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por The Cat Runner, em 14.01.18

O DIA EM QUE ME TORNEI ADULTO... ( DIA 4 DA MARATONA )

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Sábado, o dia em que me caiu a ficha.

Sábado, o dia em que me fiz adulto, ao fim de tanto tempo.

Adormeci às quatro da manhã, com a mesma dor de cabeça que arranjei por volta da uma da tarde de sexta feira.

Na sexta feira, já aqui o contei, fiz uma viagem pelos últimos 18 anos da minha vida.

Uma viagem que adiei durante toda a semana, em que as fotografias esperavam ansiosamente na timeline do meu computador. Fui fugindo, até ao limite.

Foram seis horas seguidas a editar um vídeo, para mostrar à família, na noite de Sábado, antes de irmos jantar, para comemorar a "idade adulta" daquele ser humano, o mais maravilhoso dos seres humanos.

Ou seja, tive um dia e uma noite que mexeram profundamente comigo, um daqueles momentos, comigo funciona assim, em que o corpo perde toda a capacidade de resposta e a cabeça toda a vontade.

Atropelado por uma manada de elefantes imaginários.

Nostalgia o revisitar o amor, uma catarse foi de certeza.

Por isso pedi ajuda.

"Acorda-me às dez e meia, que ainda não fiz o quarto treino da semana, e isto é igualmente sério...".

Isto é a tal decisão que tomei na mudança do ano;

preparar-me para correr a primeira maratona da minha vida.

Estou obrigado, para além de manter um regime alimentar específico, mais sessões de massagens, a treinar quatro vezes por semana.

Sou obstinado, só que por força de me deitar sempre tarde, nunca treino no ginásio aos Sábados. 

À hora a que acordo já eles estão todos a almoçar.

Não foi preciso acordar-me, quando a Carla entrou no quarto já eu estava a ver o que estava a acontecer lá fora, no mundo.

Não tinha muito tempo, na verdade.

O ginásio fecha à uma da tarde, aos sábados, e tinha que ir buscar os miúdos a Vila Franca, para almoçarmos, e tinha ainda um pequeno almoço para tomar.

Confesso, não gostava de treinar depois de comer, nunca gostei, aliás, na minha antepenúltima meia maratona, desisti ao quilómetro onze depois de passar metade da corrida a vomitar, por ter tomado um leve pequeno almoço.

Foi a primeira e única vez em que desisti numa corrida, e isso ainda hoje me serve de lição.

Aviei uma bebida de arroz com Nespresso, uma torrada de pão escuro, com queijo fresco e fiambre de perú, mais um café e lá fui.

Tinha que ir, não só porque me faltava um treino semanal, mas porque precisava de ir.

No Sábado a ficha desligou-se.

No Sábado, confesso sem vergonha, tornei-me adulto.

Pai do menino.

E, precisava de confrontar a inércia do corpo com a sua própria existência, e matar o monstro.

O meu plano de recuperção proíbe o uso dos gémeos, aquelas duas bolas que temos na parte de trás das pernas, abaixo dos joelhos. Por essas bandas está tudo a recuperar dos excessos e dos estragos.

Por isso, trabalho o core, à base de TRX (uma espécie de elásticos que permitem usar o peso do próprio corpo nos exercícios), de abdominais e pranchas, trabalho braços, tronco, zona abdominal, tenho também um esquema de alongamentos, de tal forma exigentes, que precisei tirar uma foto para a consultar sempre que treino, tal é a especificidade.

Há também o trabalho de pernas - nada de gémeos -, fortalecimento de pernas.

Agora, agora já percebo aqueles posts nas redes sociais quando a malta publica as fotos do ginásio com a legenda "legs day", como que a gritar; socorro que me dói tudo.

Não, nunca na vida tinha feito este tipo de trabalho tão específico.

Porra, o Sábado foi dia de fortes emoções, o meu filho tornou-se um homem, os Xutos anunciaram que vão continuar, e fiz trabalho de pernas.

Parece coisa pouca, também eu achava o mesmo.

Quanto aos agachamentos com pesos, perdi-lhes a conta, numa perna, noutra, nas duas, quando à maquina "leg extention" e "leg curl", esqueçam.

Tinha que fazer quatro séries em cada perna, fiz duas, mas informei o treinador, via email.

Era assim: uma perna de cada vez, 30 repetições sem peso, um segundo para cima, cinco segundos para baixo.

Na segunda série diminuia o número de vezes, mas aumentava 5 quilos. 

Assim até às 15 repetições, 30, 25, 20 e 15.

Fiz duas.

