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Pode até estar a rir-se por causa do título que escolhi.

Ria-se à vontade.

Acontece que, eu, eu que escrevo, eu não minto.

Há, sim, há semelhanças entre este seu servo e um atleta queniano, daqueles que correm à velocidade do som.

Claro que há semelhanças.

A planície, eu sei que apesar de haver montanhas sólidas e quase intransponíveis em África, a fome, a pobreza, a doença, há tantas, eu sei, mas sei que apesar dessas montanhas que me provocam raiva e desolação, também sei que é na planície que a vida se dá, a sobrevivência acontece, o sol torna ouro o fim do pote, onde acaba o arco-íris e começa a felicidade.

É nessa busca que vamos para Berlim.

Os “Corredores do Arco-Íris”.

Não vamos em busca do pote de ouro, porque acreditamos que dentro desse pote, no fim desse arco-íris há a felicidade, a mesma que os corredores quenianos mostram nos seus dentes imaculadamente brancos, enquanto correm.

Nunca, jamais, eu conseguirei correr um metro que seja aquela velocidade mas, uma coisa me une a essa gente, a planície.

Só que vive na planície sabe o que ela encerra em sim mesma.

A Lezíria ribatejana (não há outra, mas gosto de sublinhar as minhas raízes) é, provavelmente, a maior planície acima do Alentejo, onde se confundem as cores, os sobreiros, os touros e os cavalos.

Há algo de África na extensão da planície e só isso me liga aos quenianos, isso e o facto de correr, eu e eles, debaixo de um sol brutal.

Tudo o resto é ficção.

Eles correm um quilómetro em três minutos e pouco, eu demoro mais do dobro.

E, ficamos por aqui.

É nessas alturas que me sinto queniano, quando corro e o sol me queima os ombros, me seca a boca. O mesmo sol que me aconchega, reconforta.

Tenho a pele morena, queimada por esse sol.

A maior diferença entre mim e eles nem é, propriamente, a velocidade.

É o rio.

Eu tenho um rio que divide a planície da minha cidade e corro nas duas margens.

Haverá maior privilégio que correr nas duas margens de um rio?

Lamento, amigos quenianos, em Berlim - adorava que sim - até podem bater novo recorde do mundo (já se bateram dez recordes na #berlim42), mas o rio é só meu.

Como o rio corre para a foz, em mais do dobro do tempo, também eu irei chegar, ao ponto de onde parti.

Espero ver-vos por lá.

Por agora devo dizer-vos que, finalmente, fiz a minha primeira corrida, desde há nove meses, na qual desfrutei do princípio ao fim.

Há muito tempo que não acontecia.

Fora nove meses de sacrifício, pouco prazer.

Esta semana, assim estava definido, serve para relaxar.

Não é que isto bate tudo certo?!

Até já corro dez quilómetros abaixo de uma hora.

Faltam apenas dois treinos antes do grande dia.

Um treino em Portugal e o último já em Berlim.

Espero que os dois corram como este último.

O último será memorável, na cidade das cidades.

Berlim encanta-me, desde sempre, por isso a escolhi para me receber nesta aventura quase maquiavélica.

Há tanto tempo que não fechava os olhos, sem dores, sem desconforto.

Forte, suado, feliz.

Fechei os olhos e deixei-me ir.

Voltei a sentir o prazer de correr.

Em Berlim, dificilmente, os quenianos vão bater o recorde do mundo.

Eu vi um documentário com 3 dos melhores corredores do mundo, nesse documentário eles treinaram exclusivamente para fazer a maratona abaixo das duas horas.

Está para nascer esse super-homem.

Nem sequer se aproximaram das duas horas e um minuto. É, quase, humanamente impossível.

O recorde do mundo está nas duas horas e dois.

Isso, eles correm a maratona em duas horas e dois, eu corro em quatro horas e meia.

No fim eles estarão felizes.

Eu também.

Até aqui sou parecido com os corredores quenianos.

Acho que eles iam adorar conhecer a minha Lezíria.

Acho que eles iam adorar aqui correr.

Enquanto isso não acontece, espero vê-los em Berlim, no fim, nem que seja na televisão.

Porque quando eles acabarem de correr eu ainda irei a meio, se deus quiser ( se existir).

Prometo não desistir, eles nunca desistem

E, eu cumpro sempre as minhas promessas.

 

 

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