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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

20.04.18

"NUNCA SERÁS JORNALISTA" ( DIA 18 DA MARATONA )


The Cat Runner

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Eu sei como as pessoas olham para esses doidos que andam por ai a correr.

Sei, porque também olham para mim, à minha passagem.

São milhões, para que não haja dúvidas, milhões de loucos, que correm em todo o planeta.

O meu Instagram apresenta-me todos os dias corredores da Nova Zelândia, da Colômbia, dos Estados Unidos, da Suécia, do Japão, todos os dias, quando publico a foto da minha corrida recebo “likes” e comentários de gente de todo o mundo.

Até da Coreia…do Sul.

Facilmente se conclui que, o que há uns anos era “moda”, diziam os corredores que correm há bastante tempo, como que a desprezar essa nova tribo, e diziam aqueles que não queriam sair do sofá, a chamada dor de cotovelo”, deixou de o ser.

É parte integrante da vida desses milhões de loucos. Todos os dias. Entranha-se. Vicia.

Hoje, hoje voltei a sentir esse olhar;

O tipo maluco, que vai aqui a passar, de calções e tshirt, a olhar para o relógio, aquele olhar que nos faz ler o pensamento: “o que é que deu a este tipo para andar aqui, assim”.

Quem nos olha não entende porque é que corremos, aparentemente, sem rumo, aparentemente. Mas, neste caso descodifica-se bem o pensamento do outro lado: se nunca usaste os meus sapatos, como podes querer saber o meu caminho?

Porque é que corro, o que me motiva a correr, o que sinto quando corro, e depois.

Se soubessem, entendiam, sendo que não é relevante que não o entendam, é apenas assunto para este texto, nada mais que isso.

Até porque é simples, corremos porque há algo comum, porque gostamos, porque nos divertimos, porque nos sentimos mais fortes, às vezes até nos sentimos heróis (só dentro das nossas cabeças), corremos porque vivemos, isso é parte da vida, ver, respirar, ultrapassar a nossa sombra, escutar a cadência dos nossos passos.

Correr pode ser tanta coisa, aquele momento do dia em que nos encontramos connosco e deixamos o stress no asfalto, o momento é que tratamos a alma e castigamos o corpo do pecado.

Cada um de nós, dos que correm, tem um ponto comum, mas o seu próprio objectivo.

No meu caso é superar um desafio que nunca me tinha passado pela cabeça, não chega a ser um sonho, que isso era ter um emprego novo e bem remunerado, ter mais tempo, menos preocupações, isso era o sonho, a maratona é um objectivo, só isso. Imenso, não é?

Eu não gosto de correr acompanhado, aliás, gosto pouco de socializar, mas creio que vou aprender a gostar, de vez em quando, para tornar tudo mais fácil, mas gosto de partilhar as experiências, as dores, as alergias, as músicas, os sítios, as minhas corridas.

Não porque me sinta um narciso, mas porque quando olho para as fotos, encaro o dia seguinte, mais que não seja porque as fotos são bonitas (sorrir, nesta parte).

Correr é tanto, que não há religião, classe social, crença política, cor.

Na corrida não ganha quem tem mais ou menos poder, mais ou menos dinheiro, quem é mais ou menos influente.

Isso mesmo provarei, quando estiver em Berlim, e não há nada mais libertador que isso.

Na corrida, ganha aquele que acorda mais cedo que o resto do planeta e sai para correr, ainda sem sol, ou já de noite, ou sob o sol escaldante, ou debaixo de chuva que pica a cara. Ganha aquele que leva com o vento pelo focinho.

Na corrida, ganha aquele que faz tudo para que aconteça, antes ou depois do trabalho, queira ou não, tenha vontade ou não.

Nisso já sou um vencedor.

Disse-me o meu treinador, sem se dar conta, quando soube que tinha feito apenas meio treino, porque “não me apeteceu correr mais”.

“Agora é que começámos, não é quando apetece, a maratona é sofrer, é quando tem que ser”.

Hoje, não me apetecia, mas aquela frase ecoava na minha cabeça.

Quero pertencer ao grupo dos “maratonistas”, quero ser um “maratonista”.

Por isso, planifico os meus dias em função dos treinos, ando a aprender a correr mais longe, mais rápido, mais forte.

O meu treinador, sem saber, ou se calhar sabendo-o bem, provocou em mim uma sensação, por ter feito apenas meio treino, que o meu professor de jornalismo me provocou há uns quase trinta anos.

Férias de Natal.

Avaliação. Notas excelentes a todas as disciplinas, menos em Géneros Jornalísticos.

“Porquê?”, perguntei ao professor Fernando Cascais.

“Porque quem quer ser jornalista deve saber que não se usa a palavra potencializar, neste caso. É potenciar. Você nunca chegará a jornalista”, e deu-me um nove.

A única negativa, que me estragou o Natal e me revoltou tanto que terminei a cadeira com dezoito.

Fiquei eternamente agradecido ao meu professor, de quem guardo imensa competência e saudade.

Nesse dia, depois de o escutar e de saber a nota, disse-lhe: “estragou-me o Natal”, ao que me interrompeu, “eu não, você é que estragou o seu Natal”.

Inspirei, “lamento, mas está enganado, eu irei ser jornalista, porque é o que eu quero ser”.

Ele, sabia isso quase melhor do que eu.

Hoje, se o meu professor lesse este texto ia perceber que eu também nunca quis ser corredor.

Vou ser “maratonista” !

 

 

2 comentários

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    The Cat Runner

    25.04.18

    Em boa hora nos encontrámos.
    Grande abraço.
  • Comentar:

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