As pernas termiam por todo o lado.

Estive nisto duas horas.

O relógio da torre batia as 13 badaladas, a cinderela tinha que ir tomar banho e já nem sequer tinha tempo para alongar.

Alonguei em casa, antes de irmos almoçar, já debaixo de uma pressão de uma adolescente esfomeada, de um (já) adulto esfomeado e de uma adulta, na plenitude, também ela esfomeada.

Ao almoço até correu bem, sentei-me, comi, ri, conversei.

Sim, perguntei ao treinador se podia comer pézinhos de coentrada, até porque à noite tinha o jantar de aniversário, em família.

"Podes, diverte-te", respondeu-me, com um smile.

Bebi cola zero, que de vez em quando posso beber, mas só zero.

Não violei, totalmente, o plano alimentar, só um bocadinho, até porque treinei, até porque encontrei a minha nutricionista a treinar e trocámos umas palavras.

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Foi ao fim do dia que comecei a sentir dificuldades em sentar-me e em levantar-me. Juro.

Um dia depois, hoje, Domingo, e já são quase onze da noite, sinto-me com propriedade, como diz o outro, para publicar uma foto com a legenda "legs day".

Pena que não tirei foto alguma, só a do ginásio já vazio, em hora de fecho.

Mas, uma coisa garanto, tenho extremas dificuldades em sentar-me e em levantar-me, o chamado andar novo.

Ainda pensei fazer uma banho de sal marinho, receita do meu amigo Francisco, mas preferi estar 90 porcento do dia no sofá, com a minha gata aos pés.

Tenho esperança que amanhã, quando voltar ao treino, consiga fazer trabalho de core e de braços.

Os abdominais e os membros superiores deste corpinho (quase danone) estão porreiros, mas da cintura para baixo parece que fui fustigado por uma força invisível.

Eu achava que a  malta que publica as fotos do treino com a legenda "no pain no gain" estava a exagerar.

De longe.

"No pain, no gain".

Sei que é preciso capacidade de sofrimento, força interior, mental, força física, para preparar uma maratona, mas porra, eu nem sequer ainda comecei a correr, só estou a recuperar as pernas.

Neste estado, também não tinha qualquer hipótese de correr um metro que fosse, por isso, sentei-me na esquina da lareira, enquanto toda a gente já se tinha acomodade nos sofás da sala.

A lareira estava acesa, os corações estavam afagados, tinhamos um filme para ver, uma viagem para fazer.

Tive que me sentar para ligar o computador à televisão, e optei por dali não sair, do canto da lareira que fica junto ao móvel onde está a televisão, dada a dificuldade em sentar-me e em levantar-me.

Pedi para apagarem a luz.

Sorrimos e chorámos, juntos, em silêncio.

No fim do filme, o meu menino, agora homem, veio abraçar-me e devolveu-me a paz que procurei naqueles vinte minutos de filme.

Desliguei a ficha.

Naquele instante, naquele abraço, tornei-me um adulto, o meu filho também.

Só as dores nas pernas não me passaram.

 

 

 

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publicado às 21:46


4 comentários

De Anónimo a 14.01.2018 às 22:15

Para além da tua preparação física, onde certamente vais obter em breve os desejados resultados, pois tens um "background" Pro, o lado emocional, só depende de ti e nesse aspecto és um "animal de puro sangue", combatente e habituado a grandes vitórias. Vitórias, hoje...perpendicular a esta preparação, os 18 aninhos, que abalam qualquer Pai ou Mãe; neste caso um Pai...como salientas a "ficha" saltou, desligou; como te percebo; nem que estejamos a preparar-nos para esse dia, nunca estamos verdadeiramente cientes disso; o emocional fala mais forte; afinal são os nossos filhotes. Continuo a acompanhar esta tua odisseia, na certeza que o resultado será uma vitória antes de tudo Tua, pela persistência e real valor que tens.

De The Cat Runner a 15.01.2018 às 20:05

É aquilo a que chamamos vida, e a vida é feita de desafios...:)
Abraço

De Anónimo a 14.01.2018 às 23:05

A idade é um marco... Algo que nos pára, nos situa cronologicamente perante a vida e diante do mundo. Mais do que um número aborrecido, que seja a convicção plena de maturidade, de absorção e de certeza, crendo eu pela forma como falas dos teus filhos, esse patamar é apenas matemático. O resto, já eles o serão há muito diante dos vossos olhos. Um abraço e... Felicidades! Nuno Martins.

De The Cat Runner a 15.01.2018 às 20:05

Grande obrigado, penso igual.

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Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

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