Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

05.08.25

O Pacote de Bolachas Com Sabor a Humanidade


The Cat Runner

blog.jpg

 

A fila do supermercado é um daqueles lugares onde a vida, em toda a sua brutalidade e beleza, se revela.

É um microcosmo de pressas, sempre com um motivo superior,  sacos com almas, que se esquecem e de gente que conta moedas.

Há quem resmungue, quem sorria e quem se perca nos pensamentos.

 Numa destas tardes, com a pressa a querer levar-me, reparei na senhora atrás de mim. Olhei-a sem que notasse.

Tinha a idade da minha mãe, muito provavelmente.

A forma como segurava a sua pequena cesta, os cabelos brancos cuidadosamente presos e o olhar sereno fizeram-me recuar no tempo, numa memória doce.

Puta da saudade repentina.

Foi um impulso, desses que nos resgatam da pressa, que me fez convidá-la a passar à minha frente.

Ela sorriu.

Um sorriso sincero, de quem não espera nada de ninguém e recebe tudo com a leveza dos que já viveram muito.

Afinal há cavalheiros, disse-me.

Limitei-me a dar-lhe o meu sorriso, sei lá eu de onde o fui buscar.

Despedimo-nos com um aceno de cabeça e, quando saí, o acaso quis que eu a visse, mais à frente, na rua.

E o que vi deixou-me sem palavras.

Parou. Não hesitou.

Junto ao passeio, ela com um em no braço esquerdo, do lado do coração, uma outra mulher, com a mão estendida, aguardava por uma migalha de atenção, ou esperança, ou de humanidade.

A senhora, de cabelo branco-vida abriu o saco do lado esquerdo, tirou um pacote de bolachas outro de leite e, em silêncio, entregou-o à mulher.

Não houve palavras, nem grandes gestos.

Apenas um olhar que continha dentro dele a história de duas vidas, unidas por um breve instante de partilha. Como as coisas podiam ser tão bonitas, assim...

A humildade do gesto tocou-me profundamente, mas meta mente no profunda.

 Naquele pacote de bolachas, não havia apenas comida, havia amor, havia reconhecimento, havia a certeza de que somos todos um no outro.

A senhora não deu apenas uns pacotes, ofereceu um memória:

a nossa humanidade não está nas grandes obras, mas nos pequenos gestos, nos sorrisos que damos e nas mãos que estendemos.

Naquele dia, a fila do supermercado foi muito mais do que a contagem de moedas ou a pressa de chegar a casa.

Foi a sala de aula onde, mais uma vez, aprendi uma das lições mais importantes da vida.

 

 

4 comentários

Comentar post