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O HOMEM SEM CABEÇA ( DIA 40 DA MARATONA )

por The Cat Runner, em 14.08.18

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Aproxima-se aquele que é, provavelmente, o dia mais simbólico da minha idade adulta.

Entrámos na recta final.

Aposto que a ansiedade já se apoderou de todos os que pertencem à nossa equipa.

Isso, somos uma equipa, em nome da amizade pura e das cores do arco-íris.

Até temos um nome, somos os Rainbow Runners.

Somos mesmo e somos amigos puros, todos os onze que vão conquistar o coração de Berlim, onde há um arco-íris só nosso.

O tempo passou tão depressa e eu sinto-me cansado.

É de revolução que falo.

Auto-revolução, porque há desafios do caraças.

Ponha-se no meu lugar, nos últimos oito meses aquilo que mais tive foi dores nas pernas treino após treino. Mas eu acredito que a amizade pura faz milagres, acredito que não ficarei assustado como ontem à noite.

Saia do meu lugar, porque isto não é uma queixa, é um facto com que eu já contava.

Só o (a) convidei para se colocar no meu lugar para sentir um bocadinho, só isso.

Depois do treino longo, que devia ter acontecido no domingo - não posso falhar um treino sequer, falhei o dia, agora tenho que compensar- dei comigo a pensar:

“ acabei de treinar uma meia-maratona, mais uns pózinhos, as pernas clamam, como é que vou correr o dobro?”.

Desanimei, confesso.

No caminho para casa reflecti.

Na verdade não fiz tempos muito diferentes do habitual, na verdade as pernas continuam quentes, muito quentes, mesmo, por dentro, cá dentro, mas há dois dados novos que são importantes;

A recuperação foi muito diferente, para melhor.

A outra outra que me animou;

Não acabei cansado.

As minhas pernas sim, eu não !

Durante quase vinte e quatro quilómetros, a mais longa corrida que já fiz, percebei muito melhor o meu corpo, as diferenças, aquilo com que vou contar.

Nessa reflexão,

Estou consciente que esta carga ( que eu julgava inimaginável) há menos de oito meses, esta carga que as minhas pernas carregam há oito meses, de forma permanente, umas vezes menos, outras mais, vai ser-me extremamente útil durante as quatro horas e meia, o tempo que gostava de fazer na minha primeira ( e provavelmente a única) maratona.

Porque a ideia é que todo este desconforto que me queima os músculos esteja bem longe de Berlim, no domingo, dia 16 do mês que vem, e o meu pavor começou a dissipar-se.

Como que em um filme vejo-me leve, solto daqui a cinco semanas.

É assim,

As últimas duas semanas são tão importantes quanto todas as outras vinte e oito semanas que é o tempo que demora esta aventura.

Nessas duas últimas semanas os treinos vão ter como objectivo retirar-me toda a fadiga das pernas, mantendo a condição adquirida ao longo destes duros, austeros, desafiantes e brutais meses.

Aqui entra outra barreira que tenho vindo a derrubar - e têm sido imensas, acredite, era assim que eu imaginava esta espécie de doce penitência -, os meus dois companheiros de aventura estão de longe em melhor forma do que eu, até porque já têm várias maratonas nas pernas.

Incomoda-me obrigá-los a correr cada quilómetro em seis minutos e meio, quando qualquer um deles o corre em cinco minutos.

Eles vão com esse propósito ( não só mas também ), ajudar-me e estar a meu lado, mas incomoda-me porque esta corrida seria fantástica para eles, se não fossem ao meu ritmo.

É uma barreira que será quebrada, já quebrei outras, como correr sem dores nas pernas a mando apenas do sub-consciente, sem qualquer dor, na verdade, mas com a sensação que as tinha, às dores.

Em outras corridas mandei-os embora, para fazer a corrida ao meu ritmo.

Em Berlim não.

Em Berlim quero-os ao meu lado.

São eles as asas que me vão fazer voar, porque eu acredito que a amizade pura faz milagres.

Passei de assustado ao estado oficial de crente.

Eu creio na corrida.

Eu creio na amizade.

Os milagres só existem nas nossas cabeças, mas existem.

A não ser que não tenha cabeça.

This is crazy !

 

 

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