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O BATER DO CORAÇÃO

Domingo, 03.05.15

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Directo ao assunto.

O tempo ou aquilo que ele nos diz. Diz-nos tanto.

Diz-nos, por exemplo, sobre a saudade, sobre a distância, sobre as histórias, sobre as pessoas e os lugares. O tempo diz-nos sobre nós.

Eu escrevo muito sobre corrida e gosto imenso de publicar fotos que tiro durante as corridas. Mas, eu não sou, como é público, um corredor daqueles!

Por isso estou constantemente a aprender a correr.

Há dias, um médico teimava comigo que o meu patamar de treino era a cima das 150 batidas por minuto (bpm).

Eu insistia que não. Não sabia, mas de certeza que não. Em repouso ando nas 80 bpm e em esforço não devo passar das 120.

Ele insistia. Eu também.

Ele convenceu-me com a explicação:

- " Tens 45 anos, o teu patamar de treino, para teres resultados, tem que estar para lá das 150 bpm. Compra o relógio. Programa-o entre as 125 e as 150 bpm. Estou à distância de um telefonema ou de um sms. Depois informa-me como foi a corrida".

Eu gosto de gadgets. É quase mórbido.

Há muito que pensei comprar um relógio que faz tudo, menos correr.

Nunca o comprei porque gosto de correr com o meu iPhone e ele faz tudo, menos correr.

Mas, foi uma coisa que esteve sempre latente. Sempre resisti à tentação.

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Até dava um certo estilo à corrida. (Uma pessoa gosta de correr giro).

Engraçado, o tempo marca o ritmo do coração, as passadas e os passos, no pulso, na alma, na saudade, que fica lá atrás, a cada metro corrido.

Gostava que o tempo fosse meu aliado.

Como diz Michael Altshuler, as más notícias é que o tempo vôa. As boas notícias é que tu és o piloto.

Mas, não te iludas. Podes conduzir o tempo, até ao tempo que ele se permite ser conduzido.

E tem tudo a ver com o coração, as bpm. O tempo.

Conta-se uma história sobre o tempo - corre-se durante o tempo -.

Um homem trabalhou muito na vida e fez fortuna. Um dia decidiu parar e viver uma vida de luxo. Ele podia pagar essa vida. Julgava poder pagar o tempo. O tempo corre.

Quando tomou a decisão recebeu a visita do anjo da morte.

Tentou negociar. Comprar mais tempo. O anjo da morte nem vacilou.

O homem, desesperado, fez ao tempo uma última proposta:

- " Quero viajar à volta do planeta, passar algum tempo com a minha família e com amigos, com amigos que não vejo há muito tempo. Dou-te toda a minha fortuna. Dás-me um pouco do teu tempo".

O anjo da morte recusou.

- "Dá-me, então, um minuto, para escrever uma carta de despedida".

O anjo da morte anuiu com a cabeça.

E a vida correu rápida, como nunca a vira correr. Um minuto dura para lá de qualquer carta de despedida.

O anjo da morte não tinha tempo para vender.

Não sei o que o homem escreveu na carta de despedida, provavelmente qualquer coisa como:

Aos meus amigos, à minha família, obrigado pelo vosso tempo.

Como não precisava de um relógio de alta tecnologia, design fashion e caro como os cornos da cabeça de um touro bravo, optei por seguir o conselho do médico e comprei um destes, bem mais barato.

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O outro tinha que ligar o bluetooth ao iPhone, gastava mais bateria e custava dez vezes mais.

Este tem horas, dá o tempo, as bpm, dá o tempo e cronómetro, dá o tempo.

Corro todo artilhado. O iPhone tem música, mostra os quilómetros, as distâncias, as fotos, às vezes, raramente, até atende chamadas. Só não me soprava ao coração.

Este até tem uma banda que escuta o meu coração.

Agora sei como ele bate. À minha maneira. Como eu quero, quando eu quero.

O meu coração é comandado por mim.

Eu comando o meu próprio tempo.

São 150 bpm.

Pouco, afinal, diz o relógio.

O relógio que me marca o tempo. O tempo que marca o coração.

Vou acelerar o tempo e o coração.

Tenho pouco tempo. 

Corro contra o tempo e sei que ele me vai ganhar!

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por The Cat Runner às 00:40


1 comentário

De Amora.is a 09.05.2015 às 01:36

A questão do BPM tem muito que se diga. É importante conhecer teu batimento em repouso, ao acordar, ao deitar, ao trabalhar e claro no exercício ( como a corrida).
Meu batimento anda sempre entre 50/60, tirando picos de stress no trabalho que sobe aos 70/75/80. Agora em corrida.. Atingo os 180 na boa. Qdo medi pela primeira vez assustei-me mas médico tranquilizou me pois qdo término a corrida em 3/5 min fico com 90 de pulsação e ao fim de 10 min já estou no meu normal. Outra coisa tenho tensão baixa. Mas vai na volta meço em esforço :) A colheita de 75 já têm de ser mais vigiada. Beijos e continuação de bons treinos

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