O Pacote de Bolachas Com Sabor a Humanidade

A fila do supermercado é um daqueles lugares onde a vida, em toda a sua brutalidade e beleza, se revela.
É um microcosmo de pressas, sempre com um motivo superior, sacos com almas, que se esquecem e de gente que conta moedas.
Há quem resmungue, quem sorria e quem se perca nos pensamentos.
Numa destas tardes, com a pressa a querer levar-me, reparei na senhora atrás de mim. Olhei-a sem que notasse.
Tinha a idade da minha mãe, muito provavelmente.
A forma como segurava a sua pequena cesta, os cabelos brancos cuidadosamente presos e o olhar sereno fizeram-me recuar no tempo, numa memória doce.
Puta da saudade repentina.
Foi um impulso, desses que nos resgatam da pressa, que me fez convidá-la a passar à minha frente.
Ela sorriu.
Um sorriso sincero, de quem não espera nada de ninguém e recebe tudo com a leveza dos que já viveram muito.
Afinal há cavalheiros, disse-me.
Limitei-me a dar-lhe o meu sorriso, sei lá eu de onde o fui buscar.
Despedimo-nos com um aceno de cabeça e, quando saí, o acaso quis que eu a visse, mais à frente, na rua.
E o que vi deixou-me sem palavras.
Parou. Não hesitou.
Junto ao passeio, ela com um em no braço esquerdo, do lado do coração, uma outra mulher, com a mão estendida, aguardava por uma migalha de atenção, ou esperança, ou de humanidade.
A senhora, de cabelo branco-vida abriu o saco do lado esquerdo, tirou um pacote de bolachas outro de leite e, em silêncio, entregou-o à mulher.
Não houve palavras, nem grandes gestos.
Apenas um olhar que continha dentro dele a história de duas vidas, unidas por um breve instante de partilha. Como as coisas podiam ser tão bonitas, assim...
A humildade do gesto tocou-me profundamente, mas meta mente no profunda.
Naquele pacote de bolachas, não havia apenas comida, havia amor, havia reconhecimento, havia a certeza de que somos todos um no outro.
A senhora não deu apenas uns pacotes, ofereceu um memória:
a nossa humanidade não está nas grandes obras, mas nos pequenos gestos, nos sorrisos que damos e nas mãos que estendemos.
Naquele dia, a fila do supermercado foi muito mais do que a contagem de moedas ou a pressa de chegar a casa.
Foi a sala de aula onde, mais uma vez, aprendi uma das lições mais importantes da vida.
