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por The Cat Runner, em 04.09.18

O AMOR EMOCIONA-ME ( DIA 47 DA MARATONA )

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Hoje emocionei-me enquanto corria.

Foi a primeira vez que voltei ao jardim, onde me cruzei, pela última vez, em vida, com o meu amigo.

Não foi fácil, de todo.

Deixei o carro no parque de estacionamento, equipei-me no balneário do pavilhão do meu União, onde costumava equipar-me antes dos treinos de Muay Thai, na “casinha” ( vou voltar, muito em breve ).

Como sei que o balneário está sempre aberto, pimba, fui lá trocar de roupa.

Cenas…

Foi depois, foi depois que a coisa me tocou, junto ao portão que liga o jardim, onde cresci, ao passeio ribeirinho.

Foi naquele pedaço de chão que o vi, com vida, pela última vez.

Foi ali que trocámos as últimas palavras.

Esta merda teima em não me sair da cabeça!

Talvez, por isso, as pernas se tenham recusado a avançar.

Pesadas, como há nove meses, mas sem dor.

Mandei uma mensagem ao meu treinador, assustado.

Estou a semana e meia de concretizar um sonho, a aventura mais louca da minha vida e, as pernas recusaram-se a ir.

“ Vai as massagens. Isso também faz parte do medo cénico”, respondeu-me, com um smile no fim.

Acredito no José Carlos Santos até ao fim do mundo.

Foi ele que pegou em mim, me recuperou, me guiou, me treinou, me deu todo o apoio, foi ele que acreditou em mim, nestes nove meses.

Em Berlim, também corro por ele, porra, em Berlim corro por tantos e por tantas, que acho que me posso dar por feliz, mesmo que tenha outros sonhos por cumprir, ainda.

Hei-de cumpri-los, todos.

Obriguei-me a esquecer as memórias e segui viagem.

Um treino de uma hora e um quarto já não me assusta, por isso, por isso decidi correr rápido, o mais que conseguisse.

E, consegui, cheguei a andar abaixo dos cinco minutos por quilómetro, dá pica, desde que haja a consciência que não correrei a maratona, nunca, naquele ritmo.

Eu tenho consciência das minhas limitações.

Fui focado, as pernas começaram então a aliviar - é sempre assim, ao fim de meia hora - e comecei a sentir-me forte, mesmo forte.

Se, normalmente, há uns meses, fazia quinze quilómetros em uma hora e quarenta, hoje fiz treze quilómetros em uma hora e um quarto.

O trabalho de casa está feito, as rampas, as séries curtas, as séries longas, os quilómetros carregados nas pernas, mais e mais, as longas, passei isto tudo até chegar aqui.

E cheguei!

Dizia-me o Marcos Pinto, com quem me cruzei na volta, “emocionaste-te? Vais emocionar-te é quando cortares a meta e abraçares a tua mulher e os teus filhos”.

O Marcos é um bacano.

Não o via há mais de um mês.

Almoçámos juntos antes de ele ir de férias.

Vi-o no passeio ribeirinho, a meio da corrida.

Costumava-o ver todos os dias, na TVI.

Já lá não vou há bastante tempo.

A sério, deviam correr, a corrida é tão, mas tão mágica, que não imaginam a quantidade de coisas que acontecem nessa janela de tempo.

O Marcos respondia-me, porque eu lhe tinha dito que, momentos antes me tinha emocionado.

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Estes dias longos tem sido dias de muita ansiedade, de muita expectativa, de muita esperança, de alguma dor, têm sido dias muito difíceis de gerir, para mim, pelo que tenho a emoção à flor da pele.

Da pele?

Do coração, da alma, das pernas, do rosto.

Ando muito sensível, mas aguento, tudo, até as notícias que me chegam, por causa dos tipos com várias caras.

Castigar-me?

Nunca terás essa possibilidade, porque nunca correste a meu lado.

Não sabes o que é sofrer para lá chegar.

Tem sido complicado gerir tudo emocionalmente, a maratona, a morte do meu amigo, os treinos, os outros problemas que não torno públicos, tudo tem sido duro.

Estou de baixa desde Março, porque estava no limite.

Durante este tempo aprendi a olhar a vida à minha maneira.

Tudo o que me verga, não me consegue partir.

Costumo usar esta expressão, acab por ser o meu mantra.

Torna-me forte, perante a gente com várias caras, perante as adversidades, porque correr é isso tudo, também.

E, vou correndo.

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A correr, dei de caras - não é a primeira vez - com os peregrinos, na sua caminhada de fé.

Esses sim, gente de coração grande, ao contrário de outros que conheço, gente rasteira, de coração pequeno.

Nada fácil, deixar as emoções transformadas em pernas presas, lá atrás, no portão do jardim, onde nos vimos pela última vez e, mais à frente levar com aquele banho de humildade, de humanidade.

Fotografei o momento, depois de pedir autorização.

Os peregrinos fazem o mesmo caminho que eu, por isso os encontro, de caras, algumas vezes.

Eles têm uma cara, os rasteiros têm várias.

Nunca caminharão mais do que um passo no lodo em que vivem.

Tirei o retrato e continuei, mais rápido, mais forte, juro.

Estou mais forte.

Cruzei-me com eles durante quase todo o caminho.

Eles não repararam, mas levava os olhos molhados de sal.

E, sorria-lhes.

No meu sorriso alguns repararam, que eu vi.

Sorri com ternura, com afecto.

Afinal, eles e eu, em caminhos cruzados, em direcções contrárias, ali passámos, atrás de uma fé só nossa.

Cada qual tem a sua.

É como as caras.

Uns têm uma.

Outros têm várias.

A minha revela aquilo que sou, aquilo que serei.

Serei um maratonista, um peregrino, como aqueles que me emocionaram.

Porque é de fé que se trata.

O amor emociona-me.

O amor só emociona aqueles que sabem amar e sorrir, aqueles que só têm uma cara.

Depois, meti-me no carro, cheguei a casa, e abracei os meus filhos.

Estou pronto!

 

 

 

 

 

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publicado às 23:40


2 comentários

De Ana a 05.09.2018 às 09:33

Um autêntico relato de fé. Força.

De The Cat Runner a 07.09.2018 às 18:46

Nunca imaginei ter o afecto e o apoio de tanta gente. Chamemos-lhe fé, ou outra coisa qualquer. Certo é o meu agradecimento.

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Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

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