinha dito, aconselhado, elogiado, ele elogiava-me muito.

Os elogios vindos dele - ele era técnico de som, era um daqueles que, lá escondido na sua cabine, repara em tudo o que nós fazemos, quando estamos no ar...e fora dele - tinham um enorme impacto em mim.

Há Elogios e elogios.

Pensei no João Paulo muitas vezes, mas muito conscientemente quando, em plena preparação da maratona fui confrontado com a notícia trágica do assassinato de um amigo.

Sim, esse.

A morte.

Transversal.

Não fosse ela parte da vida, por muito que nos roube pedaços de nós.

A memória é que ela não leva.

Foi num sábado que soube da notícia.

Estava em Viseu, ia correr uma meia-maratona, daquelas em que cheguei a ser Embaixador Oficial.

O João Paulo também ia correr uma prova, longe dali, que ele não gostava do palco que nos expõe perante tudo e perante todos.

Era um homem discreto.

Foi num sábado de manhã, antes de descer para o pequeno almoço, que soube da notícia.

O João Paulo tinha morrido, a dormir, no hotel.

Não chegou a correr a última corrida de todas.

Hoje, ao escrever este quilómetro, que isto não é um texto, são quilómetros, pelo que aqui deixo de mim, pedaços, hoje reparo que a  morte já me chegou três vezes, ao sábado de manhã;

Chegou em forma de notícia fria, dura e cruel, porque é assim que tem que ser.

A notícia da morte do Mané, que vivia aqui no meu prédio e que era meu amigo de infância.

Apresentei notícias o dia inteiro, nesse mesmo dia, sem ainda hoje saber como.

A notícia da morte do Grilo, que foi a Rita que me avisou por mensagem, antes de dizer a quem quer que fosse, antes de dar a notícia, no noticiário da uma.

No dia seguinte errei o treino, falhei o que estava planeado e gritei enquanto corria.

A notícia da morte do Vargas, que soube pelo Facebook, antes da nossa corrida, a minha numa prova cheia de gente da televisão, a dele numa prova cheia de pessoas.

Corri essa meia maratona, mas ainda hoje não me recordo da chegada.

Apenas lembro a partida.

Nunca mais esqueci a partida, por ele leva sempre um pedaço de nós.

A morte é uma notícia que chega aos sábados.

Há tempos, dei conta que o livro que o João Paulo me emprestou desapareceu, não sei se o emprestei e se não me o devolveram, não sei se o perdi - os livros não se perdem -, não sei se ele também partiu.

Não sei.

Sei que nunca lhe devolvi o livro.

Tenho esperança de o voltar a ler.

Naquele livro guardo o sorrido do Vargas.

Foi por causa dele e daquele livro que eu me tornei corredor.

Gostava tanto que tivesses visto as minhas fotos com a camisola a dizer "I´m a marathoner".

Gostava tanto que tivesses visto aquela foto minha a abraçar a nossa Carla, como nunca o fiz.

Sei que ias adorar e sorrir.

Sei que ias sentir-te tão orgulhoso de mim, porque sei quanto gostavas de mim, de mim e da tua "Carlinha".

Ela disse-me hoje que pensa em ti quase todos os dias quando vai para o guarda-roupa, quando passa junto aos cacifos e vê as tuas fotos.

Hoje, João Paulo, hoje posso dizer-te que a culpa disto tudo é tua!

Havemos de nos encontrar outra vez.

Havemos de cumprir a nossa promessa de correr juntos e, nessa altura, prometo, devolvo-te o livro.

Entrámos no quilómetro vinte.

 

 

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publicado às 23:21



Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

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