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A fé move montanhas.

Eu cá vou muito pela sabedoria popular, muitas vezes.

Por algum motivo é sabedoria, embora seja popular.

A fé, disso também ninguém tem dúvidas, é uma palavra única, no entanto, ela é diferente de Homem para Homem ( se reparou, escrevi homem com H grande, no sentido de “ser humano”, pessoa, e não do género).

Cada qual tem a sua fé e a mais não é obrigado.

Quero dizer, às vezes até é obrigado a ir para lá da sua fé, mas isso são contas de outro rosário (estas contas estão relacionadas com a fé, não têm nada a ver com a matemática).

Decidi ir à Wikipédia ver a designação “oficial” de fé;

passo a citar:

“ Fé é a adesão de forma incondicional a uma hipótese que a pessoa passa a considerar como sendo uma verdade…pela absoluta confiança que se deposita nessa ideia”.

Portanto, a minha decisão de correr uma maratona foi um acto de fé, segundo a Wikipédia.

E, eu a pensar que tinha sido uma determinação.

Se calhar a fé é isso mesmo, uma determinação.

Acreditemos que sim, até porque um terço (que não os que servem para rezar, tendo por base alguma fé) do texto está escrito e não me dá jeito apagar isto tudo.

Estamos a correr uma maratona, não nos esqueçamos disso, nunca.

Isso é o fundamental.

Ora bem, estamos em pleno quilómetro dezoito.

Sabia lá eu que era fé, naquela altura, nem conseguia sequer pensar nisso, apenas sabia que estava a entrar a passos largos no período crítico da corrida, da minha corrida, e nem sequer estávamos a meio.

Pensei com os meus atacadores: qual fé, qual carapuça (cada um que enfie a sua), isto é mas é cerrar os dentes, pensar em tudo e mais alguma coisa, e dar ao stick, salve seja, que com ou sem fé tenho que acabar esta merda.

Até por uma questão de brio e de orgulho pessoal, que eu não sou de me ficar nos desafios, muito menos nos meus próprios desafios.

Eu se fui a Berlim correr a minha primeira maratona foi por mim, em primeiro lugar.

Era o que mais faltava, voltar para o Ribatejo como perdedor. Jamais, como diria o outro senhor, jamais.

Para ser (ainda) mais sincero, correr este quilómetro com base na fé era o mais fácil, bastava-me continuar a divagar e a agarrá-lo(a), salve seja, com a escrita, para que continuasse aqui a correr comigo.

Mas, se há coisa que eu não sou é falso, nem oportunista, nem cínico.

Não.

Puxei o tema da fé, para este quilómetro, por três motivos;

 

1- Foi um acto de fé correr esta maratona.

2- Sem fé (em mim) nunca teria abraçado a minha mulher, como nunca, nem chorado aquilo que chorei, muito menos, sem fé (em mim) alguma vez teria cortado aquela meta.

3- Há amigos meus (dos verdadeiros), gente séria e honesta nos sentimentos, sobretudo, que é gente de fé.

 

Este texto é dedicado a um desses amigos.

Eu tenho o privilégio de ter alguns amigos. É verdade!

Curiosamente, aqueles que me tratam por “meu amigo” são os que menos considero como amigos, porque aquilo soa-me sempre a asséptico.

Os que são meus amigos, conto-os pelos dedos, sei bem quem são.

Senão vejamos, um amigo é aquele que vai a Fátima - sem saber se acreditas em Deus, se tens religião, sem tens fé -, e em Fátima reza por ti, acende uma vela por ti, porque vais correr a tua primeira maratona.

O Paulo é um grande amigo.

Tem sido, sempre, desde que nos conhecemos.

O Paulo não tem nada a ver com as corridas.

O Paulo tem muito a ver com o afecto e com aquela capacidade ao alcance de poucos, a amizade incondicionalmente pura, sem interesses mundanos e materiais, sem procura de protagonismo, sem sequer me tratar por “meu amigo”.

O mais longe que o Paulo Silva vai é quando me trata por “Zézinho”, um diminutivo que me agiganta o coração, porque tirando o Paulo Silva, só a minha mãe me trata assim.

O Paulo é um homem de fé.

Foi a Fátima pedir por mim, pelo seu amigo, que ele sabe o significado da palavra.

Em Fátima acendeu uma vela, a vela que ilustra este texto, essa mesmo.

A fé do Paulo, na nossa amizade, em mim, é tanta que acordou bem cedo, naquele domingo já distante, para me acompanhar na corrida mais longa da minha vida.

Descarregou a aplicação oficial da Maratona de Berlim, sacou o meu número de dorsal e começou a seguir a minha corrida, desde o primeiro passo.

Reparei, depois, no Facebook, que ia comentando à medida que eu ia evoluindo na corrida.

Confessou-me, depois, pessoalmente, o susto que apanhou, precisamente, por ser meu amigo, verdadeiro.

Conto rápido,

Aliás, contou-me ele, já em Portugal:

Zézinho, apanhei um susto do carago, pá, então, segui-te durante os 42 quilómetros, Zé, e quando chegaste ao quilómetro 42 desapareceste da aplicação, desligou-se, apagou-se”.

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Respondi-lhe que devia ter sido algum bug.

“Eu disse à pessoa que estava comigo nessa manhã, queres ver que o meu Zé caiu antes de chegar à meta, mesmo no final, e não conseguiu terminar a maratona, óh pá, fiquei quase desesperado, Zé, em sofrimento, mesmo”.

Tentei que a gargalhada que dei não fosse ofensiva, era a última coisa que queria.

O Paulo (Silva), que acendeu uma vela por mim, tinha perdido, por momentos, a sua própria fé.

Na verdade, tinha-se esquecido dela, apenas, momentaneamente.

Descansei-o.

A explicação era simples;

“Paulinho, fizeste-me rir, pensaste que eu tinha caído a 195 metros da meta e por isso tinha deixado de ser rastreado pela aplicação?

Nem que eu fosse sem pernas, a arrastar-me, meu querido, nem que eu fosse morto, fosse eu como fosse, havia de passar aquela puta daquela meta”, disse-lhe.

maratona.jpg

 

Ele esboçou um sorriso, que eu sei que sim.

E, eu conclui:

“A vela que acendeste por mim resultou, meu querido.

Eu não caí.

A aplicação é que deixou de fazer o tracking a partir do quilómetro 42, desligou-se, para ela a maratona acabou ali. Nem tudo é perfeito, na tecnologia, nem na vida, meu amigo”

Usei a expressão “meu amigo”, de propósito, porque entre amigos verdadeiros não há falsidade.

A nossa amizade é assim.

A amizade é assim. É amizade!

E, por falar em fé, eu quem nem sou dessas coisas da religião, mas sou das coisas da fé, tenho vontade de acabar este texto com um “até amanha, se deus quiser”, para manter a actualidade fútil da polémica estéril, porque às vezes também sou sacana de um pecador.

"Até amanhã, se deus quiser"!

Entrámos no quilómetro dezanove.

 

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