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Sai mais uma lição de vida para a mesa do canto.

Aprendi que conseguimos fazer coisas que nunca antes imaginámos fazer.

Coisas que vão para além, até, da nossa vontade.

Aprendi-o no calçadão, durante a minha última corrida.

Confesso que há coisas que me  fazem temer, coisas que para outros são “com uma perna às costas”, mas se tivéssemos todos a mesma paleta éramos todos Leonardos Da Vinci, e não somos.

No final da semana passada começou a penetrar no meu sub-consciente o meu último treino, o mais recente.

Tinha que correr três vezes quatro quilómetros num determinado patamar cardíaco, que entre outras coisas mais importantes até, me permitia baixar tempos, a cada quilómetro.

Foi assim nas séries de dois quilómetros e nas séries de três.

Também nunca as tinha feito na vida mas fi-las e dentro das instruções que recebi.

Mas, quatro quilómetros?

Vezes três?

Depois de um quilómetro e meio a aquecer e mais quinhentos metros, no final?

Espera, quatorze quilómetros a um nível (que me lembre) só consegui nos primeiros dois anos de corrida?

Aquilo andou ali, no meu sub-consciente, a atemorizar-me, a assombrar-me, porque conheço os meus limites, porque sei que estou agora melhor que em Janeiro, mas ainda distante do que serei em Setembro.

Chegou o dia.

Idealizei o treino, começar no  jardim, ir até Alhandra, um e meio mais quatro feitos, voltar dois quilómetros, ir para trás mais dois, segunda série concluída, de Alhandra ao jardim, fim de treino, chamem o 112.

Foi assim que o sacana do meu sub-consciente andou a meter uma pressão brutal em mim.

Sabia que conseguia fazer o treino. Sabia que não ia conseguir andar ao ritmo definido.

Acontece que, a meio da segunda série, já com sete quilómetros e meio nas pernas bati contra um muro que eu próprio meti, ali, à minha frente.

Já no treino do dia anterior tinha falhado. Só consegui treinar meia hora, devido à fadiga, potenciada por factores externos que não são chamados ao caso.

Isto da corrida é do caraças.

Estava eu a imaginar onde e como ia inventar pernas para a segunda metade do treino, a entrar em stress, até a fita de medição cardíaca me estava a fazer passar.

Eu explico, a determinação em concluir o treino era tanta quanto o meu corpo se recusava a treinar.

E, sublinho, não tem a apenas a ver com o treino.

Nos últimos dias, quando vou treinar, levo comigo um peso extra, uma dormência temporária.

Os meus últimos treinos, devido a factores externos, têm sido hard-core. Grau 5 na escala da loucura.

Só que é assim que te tornas mais forte. Não é como começa é como acaba.

Foi essa a lição de vida, naquele calçadão.

Parece fácil, não é como começa é como acaba.

Mas, alguém faz ideia do caminho que se faz até chegar ao fim?

Eu faço.

Os meus dois últimos treinos foram atípicos. Era eu, a correr contra a minha ansiedade, contra os minutos, contra as batidas cardíacas, contra as passadas, contra quase tudo.

-“ Não é como começa, é como acaba. Esse é o meu truque nas minhas corridas. E, resulta”.

Disse-me o Zé Duarte, a determinada altura.

-“ Cada um gosta mais do seu tipo de treino, mas as séries são das coisas mais duras que existe, só que dão te resistência e velocidade. Agora custa-te, mas quando chegar a Setembro vai produzir efeitos”.

O Zé Duarte apareceu-me, em sentido contrário, precisamente a meio da minha segunda série.

Andava ali a rolar, até às 140 BPMs (que são as batidas que eu devia ter no quase pico do esforço, ele andava a rolar).

Obviamente que continuou o seu treino comigo, no meu registo, assim como assim não passava das 140 BPMs ( ah ah ah ).

A nossa conversa desenrolou-se nos restantes quase sete quilómetros - ainda nos cruzámos com o Sousa e com o Rui.

O Zé Duarte tem mais quatro anos que eu.

Ainda jogámos à bola juntos, era um guarda redes do caraças.

Foi ele quem me indicou o meu/nosso treinador.

O Zé Duarte vai só fazer umas duzentas milhas ali a Chamónix - Mont - Blanc, uma daquelas provas de topo, onde está a elite toda.

  • “ Óh Zé durante aquelas horas todas em que é que pensas, um, dois dias…?”.

Que ali não existe o tempo, que te esqueces e não dás por ele passar.

  • “ Como quando éramos putos e vamos brincar e o tempo passava num instante, é mais ou menos isso”.

Por esta altura o Zé ia à minha frente e eu seguia-lhe a passada, assim é mais fácil.

  • “Eu, quando treino séries treino sempre acompanhado, e séries de quatro quilómetros então…”

Depois, contou-me o que tem que preparar para uma prova daquelas, a mochila, a roupa para o frio, a comida, o equipamento, o telemóvel, por causa dos dados.

  • “ Como é que tens bateria durante aquele tempo todo?”

Diz que leva “powerbanks”.

Eu, acompanhando o seu passo, atrás dele, pensava;

Puta que pariu…No bom sentido, claro, que eu não sou ordinário.

  • “ Quantas BPMs?”:
  • “ 145…”.
  • “ Vês, treinar séries sozinho não dá, digo-te mais, eu faço 200 milhas tranquilo, mas se faço uma maratona mato-me todo…”.
  • “ Se eu fizesse uma maratona em três horas e meia também morria”.

Por esta altura, a meio da última série das três, confesso, já me arrastava.

  • “ 140, vês, estamos bem”.

O tempo começava a ficar curto, ele ainda tinha que acabar o treino dele, ir buscar o carro a casa e ir buscar a filha.

  • “ Vai a correr”, disse-lhe eu.

O Zé Duarte já tem muita maratona, muita montanha, muito quilómetro, muita experiência.

A lição estava a chegar ao fim.

Eu nunca treinei corrida. É a primeira vez.

Explicou-me o Zé que as barreiras que aparecem à nossa frente são para ser destruídas, é essa coisa a que muitos chamam superação.

O trabalho que estou a fazer desde Janeiro tem um só objectivo: chegar a Setembro em pico de forma, mais rápido, mais forte.

  • “ Meu, isto faz parte, tens que superar, continuar e ultrapassar o desconforto, porque não é agora que conta, é depois. Não é como começa é como acaba”.

Faltavam quinhentos metros.

  • “Zé acelera”.

Terminámos o treino nas 150 BPMs.

Contei tudo isto ao meu treinador, estes meus dois treinos dificultados por factores extra.

E, dali, como sempre veio aquela força, que já antes o Zé me tinha transmitido.

  • “Zé, keep on going. Um abraço”.

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Começa a ser cada vez mais intenso, este processo, cada vez mais duro e desafiante, cada vez mais exigente.

Eu sei, foi a isto que me propus!

Se é para “morrer” morremos de pé!

Hoje foi dia de massagens e já ressuscitei.

Entrei morto. Saí novo.

Isto não é como começa é como acaba.

Parece fácil?

Eu aprendi à minha custa!

 

 

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publicado às 11:55



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