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The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

The Cat Run

Uma cena sobre corrida em geral e running em particular e também sobre a vida que passa a correr. Aqui corre-se. Aqui só não se escreve a correr. Este não era um blog sobre gatos. A culpa é da Alice.

04.05.15

MUM IS ON THE RUN


The Cat Runner

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( Foto by the Cat´s mum ) 

 

Escrevo um dia depois do dia da mãe.

Ser transgressivo foi-me incutido por ela. Foi assim toda a vida. 

Por isso deixei o dia resvalar para hoje.

Não corri no dia da mãe simplesmente porque não deu.

Nem escrevi. Simplesmente não deu.

Hoje era o dia e vem isto a propósito das fotos que a minha mãe publica no Facebook. Foi assim que programei a coisa.

A minha mãe tira estas fotos quase todos os dias, exactamente no mesmo sítio onde eu corro todos os dias.

Eu corro, ela caminha.

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( Foto by the Cat´s mum ) 

Começou há mais de um mês. Normalmente vai sózinha, quatro quilómetros para cada lado. Outras vezes vai com uma amiga. O mesmo percurso.

Agora até já pára nos aparelhos para fazer exercícios.

- " O que me custa mais é aquele aparelho para fazer abdominais, aquelas barras de ferro dão-me cabo das costas."

É um dos aparelhos que foram instalados pela câmara, no fim do percurso e no início.

São utilizados democraticamente, braços, tronco e pernas. 

Pena é os bebedouros estarem sempre sem água, mas as gentes do Ribatejo estão habituadas às adversidades, às cheias e às secas.

Nunca lhe perguntei se decidiu começar a caminhar todos os dias porque eu corro quase todos os dias. Nunca lhe perguntei se foi porque eu me fartei de insistir com ela para começar a caminhar. A minha mãe é nova, pá!

Decidiu e, a minha mãe, quando decide uma coisa faz. Não a publicita, faz.

Faz a seu tempo, a seu jeito, à sua vontade. Ela é a única dona do seu caminho. E, guia-me, na vida e na pista onde corro, junto ao rio, que ela fotografa aos primeiros raios de sol.

Sempre que corro lembro-me da foto tirada horas antes.

 

                                                   

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 ( Foto by the Cat´s mum )

 

 O olhar da minha mãe não tem filtros. Nunca teve. Ela olha e regista.

A minha mãe gosta imenso das fotos que eu partilho, das minhas corridas.

Mas, as minhas fotos têm filtros. O Instagram é meu aliado. As dela não, são sem filtros, como o seu olhar.

Nunca partilhei o ir e vir com a minha mãe. Eu corro, ela caminha. Ela ensinou-me a caminhar. Eu não a posso ensinar a correr. A minha mãe é nova, mas nunca praticou exercício. Entrou agora nos 60, mas faz oito quilómetros por dia. Todos os dias. Ela vê nascer todos os dias.

Não é uma sortuda. Nada que lhe chega é por sorte. É por decisão dela.

Pouco depois das seis da manhã lá sai de casa, desce até junto ao rio, entra no jardim, vai até à vila mais próxima, sempre acompanhada pela maré e pelo sol que lhe oferece raios novos, aconchegantes, minuto a minuto.

E ela tira fotografias. E publica-as. Aprendeu com a Maria a partilhar nas redes sociais. Sem filtros.

Isso merece um prémio.

Continua a fumar, mas dá-lhe prazer. E charme.

Eu dei-lhe um prémio, no dia da mãe.

 

FOTO MAE 1

 

 ( Foto by the Cat ) 

 

Não eram estes, eram outros, mas o número não servia, a minha mãe tem pé de cinderela e já não havia o número a cima. Mas, eu sei que amanhã, quando for caminhar, vai tirar fotografias que o sol nunca viu.

Agora tenho que lhe oferecer um fato de treino e ensiná-la a utilizar uma app móvel. Sou um bruto. (Risos).

O fato de treino ela aceita. Tenho a certeza.

Não sei qual o motivo exacto que levou a minha mãe a juntar-se a uma comunidade de milhões de pessoas. É em todo o mundo. Parecem formigas. Uns, correm pouco, outros muito, uns caminham, outros rápido, uns lentos, formigas coloridas, trabalhadoras, carregam passos pesados, isso carregam.

O motivo exacto não sei, mas uma coisa sei, hei-de ir e vir com ela.

Ela não corre mas eu caminho. Foi ela quem me ensinou a caminhar.

Hei-de ir e vir com ela, desde o jardim até à vila mais próxima, sempre junto ao rio e às memórias. Havemos de meter a conversa em dia.

Alguma vez eu resistia a ver a minha mãe tirar a primeira fotografia do primeiro sol da manhã?

Sem filtros. Como ela.

Havemos de ir até lá e voltar.

Nunca acordei o dia a teu lado. Vamos acordá-lo juntos.

Depois vamos ao café, à esplanada, tomamos o pequeno almoço e eu acompanho-te num cigarro.

Eu corro à noite, não tem problema.

À noite o sol já se pôs.